PUBLICADO EM 29 de out de 2026

Trabalhadores da indústria relatam sintomas de estresse, ansiedade ou depressão

Pesquisa com 2.241 profissionais identificou maior vulnerabilidade entre mulheres, jovens e pessoas com doenças crônicas; resultados reforçam a necessidade de prevenção e acesso a tratamento

Cerca de três em cada dez trabalhadores da indústria apresentaram sintomas de estresse e ansiedade durante a pandemia. Foto: CNI, José Paulo Lacerda.

Cerca de três em cada dez trabalhadores da indústria apresentaram sintomas de estresse e ansiedade durante a pandemia. Foto: CNI, José Paulo Lacerda.

Cerca de três em cada dez trabalhadores de empresas industriais apresentaram sintomas de estresse, ansiedade ou depressão durante o início da recuperação econômica na pandemia de covid-19. Aproximadamente 10% dos participantes relataram sintomas graves ou extremamente graves, apontando a necessidade de atenção à saúde mental no ambiente de trabalho.

Leia também:

Escala 5×2: uma nova era nas relações de trabalho

Os dados são de uma pesquisa realizada pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP) e pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, o estudo reuniu 2.241 trabalhadores de nove empresas dos setores de manufatura e construção civil que mantiveram suas atividades durante a pandemia.

Os questionários foram respondidos de forma voluntária, anônima e on-line entre outubro e novembro de 2021. O instrumento utilizado avalia a presença e a intensidade dos sintomas, mas não estabelece diagnósticos clínicos. A maioria dos participantes exercia funções administrativas, e quase metade trabalhava exclusivamente em casa.

Mulheres e jovens entre os mais vulneráveis

O levantamento identificou maior vulnerabilidade entre mulheres, trabalhadores mais jovens e pessoas com doenças crônicas. O trabalho híbrido também esteve associado a níveis mais elevados de estresse, ansiedade e depressão em comparação ao presencial. A pesquisa, porém, não permite concluir que o modelo de trabalho tenha causado os sintomas.

Segundo o psiquiatra Geilson Lima Santana, primeiro autor do estudo, os resultados representam uma fotografia da saúde mental desses profissionais na fase inicial de reabertura econômica, após o início da vacinação. Cerca de 20% dos participantes apresentaram sintomas leves ou moderados, enquanto aproximadamente 10% tiveram manifestações graves ou extremamente graves.

Durante a pandemia, trabalhadores que permaneceram em atividades presenciais conviveram com a necessidade constante de prevenção, o medo do contágio e a preocupação de transmitir o vírus aos familiares. Esse cenário ampliou a carga psicológica e manteve muitos profissionais em estado persistente de alerta.

Prevenção e atendimento precisam caminhar juntos

Para os pesquisadores, enfrentar o sofrimento mental exige ações nas empresas e acesso efetivo aos serviços de saúde.

“Não basta apenas oferecer suporte organizacional, há condições mentais que exigem assistência médica estruturada”, afirma o médico Alberto José Niituma Ogata, pesquisador do FGV Saúde e coautor do estudo.

Ogata também alerta que o comprometimento da saúde mental de profissionais que continuam trabalhando pode aumentar o risco de acidentes. Por isso, defende que as empresas identifiquem essas situações antes que resultem em afastamentos.

A médica Ana Maria Malik, também pesquisadora do FGV Saúde e coautora do artigo, chama atenção para a insuficiência dos serviços disponíveis. “Está todo mundo falando em saúde mental, mas ainda falta infraestrutura para atender as pessoas”, afirma.

Entre as medidas apontadas estão a gestão de riscos psicossociais, avaliações periódicas da saúde mental, atenção aos grupos mais vulneráveis e encaminhamento para tratamento quando necessário. Os autores também defendem o acompanhamento contínuo dos pacientes, com apoio para superar dificuldades de acesso a profissionais, medicamentos e continuidade do cuidado.

O estudo está disponível na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional.

Com informações da Agência Bori e do Jornal da USP.

Leia também:

Sabesp recebe 116 autuações por demissões em massa

Sabesp recebe 116 autuações por demissões em massa

ENVIE SEUS COMENTÁRIOS

COLUNISTAS

QUENTINHAS