
Cerca de três em cada dez trabalhadores da indústria apresentaram sintomas de estresse e ansiedade durante a pandemia. Foto: CNI, José Paulo Lacerda.
Cerca de três em cada dez trabalhadores de empresas industriais apresentaram sintomas de estresse, ansiedade ou depressão durante o início da recuperação econômica na pandemia de covid-19. Aproximadamente 10% dos participantes relataram sintomas graves ou extremamente graves, apontando a necessidade de atenção à saúde mental no ambiente de trabalho.
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Os dados são de uma pesquisa realizada pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV EAESP) e pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP. Publicado na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, o estudo reuniu 2.241 trabalhadores de nove empresas dos setores de manufatura e construção civil que mantiveram suas atividades durante a pandemia.
Os questionários foram respondidos de forma voluntária, anônima e on-line entre outubro e novembro de 2021. O instrumento utilizado avalia a presença e a intensidade dos sintomas, mas não estabelece diagnósticos clínicos. A maioria dos participantes exercia funções administrativas, e quase metade trabalhava exclusivamente em casa.
Mulheres e jovens entre os mais vulneráveis
O levantamento identificou maior vulnerabilidade entre mulheres, trabalhadores mais jovens e pessoas com doenças crônicas. O trabalho híbrido também esteve associado a níveis mais elevados de estresse, ansiedade e depressão em comparação ao presencial. A pesquisa, porém, não permite concluir que o modelo de trabalho tenha causado os sintomas.
Segundo o psiquiatra Geilson Lima Santana, primeiro autor do estudo, os resultados representam uma fotografia da saúde mental desses profissionais na fase inicial de reabertura econômica, após o início da vacinação. Cerca de 20% dos participantes apresentaram sintomas leves ou moderados, enquanto aproximadamente 10% tiveram manifestações graves ou extremamente graves.
Durante a pandemia, trabalhadores que permaneceram em atividades presenciais conviveram com a necessidade constante de prevenção, o medo do contágio e a preocupação de transmitir o vírus aos familiares. Esse cenário ampliou a carga psicológica e manteve muitos profissionais em estado persistente de alerta.
Prevenção e atendimento precisam caminhar juntos
Para os pesquisadores, enfrentar o sofrimento mental exige ações nas empresas e acesso efetivo aos serviços de saúde.
“Não basta apenas oferecer suporte organizacional, há condições mentais que exigem assistência médica estruturada”, afirma o médico Alberto José Niituma Ogata, pesquisador do FGV Saúde e coautor do estudo.
Ogata também alerta que o comprometimento da saúde mental de profissionais que continuam trabalhando pode aumentar o risco de acidentes. Por isso, defende que as empresas identifiquem essas situações antes que resultem em afastamentos.
A médica Ana Maria Malik, também pesquisadora do FGV Saúde e coautora do artigo, chama atenção para a insuficiência dos serviços disponíveis. “Está todo mundo falando em saúde mental, mas ainda falta infraestrutura para atender as pessoas”, afirma.
Entre as medidas apontadas estão a gestão de riscos psicossociais, avaliações periódicas da saúde mental, atenção aos grupos mais vulneráveis e encaminhamento para tratamento quando necessário. Os autores também defendem o acompanhamento contínuo dos pacientes, com apoio para superar dificuldades de acesso a profissionais, medicamentos e continuidade do cuidado.
O estudo está disponível na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional.
Com informações da Agência Bori e do Jornal da USP.
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