
Séries que deveriam estar entre as melhores: The Last Kingdom é uma delas
Por Carolina Maria Ruy
No dia 25 de setembro, o jornal The New York Times publicou uma lista das que considera as 100 melhores séries do século 21. Embora a seleção inclua ótimas produções, achei o resultado frustrante. Uma lista sem graça, sem novidades, com as mesmas melhores séries de sempre. Existem outras séries muito boas sendo produzidas, mas que não recebem tanta publicidade.
Leia também:
Cinebiografia de Michael Jackson não traduz seu talento
Acho que não é preciso fazer mais uma lista para falar de Breaking Bad, The Wire e Mad Men, que são ótimas, mas já foram celebradas o suficiente. Além disso, há escolhas bastante questionáveis logo entre as dez primeiras, como Fleabag e Veep: séries até engraçadinhas, mas longe de serem as melhores em alguma coisa.
Também contesto fortemente a presença de Game of Thrones no TOP 10. É uma série infanto-juvenil? Acho que é.
Já Dr. House, uma das melhores séries já feitas, aparece na longínqua 95ª posição, bem atrás de uma porção de produções ruins.
Vejo com desconfiança uma lista como essa, sobretudo porque muitas séries boas não são lembradas. Fiquei pensando: quais critérios orientam esses rankings? Houve pesquisa, consulta ou o jornal apenas copiou e colou listas anteriores? Até que ponto o marketing dos estúdios ou das distribuidoras influencia as escolhas? Os jurados citaram as primeiras que lhes vieram à cabeça?
Enfim, a impressão que tive foi de que há uma preguiça de ver séries. Seria mais interessante para o debate — que pode ser amplo e levantar questões importantes — tentar ir além da mesmice.
Resolvi, então, por conta própria, propor uma lista de dez séries que nunca vejo nos rankings das melhores, mas que, na minha opinião, mereciam estar lá.
Em ordem decrescente:
10 – The Tunnel (2013) — Prime

The Tunnel, uma série que captura a essência da violência e das relações humanas.
Versão anglo-francesa de The Bridge, é uma série de investigação criminal pesada. Escrevi uma vez que ela tem a atmosfera de uma quarta-feira cinzenta (risos). Mas não pelo tédio: é pela angústia, pela densidade e por aquela sensação de que o céu não vai abrir tão cedo. É triste a maneira como as histórias se desenrolam, nas relações entre as personagens e no que as investigações revelam sobre as pessoas. A tensão vai se acumulando, e a vontade de descobrir o que aconteceu convive com o receio do que ainda está por vir. Gosto de séries que conseguem criar esse mundo próprio, com essa temperatura e carga emocional. The Tunnel tem isso. É uma série que pesa, envolve e deixa marcas.
9 – Tokyo Vice (2022) — HBO

Tokyo Vice
Pense numa série boa. Agora acrescente um ótimo elenco e o glamour de uma metrópole cheia de contrastes. A trama se passa em Tóquio, e os personagens japoneses falam japonês. Parece óbvio, mas, em tantas produções, fala-se inglês em qualquer lugar do mundo. Aqui, esse cuidado ajuda a nos transportar para a cidade e para o universo da história na qual um jornalista americano passa a investigar a Yakuza e se envolve com seus membros. Tóquio é muito mais do que um cenário bonito. Os ritmos, suas luzes, seus lugares e os hábitos são fascinantes. A modernidade convive com a violência, o perigo atravessa as relações, e a cidade vai se revelando nesta trama intrigante.
8 – Whitechapel (2009) — Prime

Whitechapel
Um suspense policial sombrio e com humor inglês. A primeira temporada retoma o caso de Jack, o Estripador, numa investigação que explora a memória dos crimes e a atmosfera de Londres. Clima londrino, becos e ruas estreitas. Há algo de macabro, mas também de curioso e envolvente nesse universo. E o humor aparece em meio à tensão, nas situações e nas relações entre as personagens, tornando tudo ainda mais peculiar. Uma série com personalidade. Pena que saiu do catálogo no Brasil. ☹
7 – O Método Kominsky (2018) — Netflix

O Método Kominsky trata de questões caras à masculinidade. Foto: reprodução
Não tem como não gostar. Ver Michael Douglas nesse papel não tem preço. A grande sacada da série é abordar assuntos sérios — câncer de próstata, separações e relações mal resolvidas com os filhos, entre outros — com humor e pela perspectiva de homens que já chegaram aos 60, 70 ou 80 anos. Gente que tem muita experiência, mas continua sem saber muito bem como lidar com a vida.
É satisfatório acompanha-lo tentando administrar o próprio corpo, os afetos, as perdas e a necessidade de continuar. O humor tem espaço para a implicância, para o absurdo e para aquelas conversas em que a intimidade permite dizer quase tudo. Mas também há muita delicadeza na maneira de tratar a amizade e o envelhecimento.
6 – A Nova Vida de Toby (2022) – Disney +

A Nova Vida de Toby
Começa com um ar de comédia romântica cult, à la Woody Allen, e aos poucos se transforma em um drama sobre crises existenciais e saúde mental. O que parece ser a história de um homem recém-divorciado tentando reorganizar a vida ganha outras camadas quando a série muda de perspectiva e nos faz rever o que julgávamos ter entendido sobre os personagens. Comovente, inteligente e com um elenco de primeira.
5 – After Life (2019) — Netflix

After Life
A melhor série do Ricky Gervais. Melhor que The Office. Gervais é polêmico e tem um estilo muito próprio. Humor ácido. Aqui, ele interpreta Tony, um jornalista de uma cidade pequena da Inglaterra que, depois da morte da mulher, perde a paciência com o mundo e passa a dizer tudo o que pensa. As entrevistas para o jornal são inusitadas, falam de pessoas simples e histórias banais. É uma comédia inteligente e humana. Dá atenção a pessoas simples, que teriam pouco espaço em outras histórias.
4 – The Chair (2021) — Netflix

The Chair
Escondida no catálogo, The Chair, com Sandra Oh, aborda a tentantiva de mudandas em uma universidade e a resistência de professores que dão os mesmos cursos há décadas. É engraçada, inteligente e sensível, com temas atuais e conflitos que vão muito além da sala de aula. E ainda é curtinha.
3 – And Just Like That (2021) — HBO

And Just Like That desafia estereótipos, mostrando que frescor e diversão continuam com a idade. Foto: reprodução.
Sobre esta continuação de Sex and the City, assumo: adoro, não tem jeito. É um elogio à vida moderna e, principalmente, à vida nas grandes cidades, com seus encontros, possibilidades e contradições.
É inspirador acompanhar personagens que envelhecem sem perder o desejo de viver, amar, experimentar e descobrir quem são. As perdas, as inseguranças e os desencontros convivem com o humor, a moda e o prazer de uma boa conversa entre amigas. Além disso, é um grande feito manter em pauta, por 27 anos (desde a estreia de Sex and the City em 1998) uma história que acompanha a vida e o amadurecimento de um grupo de mulheres.
2 – Histórico Criminal (2024) — Apple

Historico Criminal
Trama muito boa, “sangue no zóio”, gente disposta a sujar as mãos e dilemas sobre poder, política e o papel da polícia. Uma investigação coloca em confronto dois detetives com trajetórias e métodos diferentes, em uma disputa na qual descobrir a verdade significa também enfrentar interesses, proteger reputações e mexer no que muita gente preferia deixar enterrado.
A série prende pela tensão entre os personagens e pela forma como as relações de poder atravessam o trabalho policial. E tem Peter Capaldi, excelente como Daniel Hegarty, um personagem que nos mantém atentos a cada gesto e intenção. É difícil saber até onde ele vai — e essa incerteza é uma das melhores coisas da série.
1 – The Last Kingdom (2015) – Netflix

Alfredo (David Dawson) e Uhtred (Alexander Dreymon) na primeira temporada de The Last Kingdom
Por último, e em primeiro lugar, deixei a melhor de todas: a saga de Uhtred, do rei Alfredo e dos vikings no século IX. É uma história maravilhosa, com batalhas violentas, reviravoltas e acontecimentos marcantes a cada episódio. A relação ambígua entre Alfredo e Uhtred, feita de admiração, desconfiança e dependência mútua, é um dos pontos mais fascinantes da trama. Há sempre algo mal resolvido entre os dois, algo que não se diz inteiramente e deixa questões em aberto. The Last Kingdom é daquelas séries que nos levam para longe, no tempo e no espaço. Não entendo como essa série não é venerada por multidões nem como ainda não existe uma seita em torno dela.
Para quem gosta de séries
Para muito além de Breaking Bad e The Wire, são séries que propõem outras reflexões e descortinam novos mundos. Para quem realmente gosta e leva a sério o hábito de sentar e assistir, de conversar sobre as histórias e os personagens, de refletir e sentir com eles. Obras que revelam atores surpreendentes, produções sedutoras, projeções e inspirações.
Minha lista também é pessoal e certamente deixa muita coisa boa de fora. Mas a ideia é essa: ampliar a conversa, trocar indicações e dar uma chance a histórias que nem sempre aparecem nos rankings. Afinal, para quem gosta de séries, poucas coisas são tão boas quanto descobrir uma que nos surpreenda e dê vontade de dizer: você precisa assistir.
Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora


