PUBLICADO EM 14 de jan de 2019
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Colunista Carolina Maria Ruy

Sobre os erros da esquerda

As eleições de 2018 foram trágicas para a esquerda brasileira. Jair Bolsonaro, com seu até então insignificante PSL, tomou o Brasil como uma avalanche, um tsunami, uma catástrofe natural para a qual não estamos preparados, arrastando casas, árvores, carros.

Segundo nossos padrões, era improvável que Bolsonaro ganhasse. Antes da campanha na TV diziam que seus 8 segundo iriam reduzi-lo à sua pequenez. Quando começaram os debates diziam que ele perderia quando começasse a falar. Quando ele começou a crescer nas pesquisas, diziam que já tinha atingido o teto. Quando ficou claro que ele ia para o segundo turno, diziam que ele perderia para “qualquer um”. Bem, o que ficou comprovado é que o padrão mudou.

Achei curiosa sua vitória e fiquei pensando porque tantos brasileiros o elegeram. Tantos brasileiros que votaram em Lula e em Dilma. Que nesta eleição mesmo votariam em Lula, se ele fosse candidato. O que deixamos passar?

Lembrei da comoção popular em torno da morte, em 2015, do cantor sertanejo Cristiano Araújo e da crônica que o jornalista Zeca Camargo fez na ocasião. O jovem cantor, falecido precocemente em um triste acidente, não era conhecido nos grandes centros e a comoção em torno da tragédia causou surpresa. De uma hora para outra vimos pela TV milhões de fãs de um ídolo desconhecido. Zeca Camargo falou de uma “pobreza da alma cultural brasileira” e da falta de “ídolos de verdade”.

Foi assim que eu vi, não apenas a eleição, mas o engajamento popular em torno de um político com ideias tão estranhas (e repulsivas) aos formadores de opinião de todo campo autoproclamado civilizado.

Resta-nos agora repensar nossos padrões. Não nosso padrão político e social, visto a esquerda comprovadamente sustenta os mais inclusivos e avançados programas para um país. Mas sim nosso padrão de comunicação, ação e auto entendimento.

A despeito das surpresas destas eleições, o comportamento errante e vacilante da esquerda já demonstrava que o resultado seria ruim para este campo. Os partidos de esquerda, na minha opinião, sintetizaram em 2018 os principais erros que vem alimentando desde pelo menos a segunda eleição de Dilma Rousseff. Por isso chamei esta eleição de “laboratório de erros”, onde situações são testadas e o erro é validado. O lado bom é que podemos pegar este caso específico e nos debruçar sobre ele, com o objetivo, espero, de não reproduzir os mesmos erros. Pensando nisso, e para que eu mesma possa organizar minhas reflexões, resolvi listar alguns fatos que, pelo que entendo, nos lançaram à esta retumbante derrota. Como um exercício didático mesmo. Talvez possa lhe ser útil. Vamos à lista:

Erro 1: Rifar os sindicatos. Não entender que o movimento sindical é o principal movimento social.

Erro 2: Considerar a luta de classes fora de moda.

Erro 3: Ser arrogante.

Erro 4: Idealizar o “povo”.

Erro 5: Subestimar o inimigo.

Erro 6: Não ter “timing”.

Erro 7: Achar que ser esquerda é um fim em si.

Erro 8: Pregar para convertidos.

Erro 9: Ter as cúpulas dos principais partidos e organizações cada vez mais brancas, com traços europeus e de classe média remediada.

Erro 10: Ser sisudo e não saber rir de si mesmo.

Erro 11: Focar nas divergências e não nas convergências.

Erro 12: Não admitir críticas.

Erro 13: Ser dogmático.

Erro 14: Pensar que tudo que não é esquerda, é direita.

Erro 15: Subestimar a imprensa.

Erro 16: Achar-se superior.

Erro 17: Achar que vai ensinar/doutrinar quem não se enquadra no “padrão esquerda”.

Erro 18: Supervalorizar uma ação formada apenas e restritamente por mulheres de esquerda e, ao mesmo tempo, condenar e ridicularizar mulheres que não se enquadram nos “padrões esquerda”.

Erro 19: Ser estereotipadamente feminista no discurso e, na prática, criar dificuldades e jogos de poder com as mulheres com as quais convive (vale para mulheres e homens).

Erro 20: Subestimar as redes sociais.

Erro 21: Não saber o valor da passagem de ônibus e metrô.

Erro 22: Ser autoindulgente.

Erro 23: Ser personalista.

Erro 24: Soberba intelectual/cultural.

Erro 25: Ser demagogo.

Um ou outro erro que me escapa no momento pode ser acrescentado posteriormente. O que importa é que não podemos perder essa chance de aprender! Sobre a direita, eu não faria uma lista de erros da direita porque entendo que ela é, como um todo, um grande erro político. Um erro que só atrapalha, atrasa a vida e se impõe através de manipulações e ideias colocadas erradamente.

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  • Carlos candeias

    Resumindo, aquilo que a esquerda valoriza é o ideal? Onde chega a prepotência sua. Me poupe sua analogia é muito vazia a despeito da Direita.

  • Danizoberto Venancio

    Excelente autocrítica!!

  • Eliana Ferreira

    Erro 26: Apelar/Enfiar os pés pelas mãos

  • Luiz Fernando Emediato

    Excelente. Que nos sirva de roteiro e lição.

QUENTINHAS