
Milton Santos, 100 anos: geógrafo brasileio teorizou sobre desigualdades/Foto: Acervo Milton Santos/Divulgação
Na cidade de São Luís, o contraste entre grandes redes de supermercados e pequenos comércios de bairro revela muito mais do que diferentes formas de consumo. A coexistência entre esses espaços expõe, na prática, as desigualdades urbanas que marcam o cotidiano da população de baixa renda.
Mercadinhos, quitandas e feiras populares surgem como alternativas adaptadas à realidade de quem não consegue acessar os grandes centros de consumo. Nessas áreas, práticas como a venda fracionada de alimentos — inclusive de itens básicos como ovos — mostram a criatividade e a necessidade de adaptação diante da restrição de renda.

Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo (USP), e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão. Foto: Arquivo pessoal
O fenômeno foi analisado pela pesquisadora Livia Cangiano, pós-doutoranda na Universidade de São Paulo e professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão. O estudo retoma a teoria dos “dois circuitos da economia urbana”, formulada por Milton Santos na década de 1970.
Segundo o geógrafo, a economia das cidades se divide entre o circuito superior — formado por grandes empresas, com alto nível de capital, tecnologia e organização — e o circuito inferior, composto por pequenos comércios e serviços, mais flexíveis e próximos das necessidades da população.
“É muito difícil para as pessoas da periferia se deslocarem até o centro para consumir. Por isso, elas criam seus próprios espaços de comércio”, explica Livia. “No circuito inferior, por exemplo, é possível comprar apenas um ovo, algo inviável nas grandes redes.”
Pensamento atual e global
Neste 3 de maio, data em que se celebra o centenário de nascimento de Milton Santos, sua obra segue como referência para compreender as dinâmicas sociais e econômicas contemporâneas. Falecido em 2001, aos 75 anos, o geógrafo permanece influente no Brasil e no exterior.
As ideias do autor vêm sendo aplicadas, inclusive, em pesquisas internacionais que analisam dinâmicas urbanas em países como Gana, além de cidades como Londres e Paris.
Trajetória marcada por resistência
Nascido em Brotas de Macaúbas, em 1926, Milton Santos se tornou um dos principais nomes da geografia mundial. Formado pela Universidade Federal da Bahia, concluiu o doutorado na Universidade de Strasbourg.
Durante a ditadura militar, foi exilado e lecionou em instituições na Europa, África e América Latina. De volta ao Brasil, atuou como professor na Universidade Federal do Rio de Janeiro e na própria USP.
Homem negro, enfrentou o racismo estrutural no meio acadêmico e construiu uma obra que influenciou gerações. Entre elas está a geógrafa Catia Antonia da Silva, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
“Milton foi fundamental não só na minha formação técnica, mas também humana”, afirma. Segundo ela, embora não tenha centrado sua obra na questão racial, o geógrafo desenvolveu uma teoria crítica das desigualdades que contribui para analisar também o racismo.
Desigualdade como produto político
Para Milton Santos, o espaço urbano não é neutro. Ele é resultado direto de decisões políticas e econômicas. Assim, a falta de infraestrutura em periferias — como saneamento, transporte e acesso à internet — não é fruto do acaso, mas consequência de escolhas que privilegiam determinados grupos.
A análise também aparece em obras como Por uma outra globalização, na qual o autor critica o modelo global dominante, que promete integração, mas amplia desigualdades.
Outro conceito central é o de “meio técnico-científico-informacional”, que descreve como tecnologia, ciência e infraestrutura moldam o território, criando regiões altamente conectadas ao lado de áreas marginalizadas.
Território como resistência
Apesar do diagnóstico crítico, Milton Santos também apontava caminhos. Para ele, as mesmas ferramentas que ampliam desigualdades podem ser apropriadas pelas populações para criar alternativas.
Iniciativas comunitárias, economia solidária e o uso de tecnologias nas periferias demonstram que o território também é espaço de resistência e reinvenção social.
“Ele nos convida a ir a campo, entender o cotidiano e reconhecer que a periferia é capaz de produzir outras formas de existência”, destaca Livia.

Milton Santos, geógrafo brasileiro
Centenário mobiliza eventos
O centenário de Milton Santos será marcado por uma série de atividades no país. Entre os destaques está o Seminário Internacional “Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21”, que ocorre de 4 a 8 de maio na USP, em parceria com o Instituto de Estudos Brasileiros.
No Rio de Janeiro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas do Sesc promove um ciclo de palestras ao longo do mês. Já a Universidade Federal do Tocantins realizará, em agosto, um evento internacional dedicado à obra do geógrafo.
Mais de duas décadas após sua morte, o pensamento de Milton Santos segue atual — ajudando a interpretar as desigualdades urbanas e a pensar caminhos possíveis para um futuro mais justo.
Com Agência Brasil
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