PUBLICADO EM 30 de jul de 2021
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Músicas para celebrar a história negada pela elite; música

Ao incendiar a estátua do bandeirante Borba Gato, em São Paulo, o grupo Revolução Periférica queria provocar uma polêmica, e provocou, acerca da história que nos é contada nos bancos escolares. A história dos dominantes.

Pabllo Vittar, Majur e Emicida, no clipe de “AmarElo” (Foto: Divulgação)

Por Marcos Aurélio Ruy

Muitos criticaram o incêndio ao bandeirante. Esquecem que “a luta política condiciona o conhecimento do passado e a seleção e hierarquização dos fatos em relatos consistentes nos quais os acontecimentos e os heróis podem surgir como legitimadores do status quo atual e da dominação de classe. Ou da contestação a esse status quo a partir da emergência de novas forças sociais cujo objetivo é construir novas, mais avançadas e justas maneiras de viver em sociedade”, como escreveu José Carlos Ruy (1950-2021). Os bandeirantes estavam a serviço da manutenção do sistema opressor.

Aqui a música popular brasileira em toda a sua diversidade tenta contar a história do ponto de quem sofre com os desmandos dos poderosos. Aqui a história do lado de quem luta contra o sistema. De quem visa construir o novo. De quem não chora estátuas de assassinos e escravagistas queimadas ou derrubadas.

Porque “quem vai impedir que a chama/saia iluminando o cenário/saia incendiando o plenário/saia inventando outra trama” (Chico Buarque e Pablo Milanéz). História que segue.

Cidinho & Doca

A dupla de funk carioca, Cidinho & Doca se originou na favela Cidade de Deus, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. É o favelado falando com muita propriedade da favela para desconstruir o mito de que em favela só tem bandido.

“Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer
Com tanta violência eu sinto medo de viver
Pois moro na favela e sou muito desrespeitado
A tristeza e alegria aqui caminham lado a lado
Eu faço uma oração para uma santa protetora
Mas sou interrompido à tiros de metralhadora
Enquanto os ricos moram numa casa grande e bela
O pobre é humilhado, esculachado na favela
Já não aguento mais essa onda de violência
Só peço a autoridade um pouco mais de competência

Eu só quero é ser feliz
Andar tranquilamente na favela onde eu nasci”

 

Rap da Felicidade (1994), de Cidinho e Doca

Milton Nascimento

Mais uma vez Milton Nascimento, de coração mineiro, resgata a luta de classes e lado a lado com a luta antirracista.

“Filho do senhor vai embora

Tempo de estudos na cidade grande

Parte, tem os olhos tristes

Deixando o companheiro na estação distante

Não esqueça, amigo, eu vou voltar

Some longe o trenzinho ao Deus-dará

Quando volta já é outro

Trouxe até sinhá mocinha para apresentar

Linda como a luz da lua

Que em lugar nenhum rebrilha como lá

Já tem nome de doutor

E agora na fazenda é quem vai mandar

E seu velho camarada

Já não brinca mais, trabalha”

 

Morro Velho (1967), de Milton Nascimento

Tom Jobim e Vinicius de Moraes

Os cariocas da gema Tom Jobim e Vinicius de Moraes fizeram inúmeros clássicos da bossa nova. A música popular brasileira nunca mais foi a mesma depois deles. Aqui cantam a necessidade de o morro descer para o asfalto porque a revolução virá da periferia.

“Morro pede passagem

Morro quer se mostrar

Abram alas pro morro

Tamborim vai falar

O morro não tem vez

Mas se derem vez ao morro

Toda a cidade vai cantar”

 

O Morro (1962), de Tom Jobim e Vinicius de Moraes; canta Tom Jobim

Elizeth Cardoso

A Divina, Elizeth Cardoso (1920-1990) foi uma das mais importantes cantoras do país. Sempre atenta às novidades, gravou em 1958 a música Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, com João Gilberto ao violão.

“Vai, vai barracão

Pendurado no morro

E pedindo socorro

Ai, à cidade a teus pés

Vai, barracão

Tua voz eu escuto

Não te esqueço um minuto

Porque sei que tu és

Barracão de zinco”

 

Barracão de Zinco (1953), de Luiz Antônio e Oldemar Magalhães; canta Elizeth Cardoso com Época de Ouro e Jacob do Bandolim

Emicida

O paulista Emicida se transformou numa das grandes vozes da periferia na música popular brasileira. Canta a vontade de superar esse sistema opressor, dado voz à classe trabalhadora.

“Permita que eu fale, e não as minhas cicatrizes

Elas são coadjuvantes, não, melhor, figurantes

Que nem devia tá aqui

Permita que eu fale, e não as minhas cicatrizes

Tanta dor rouba nossa voz, sabe o que resta de nós?

Alvos passeando por aí

Permita que eu fale, não as minhas cicatrizes

Se isso é sobre vivência, me resumir à sobrevivência

É roubar um pouco de bom que vivi

Por fim, permita que eu fale, não as minhas cicatrizes

Achar que essas mazelas me definem é o pior dos crimes”

 

AmarElo (2019), de Emicida, Felipe Adorno Vassao e Eduardo Dos Santos Balbino; sample Sujeito de Sorte, de Belchior; cantam Emicida, Majur e Pabllo Vittar

Paulinho da Viola

Um dos mais importantes compositores brasileiros, Paulinho da Viola canta a dor de um povo perseguido e a esperança de construir o novo, sabendo que a revolução além de periférica é negra e feminina.

“Por fim achei um corpo, nega

Iluminado ao redor

Disseram que foi bobagem

Um queria ser melhor

Não foi amor nem dinheiro a causa da discussão

Foi apenas um pandeiro

Que depois ficou no chão

Não tirei minha viola

Parei, olhei, fui-me embora

Ninguém compreenderia um samba naquela hora

Hoje eu vim, minha nega

Sem saber nada da vida

Querendo aprender contigo a forma de se viver

As coisas estão no mundo só que eu preciso aprender”

 

Coisas do Mundo Minha Nega (1968), de Paulinho da Viola

Chico Buarque e Pablo Milanéz

Chico Buarque e o cubano Pablo Milanéz dispensam apresentações. Em defesa da unidade da América Latina cantam que “a história é um carro alegre/Cheio de um povo contente/Que atropela indiferente/Todo aquele que a negue”.

“Quem vai impedir que a chama

Saia iluminando o cenário

Saia incendiando o plenário

Saia inventando outra trama

 

Quem vai evitar que os ventos

Batam portas mal fechadas

Revirem terras mal socadas

E espalhem nossos lamentos

 

E enfim quem paga o pesar

Do tempo que se gastou

De las vidas que costó

De las que puede costar

 

Já foi lançada uma estrela

Pra quem souber enxergar

Pra quem quiser alcançar

E andar abraçado nela”

 

Canção pela Unidade Latino-Americana (1975), de Pablo Milanés, adaptação de Chico Buarque feita em 1978; cantam Chico e Milton Nascimento

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