PUBLICADO EM 12 de maio de 2018
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Colunista Val Gomes

Outros tons

Quando surgiu a banda Os Paralamas do Sucesso, em 1983, o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar e, portanto, sob anos de repressão, autoritarismo, perseguição e execução de opositores. Vejo a banda, então, dentro do contexto inaugurado um ano antes por outra banda, a Blitz, de extravasamento da energia represada por meio da estética festiva musical do pop-rock brasileiro.

A Blitz, aliás, com estrondoso sucesso comercial, levou para os palcos a teatralidade das apresentações musicais de Arrigo Barnabé, artista inovador surgido no final dos anos 1970, que, sem desprezar a tradição da significativa e diversificada MPB, inseriu novas (a)tonalidades na construção de canções.

A partir das letras das canções é possível ver se o autor ou autores expressam com sensibilidade social e visão política dos fatos ocorridos, presentes e profeticamente futuros. Encontramos isto, por exemplo, dentro da linha evolutiva da MPB, desde os anos 1960 até os dias de hoje, na arte significativa de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Clube da Esquina, etc. etc., e nos trabalhos recentes que -à margem do fechado mercado de entretenimento- podem ser encontrados na Internet e em estúdios e palcos alternativos.

Podemos ver o grau de politização de bandas como os Os Paralamas, surgidas na época de redemocratização do País, do movimento das Diretas, Já! e do Rock in Rio, não só pela importante avaliação das letras, mas também na estética das apresentações em palco e na mídia e no incentivo que toda esta agitação cultural deu ao surgimento de inúmeras outras bandas, inclusive as de garagem, o que não deixa de ser uma democratização do fazer música, tirando um certo caráter elitista(*) que antes se via mais na música erudita e no jazz, mas que passou a ser percebido, no Brasil, também nas consagradas, sofisticadas e fundamentais Bossa Nova e MPB.

Val Gomes é jornalista

(*) Este caráter elitista, a meu ver, não é culpa dos músicos. É fruto da falta de investimentos na educação musical básica da população e isto são outros quinhentos.

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