PUBLICADO EM 26 de out de 2026

Colunista: Modernidade e Pós Modernidade

O futuro chegou ao presente: a eleição de Lula e a alvorada da era pós-moderna

A eleição de Lula marca um novo ciclo político no Brasil, com a consagração de um quarto mandato histórico.

Apoiadores comemoram eleição de Lula na Avenida Paulista no dia 25 de outubro de 2026. Foto: Facebook Lula.

Apoiadores comemoram eleição de Lula na Avenida Paulista no dia 25 de outubro de 2026. Foto: Facebook Lula.

Por Diógenes Sandim Martins

​O Dia Seguinte à História

​O Brasil acordou diferente neste 26 de outubro. A confirmação da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas urnas neste domingo (25), selando a conquista de um histórico quarto mandato presidencial, não é apenas mais um marco na cronologia política nacional: é a consagração de uma metamorfose histórica.

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Pós-modernidade e o engano da disrupção

​Ao longo de décadas, a identidade brasileira carregou a célebre marca conferida pelo escritor austríaco Stefan Zweig em 1941: a de ser, eternamente, o “País do Futuro”. Contudo, o resultado das urnas ontem sugere que o relógio da história finalmente acertou os ponteiros. O futuro não é mais uma promessa distante ou uma utopia projetada no horizonte; ele começou agora, projetando o Brasil no centro da transição global para o que os analistas e pensadores chamam de o Novo Ciclo Pós-Moderno.

​ A Encarnação Viva do Mito Modernista

​Para compreender o significado dessa vitória, é preciso ir além dos números eleitorais e recorrer à essência cultural que molda a brasilidade. Como já ressaltado em análises anteriores sobre a trajetória deste personagem singular, Lula não se limita à figura de um líder político convencional. Ele encarna, em carne, osso e discurso, as manifestações mais expressivas e viscerais das artes modernistas brasileiras.

  •  ​A Antropofagia Cultural: Assim como previra Oswald de Andrade no Manifesto Antropófago, o fenômeno Lula devora as contradições locais e as influências globais para digeri-las e devolvê-las em forma de uma síntese genuinamente nacional. É a capacidade de unir o sertão e a diplomacia global, a classe trabalhadora e as elites econômicas, o arcaico e o tecnológico.
  •  ​A Adaptabilidade Macunaímica: Há na figura do presidente eleito a maleabilidade do “herói sem nenhum caráter” de Mário de Andrade — não no sentido moralista, mas no sentido de uma plasticity existencial, de uma capacidade inaudita de se reinventar perante as adversidades, improvisar soluções e contornar crises imprevisíveis.
  •  ​A Cordialidade e o Lirismo: Retomando o conceito clássico do “homem cordial” trazido por Sérgio Buarque de Holanda, Lula opera através do afeto, da proximidade e da paixão. Sua oratória lírica e intuitiva fala à emoção de uma população que se reconhece em sua origem humilde e em seu poder de superação.

​Essa mistura universal — marcada pela criatividade, pela empatia e pela resiliência — converteu-se no próprio motor da identidade nacional

​ O Brasil como Farol da Pós-Modernidade

​Se a era Moderna foi pautada pelo racionalismo rígido, pela industrialização predatória e pela hegemonia dos blocos tradicionais de poder, a Pós-Modernidade exige novas respostas: exige a capacidade de articular a sustentabilidade ambiental com a justiça social, a diversidade cultural com o avanço tecnológico, e a diplomacia multipolar com a pacificação de conflitos.

​É exatamente neste cenário global que o Brasil se coloca como protagonista inevitável:

  • ​Vanguarda Ecológica e Energética: Guardião da maior biodiversidade do planeta, o país deixa de ser mero espectador da transição climática para liderar a economia verde e a matriz energética sustentável do século XXI.
  • ​ Síntese da Diversidade: Em um mundo marcado pela polarização e pela intolerância, a miscigenação cultural e a criatividade antropofágica brasileira oferecem um modelo de convivência e resiliência social.
  • ​Ponte Diplomática: O carisma e a flexibilidade macunaímica do novo governo recolocam o Brasil como um mediador natural entre o Norte e o Sul global, dialogando com múltiplos atores em uma ordem internacional cada vez mais fragmentada.

​ O Compromisso com o Amanhã

​A eleição para o quarto mandato não representa o encerramento de um ciclo, mas o portal de entrada para uma nova era. Ao reunir o passado lírico da resistência com as exigências complexas da Pós-Modernidade, o Brasil deixa de lado o estigma de “eterno promissor”.

​Sob o olhar atento do mundo, a nação cantada em verso e prosa assume o seu papel. O futuro, que por tanto tempo nos escapou entre os dedos, finalmente se faz presente.

Diógenes Sandim Martins é Médico, Diretor do SINDNAP, Sec. Geral do CMI-SP Ano 2024 – 2026.

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