PUBLICADO EM 27 de fev de 2019
COMPARTILHAR COM:
Colunista Clemente Ganz Lúcio

Benzinho, assunto de família

“Não tenho qualquer outra coisa para ensinar”
Osamu, personagem do filme Assunto de Família

A família voltou ao centro da política, como mote para os debates ou embates eleitorais, como objeto da ação do governo, como organização administrativa do Estado, como objeto de políticas públicas. Valores, conceitos e preconceitos passaram a circular nos debates e iniciativas.
Dois filmes lançados recentemente destacam muitas questões em torno da família e proporcionam oportunidade de uma observação crítica.
“Benzinho”, filme nacional dirigido por Gustavo Pizzi, é um deles. Irene é uma empreendedora (vendedora ambulante) que busca uma ocupação assalariada. Klaus, um empreendedor (livreiro) que sonha com um negócio maior. O casal tem quatro filhos e um deles é convidado para jogar na Alemanha. A família vive condições e oportunidades diferentes, sonha, tem um cotidiano de lutas, esforços nos limites impostos pelos contextos diversos. Uma história cheia de complexidades individuais, coletivas, situacionais.
No japonês “Assunto de família”, dirigido por Hirokazu Kore-Eda, Osamu é operário da construção civil e Nobuyo, empregada em uma lavanderia. Os dois vivem em local paupérrimo e apertado, junto com o filho pré-adolescente, Shota, a irmã mais velha de Nobuyo e a avó Hatsue. A essa família será integrada a menina Yuri. O filme vai revelando como é tecido e o que tece os elos dessa unidade familiar. Que família é essa? Quais emoções compõem a rede que une e reúne as pessoas desse núcleo? Como o Estado observa e atua?
Nos dois filmes, a casa se expressa como lar, unidade física que se apresenta em emoções e sonhos, escritos nos tijolos da morada que se constrói ou na porta que se abre como história ou em novo começo. A praia e o mar também estão no enredo.
Dois filmes que ousam desafiar, de maneira criativa, elegante, lírica e crítica o pensamento mecânico e dogmático, bem como o olhar bicolor. Arte que dá um conforto que incomoda, pois, expressa a simplicidade das múltiplas unidades momentâneas e ininterruptas do cotidiano, que são originárias de histórias únicas que engendram, cada uma no seu contexto, as complexidades da vida de cada um, só, ou com o outro, ou de todos juntos.

Clemente Ganz Lúcio é diretor técnico do Dieese

ENVIE SEUS COMENTÁRIOS

QUENTINHAS