PUBLICADO EM 24 de nov de 2017

Stranger Things é caricatura dos anos 80; série

A série da Stranger Things, criada e transmitida pela Netflix, resgata o que há de pior da cultura e da política da década de 1980.

Por Carolina Maria Ruy

Quem viveu sabe que aqueles foram anos com cara de fim de festa. Foi a década do “pós”, pós psicodelia, pós hippie, pós punk, pós engajamento. O desajuste econômico, a crise social e o limbo cultural deram o tom deste período estrelado por Margareth Thatcher e Ronald Reagan.

Deste contexto emergiu uma arte especialmente sombria e rebuscada, com traços de esoterismo. As ideias de desajustamento, rejeição, solidão e abandono, resgatadas dos românticos, foram reeditadas com uma roupagem pop.

The Cure, Joy Division, Siouxie & The Banshees, Echo & The Bunnymen, são bons exemplos de como isso funcionou na música, não apenas nas letras e nas melodias, mas também no mise-en-scène dos seus atores (os músicos).

Nos filmes da época vemos personagens abatidos pelo tédio e pela limitação de perspectivas.

Por outro lado, houve também aqueles que, indiferentes aos novos românticos, expressaram os ideais triunfantes da família e do sucesso profissional em uma sociedade, feita para poucos, onde o “normal” era ditado pelos padrões norte-americanos.

Stranger Things tenta trazer para a cena o underground daqueles anos, pincelando aqui e acolá, um traço de Atmosphere (Joy Division), um punhado de Nocturnal Me (Echo & the Bunnymen) e um bom tanto de Should I Stay or Should I Go (The Clash), mas se confunde nas referências e apresenta uma história boba, frouxa, que termina com o triunfo do padrão ditado pelo mainstream.

Até sua principal referência, o filme Os Goonies (1985), é mal aproveitada, limitando-se ao ímpeto dos três garotos frente ao desconhecido. Mesmo em Os Goonies as crianças tinham um semblante mais pesado e desolador, típico da época. Parece que os criadores da série não viveram ou não conhecem tão bem a década de 1980 como o criador de Mad Men (2007) conhece a década de 1960.

O mote central, que é a presença de um ser de outro mundo em uma cidade pacata, resgata a metáfora da ameaça comunista, marcante nos filmes hollywoodianos

produzidos na guerra fria. Esta paranoia estadunidense, que se reinventa de acordo com o cenário político, alimentando a indústria cultural e a indústria bélica, pode, com facilidade, ser ironizada em obras mais inteligentes, como foi nos excelentes filmes O retorno dos tomates assassinos, de 1988, e Blues Brothers, de 1980. Mas Strangers Things não apresenta sinal desta crítica.

No universo das séries falta ainda quem entenderá a dança dos erros, a dinâmica das transformações, os excessos e a profundidade que marcaram a década de 1980, a década perdida.

Carolina Maria Ruy é coordenadora do Centro de Memória Sindical

Serviço
Estados Unidos, 2016
Criadores: Matt e Ross Duffer
Elenco: Winona Ryder, David Harbour, Finn Wolfhard, Millie Bobby Brown

Assista o trailer

Leia também: Mural do brasileiro Kobra será inaugurado nesta sexta (16) na sede da ONU

Mural do brasileiro Kobra será inaugurado nesta sexta (16) na sede da ONU

ENVIE SEUS COMENTÁRIOS



COLUNISTAS

QUENTINHAS