PUBLICADO EM 04 de maio de 2026

Os data centers sobrecarregam a rede elétrica. Quem paga por isso?

Veja como a expansão dos data centers afeta comunidades e aumenta os preços da eletricidade em várias regiões dos Estados Unidos.

Os data centers estão moldando a infraestrutura de tecnologia e sua conexão com eventos climáticos extremos. Data center do Google, foto de junho de 2020. Wikiepdia

Os data centers estão moldando a infraestrutura de tecnologia e sua conexão com eventos climáticos extremos. Data center do Google, foto de junho de 2020. Wikiepdia

Por Naveena Sadasivam

Em março, o presidente Donald Trump sentou-se ao lado de executivos das maiores empresas de tecnologia do país enquanto eles prometiam pagar uma parte justa dos custos de energia relacionados à expansão de centros de dados (data centers).

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“Os centros de dados… precisam de ajuda de imagem”, disse Trump no encontro. “As pessoas acham que, se um centro de dados for instalado, a conta de eletricidade delas vai subir.”

Não é uma suposição totalmente infundada.

À medida que a indústria de tecnologia investiu bilhões de dólares no boom da inteligência artificial nos últimos anos, também vem expandindo sua frota de gigantes computacionais, que exigem enormes quantidades de energia para funcionar. Essas instalações têm surgido por todo o país, desde comunidades rurais no leste da Pensilvânia, até cidades no norte de Utah.

Esse boom coincide com um aumento dramático nos preços da eletricidade nos Estados Unidos, impulsionado pela inflação e pelo custo crescente de adaptação a incêndios florestais, furacões e outros eventos climáticos extremos.

Custo da energia para centros de dados repassados aos consumidores

Mas essas instalações gigantes também têm pressionado a rede elétrica — e, em alguns casos, contribuído para o aumento dos preços. Por exemplo, no ano passado, um monitor independente da PJM Interconnection, operadora de rede que atende 13 estados do nordeste e Washington, D.C., projetou que o fornecimento de energia para centros de dados resultaria em custos mais altos de geração de eletricidade, que acabariam sendo repassados aos consumidores.

E, nos casos em que a expansão ainda não levou a aumentos de preços, concessionárias e operadores de rede esperam que seja apenas uma questão de tempo, caso as empresas de tecnologia cumpram seus planos. De fato, o Federal Reserve Bank of Dallas estima que, com a demanda de eletricidade dos centros de dados prevista para dobrar nos próximos cinco anos, os preços no mercado atacadista de energia podem subir até 50%.

Em um momento em que o custo de vida se tornou insustentável para muitos americanos, e os consumidores destinam parcelas cada vez maiores de sua renda para pagar contas de energia, a possibilidade de novos aumentos tarifários para enriquecer empresas de tecnologia provocou uma forte reação em todo o país.

Compromisso de Proteção ao Consumidor de Energia

O encontro na Casa Branca com executivos de tecnologia pareceu ser uma resposta a essa reação. Em 4 de março, durante o evento, eles assinaram o “Compromisso de Proteção ao Consumidor de Energia” (Ratepayer Protection Pledge).

O compromisso em si tem poucos detalhes ou força prática. Trata-se de um acordo voluntário de várias empresas de tecnologia proeminentes — incluindo Microsoft, Meta, OpenAI e Amazon — para garantir sua própria energia para centros de dados, pagar por quaisquer linhas de transmissão ou outras infraestruturas que as concessionárias precisem construir para transportar essa energia e contratar trabalhadores locais nas comunidades onde se instalarem.

Embora, em teoria, o acordo possa ajudar a evitar que os americanos arquem com os custos da expansão dos centros de dados, a Casa Branca não criou mecanismos de fiscalização para garantir que isso aconteça. Vários defensores dos consumidores e do meio ambiente classificaram o acordo como “sem sentido”, “impossível de aplicar” e, em última análise, “absurdo”.

Os Estados Unidos se tornaram o marco zero do boom global de centros de dados. A rápida expansão deixou desenvolvedores, empresas de tecnologia e o setor de energia correndo para garantir mais eletricidade. Como resultado, o tempo de espera para que um centro de dados se conecte à rede pode levar anos em muitas partes do país. As chamadas “hiperescaladoras” — empresas que operam grandes centros de dados e fornecem enorme capacidade computacional — têm tentado contornar essas filas firmando contratos de longo prazo de compra de energia com desenvolvedores solares, construindo suas próprias usinas a gás natural e até adaptando motores de jato para gerar eletricidade.

“Todo centro de dados no futuro será limitado pela energia”, disse o CEO da NVIDIA, Jensen Huang, no ano passado. “Agora somos uma indústria limitada pela energia.”

Em busca de soluções

Fora da Casa Branca, concessionárias, reguladores locais e legisladores também vêm propondo várias soluções para lidar com a reação das comunidades e permitir a continuidade da construção de mais centros de dados. Alguns implementaram medidas que exigem que os centros de dados paguem os custos de geração e transmissão da eletricidade que utilizam. Outros sugeriram que os desenvolvedores instalem sistemas solares e de baterias no local, ou que as tarifas sejam congeladas para os moradores enquanto as concessionárias descobrem como lidar com os custos adicionais. E pelo menos 11 estados estão considerando legislações para proibir temporariamente novos centros de dados, enquanto seus impactos nos preços da eletricidade e outras preocupações são avaliados.

“Você está vendo os estados tentando agir rapidamente”, disse Meghan Pazik, associada sênior de políticas no programa climático da Public Citizen. Mas “cada estado terá uma abordagem diferente sobre até onde quer ir em relação aos centros de dados”.

Muitos estados estão utilizando tarifas adicionais para centros de dados e outros consumidores que consomem grandes quantidades de energia da rede. Essas instalações — chamadas de “grandes consumidores de carga” — são obrigadas a pagar mais para compensar os custos extras de infraestrutura necessários para atendê-las, bem como o risco de abandonarem o projeto, o que deixaria os consumidores comuns responsáveis pelos investimentos. Mais de 30 estados já propuseram ou implementaram medidas desse tipo.

Energia alternativa

Algumas hiperescaladoras também estão mudando suas estratégias. Em Minnesota, o Google fechou um acordo com a Xcel Energy, a maior concessionária privada do estado, para adicionar 1.900 megawatts de energia limpa à rede. A empresa está financiando integralmente turbinas eólicas, painéis solares e armazenamento em baterias, além dos custos de modernização da infraestrutura elétrica necessária para atender seus centros de dados. E, na Louisiana, a Meta assinou um acordo com a Entergy para ajudar a financiar a construção de sete usinas a gás natural, mais de 300 quilômetros de linhas de transmissão e sistemas de baterias, entre outras melhorias de infraestrutura.

Um relatório recente do Searchlight Institute, um think tank de políticas públicas, argumenta que essa abordagem fragmentada para regular a indústria de tecnologia perde uma oportunidade de financiar uma modernização em larga escala da rede elétrica. Embora o aumento da demanda tenha sido amplamente tratado como uma crise iminente, o relatório sustenta que o boom também cria uma rara janela de oportunidade política: uma chance de modernizar o sistema elétrico do país e realizar investimentos há muito adiados, necessários para a transição para energia limpa.

As concessionárias investem cerca de US$ 35 bilhões por ano em infraestrutura de transmissão — muito abaixo do necessário. A demanda por eletricidade deve dobrar ou até triplicar nos próximos 25 anos. O relatório do Searchlight Institute propõe a criação de um fundo dedicado à infraestrutura da rede elétrica para acelerar essa expansão. Pelo plano, as hiperescaladoras contribuiriam financeiramente para esse fundo em troca de conexões mais rápidas. Os recursos seriam destinados a concessionárias e outras empresas para expandir o sistema, priorizando energia limpa ao longo do processo. Além disso, defensores dos consumidores e do meio ambiente, junto com outros formuladores de políticas, supervisionariam o processo para garantir que os recursos sejam distribuídos de forma justa e atendam às necessidades públicas.

Tal mecanismo garantiria maiores investimentos em energia limpa, em vez dos projetos de gás natural que muitas empresas de tecnologia estão apoiando atualmente, ao mesmo tempo em que protegeria os consumidores de aumentos nas tarifas de eletricidade.

“Os hiperescaladores precisam de energia”, disse Jane Flegal, pesquisadora sênior do Searchlight Institute e autora do relatório. “Eles têm muito capital. E, em vez de permitir que continuem fechando acordos isolados com concessionárias, precisamos encontrar uma maneira melhor de aproveitar esse potencial positivo e evitar o lado negativo de eles basicamente construírem uma rede paralela à existente, que beneficie apenas a eles.”

O que saber sobre centros de dados

Centros de dados são instalações semelhantes a armazéns que abrigam servidores necessários para armazenar e processar grandes volumes de informação digital. Eles existem há décadas, mas o crescimento da inteligência artificial nos últimos anos desencadeou uma explosão na construção dessas estruturas.

Aqui estão alguns dos principais pontos sobre seu desenvolvimento:

  • Uso de energia: Centros de dados consomem muita energia, e a demanda atual e futura tem feito concessionárias correrem para se preparar. A Geórgia interrompeu planos de desativar usinas a carvão antigas. No nordeste dos EUA, a antecipação do consumo futuro fez os preços de energia dispararem (embora, na maioria dos lugares, os centros de dados ainda não sejam o principal fator do aumento das contas). A indústria também enfrenta pressão para revisar suas projeções, diante de preocupações de que possam estar superestimadas.
  • Oferta de energia: Para garantir fornecimento estável, alguns centros de dados estão construindo suas próprias fontes de energia “behind-the-meter” (ou seja, no local e separadas das concessionárias públicas). Essas fontes tendem a ser mais poluentes do que usinas convencionais e estão impulsionando um boom global do gás natural (metano).
  • Preços de energia: Centros de dados são frequentemente responsabilizados pelo aumento das contas de eletricidade, mas seu impacto varia bastante por região. Outros fatores também influenciam significativamente os preços.
  • Água: O uso de energia também implica consumo de água, mas a quantidade depende de como e onde os centros de dados são construídos. Instalar essas estruturas em locais com maior disponibilidade hídrica e fontes renováveis faz grande diferença.
  • Empregos: A indústria de tecnologia vem investindo milhões para promover os centros de dados como geradores de empregos, mas pesquisas indicam que eles frequentemente criam menos vagas do que outros setores, como a manufatura.

Naveena Sadasivam é repórter sênior da Grist, uma organização de mídia independente e sem fins lucrativos, dedicada a contar histórias sobre soluções climáticas e um futuro mais justo.

Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy

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