PUBLICADO EM 22 de abr de 2026

Os lucros capitalistas contam com o roubo do nosso futuro

Os capitalistas conseguiram transformar o futuro em uma fonte calculável de lucro extraordinário, enriquecendo alguns no presente ao impor dívidas à grande maioria — e minando as condições ambientais para um amanhã melhor.

A Bolsa de Valores de Nova York é um espaço onde se realiza o lucro capitalista mediante o comprometimento do futuro. Foto de 2022, do salão principal de negociações. Tirada por Tobias Deml. Wikipedia.

A Bolsa de Valores de Nova York é um espaço onde se realiza o lucro capitalista mediante o comprometimento do futuro. Foto de 2022, do salão principal de negociações. Tirada por Tobias Deml. Wikipedia.

Por Timothy Mitchell

Vivemos em uma época em que uma riqueza extraordinária parece surgir de fontes insondáveis. Quando a empresa americana Uber abriu seu capital em 2019, o mercado de ações fixou seu valor em 82 bilhões de dólares — uma cifra imensa para uma empresa de transporte de dez anos que não possuía carros e nunca havia tido lucro.

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Para explicar eventos como esse, a mídia frequentemente recorre a metáforas da meteorologia, descrevendo os ganhos dos investidores como “estratosféricos”. De que outra forma explicar, por exemplo, como os 5 milhões de dólares que o Goldman Sachs investiu na Uber em 2011 passaram a valer mais de meio bilhão, um retorno de mais de 1.000% em oito anos? Comentadores mais críticos disseram que o valor da empresa foi algo conjurado “do nada”.

A origem de tais ganhos não tem nada de meteorológico. Para entender essa forma de ganhar dinheiro, precisamos voltar à realidade concreta.

Sociedade Anônima

Embora a Uber seja um caso extremo, seu modo de adquirir riqueza sem trabalho é comum. Esse modo é uma característica definidora da nossa forma contemporânea de vida, uma chave para entender como e por que os métodos de enriquecimento e empobrecimento que chamamos de capitalismo surgiram, e uma pista para compreender por que agora enfrentamos a catástrofe do colapso climático. A empresa criou seu valor construindo um meio prático de consumir o futuro.

Os métodos de extrair renda do futuro existem há muito tempo. O mecanismo que a Uber utilizou — a sociedade anônima — existe em sua forma atual há mais de 150 anos. Empresas modernas de propriedade de investidores proliferaram no Ocidente no século XIX para construir ferrovias e outras infraestruturas extensas, transformadoras do território, intensivas em carbono e frequentemente imperiais. Essas obras, geralmente construídas a grande custo ecológico e humano, prometiam aos acionistas acesso a riqueza não conquistada no futuro. A história das sociedades anônimas remonta ainda mais, às corporações comerciais armadas que mercadores europeus começaram a criar cerca de três séculos antes para conquistar o comércio mundial, permitindo-lhes colonizar terras e subjugar ou eliminar povos em todo o planeta.

No passado, tais métodos de enriquecimento eram geralmente exceção. As sociedades anônimas só podiam ser criadas por carta régia ou por ato do Parlamento, e essas autorizações normalmente expiravam após um número limitado de anos. As primeiras corporações colonizadoras levaram a bolhas especulativas e aos custos das guerras imperiais, sendo frequentemente alvo de oposição política, fechamento, resgate público ou colapso. Redes mercantis mais antigas da Ásia e da África, que a colonização europeia buscou substituir — em particular as do mundo indo-islâmico —, impunham limites ao uso de contratos comerciais para adquirir bens futuros não especificados e invisíveis, com o argumento de que tais esquemas especulativos permitiam que uma parte extraísse lucro não merecido de outra.

Compra especulativa

Ainda assim, o comércio de longa distância nesse mundo era rotineiramente realizado a crédito, sendo que a distância criava um atraso no pagamento que justificava um preço mais alto — distância e demora funcionando, assim, como a própria fonte do lucro.

A prática jurídica islâmica também reconhecia arranjos que permitiam aos comerciantes lucrar com a compra especulativa de ativos futuros, como o uso disseminado de contratos a termo para adquirir colheitas agrícolas antecipadamente e a baixo custo, de produtores obrigados a obter recursos para pagar impostos. No entanto, os futuros dos quais se extraía excedente eram limitados pela duração do ciclo agrícola ou pela extensão de uma rota comercial transregional.

Com a expansão colonial do Ocidente, e especialmente a partir da era imperial do final do século XIX, a corporação de propriedade de investidores tornou-se um meio de controlar futuros em escala continental e de reorganizar meios de vida e paisagens em uma escala imensa.

Receitas provenientes do futuro

Hoje, uma empresa como a Uber opera por meio de métodos um pouco diferentes, mas com uma ambição igualmente expansiva. Após sua abertura de capital em 2019, a empresa tomou emprestados 3 bilhões de dólares para comprar a empresa Careem, sediada em Dubai, em um esforço para monopolizar o serviço de transporte por aplicativo no Oriente Médio e no Norte da África — parte de um plano para dominar os serviços de transporte em todos os continentes.

A expansão geográfica dessas empresas, tanto no passado quanto no presente, serve como — e ao mesmo tempo oculta — a fonte da riqueza de seus investidores. O que elas buscam controlar é a obtenção de receitas provenientes do futuro.

Temos uma linguagem cotidiana para descrever nossa relação econômica com o futuro, usando termos como:

  • preço das ações,
  • taxa de juros,
  • avanço tecnológico e
  • crescimento econômico.

Mas nenhum desses termos explica a origem da renda não obtida pelo trabalho, nem mostra como aqueles que vêm depois pagam a conta.

Tampouco explicam como as vidas no presente são sobrecarregadas por extrações anteriores do futuro ou como essas relações privatizadas com o futuro — nas quais as formas de vida de amanhã se tornam ativos comprados e vendidos no presente — contribuem para a destruição de um futuro coletivo viável. Na verdade, a linguagem das finanças nos cega para essa relação, persuadindo-nos de que os meios de subsistência humanos futuros não são a fonte dos ganhos, mas seus beneficiários.

Como essa cegueira é produzida

Diante da crise climática e de outras perturbações antropogênicas no equilíbrio dos sistemas da Terra — incluindo a destruição de bacias hidrográficas, o colapso de habitats, a aceleração da extinção de espécies e o envenenamento da terra, do mar, do ar e dos corpos humanos com plásticos sintéticos e biocidas agrícolas — e conscientes da vulnerabilidade extremamente desigual das diferentes comunidades humanas a essas perturbações, precisamos entender como essa cegueira é produzida.

Tendo já ultrapassado limites seguros e justos para a modificação humana da Terra, vemos surgir por toda parte um reconhecimento tardio de que a habitabilidade futura do planeta deve, hoje, ser levada em consideração.

Assim, coexistimos com duas formas contraditórias de compreender o futuro no presente:

  • uma apocalíptica, que reconhece nos desastres e perturbações atuais os sinais imediatos de uma catástrofe por vir;
  • a outra, um mecanismo de cegueira que nos trouxe essa calamidade, ao organizar o futuro como uma fonte calculável de riqueza extraordinária, enriquecendo os mais ricos no presente ao impor dívidas à grande maioria.

Os governos parecem incapazes de levar em conta essa contradição, enquanto suas ações frequentemente parecem impotentes diante dos agentes que buscam um controle ainda maior dos ativos futuros — ou mesmo atuando em seu favor. Mesmo que fosse possível superar essas dificuldades, as consequências ainda pareceriam inviáveis.

O capitalismo, quaisquer que sejam seus custos, afirma ter nos proporcionado crescimento. Como poderíamos sobreviver sob uma temporalidade diferente, na qual o futuro não fosse definido por um princípio de expansão econômica?

Enquanto organizamos a vida coletiva em torno do princípio do crescimento econômico, têm existido esforços para apontar seus limites: que o crescimento é insustentável, é mal mensurado ou ocorre a um custo social e ecológico elevado demais. Essas são críticas importantes, mas há outra maneira de enxergar nossa relação com o futuro. O crescimento não é a lógica da modernidade capitalista, mas seu álibi.

Valor acima de tudo

O capital não é algo acumulado a partir do passado. Como outros já demonstraram — e como este livro busca aprofundar — ele é uma captura do futuro. Podemos começar a pensar essa relação com o futuro por meio de um caso simples: a maneira como uma empresa moderna de capital aberto adquire seu valor.

Quando uma empresa lança ações na bolsa, os papéis oferecidos representam uma reivindicação sobre a propriedade de seus lucros futuros. Como essa receita não está disponível imediatamente, o valor de cada ano de renda futura projetada é ajustado para baixo — ou “descontado” — para compensar o tempo de espera até que ela se concretize. A soma do chamado “valor presente descontado” dos anos de lucros futuros resulta na avaliação da empresa.

Retornemos ao exemplo da Uber. Quando abriu capital, a empresa ainda não havia obtido lucro. A companhia vinha fixando o preço das corridas abaixo do seu custo real, com o objetivo de eliminar concorrentes. Essas operações subsidiadas geravam perdas de bilhões de dólares todos os anos. Para avaliar a empresa, analistas financeiros presumiram que a Uber continuaria a se expandir até alcançar a “dominância de mercado”. Ao eliminar alternativas, a Uber e sua principal rival nos Estados Unidos, a Lyft, poderiam continuar a apropriar-se de uma parcela de cada corrida realizada por seus motoristas — ficando, em média, com cerca de 20% — ao mesmo tempo em que utilizariam essa posição dominante para reduzir a parcela paga aos motoristas e aumentar o custo para os passageiros. Essas suposições indicavam que a Uber deixaria de registrar prejuízos seis anos após sua abertura de capital e, em até dez anos, estaria obtendo lucros anuais próximos de 5 bilhões de dólares.

Capitalização

Uma empresa de propriedade de investidores não fornece apenas uma reivindicação sobre lucros futuros. Ela é também um mecanismo para adquirir essa renda prometida no presente.

Ao oferecer ações à venda no mercado financeiro, os investidores que possuem a empresa estão vendendo uma forma de propriedade: a posse, hoje, de ativos extraídos do futuro.

Esse é o processo conhecido como “capitalização” de uma receita futura. Os ganhos extraordinários que os promotores obtêm com a venda não vêm do nada, mas da robustez política da capitalização — o método de monetizar e comercializar uma reivindicação privada sobre o futuro.

O termo “robustez política” refere-se aqui a todas as formas de autoridade, direito, policiamento, raciocínio econômico e desconsideração das reivindicações por justiça social ou por futuros planetários das quais depende o valor extraordinário dessa reivindicação sobre o futuro.

Esse ganho extraordinário representa o valor de um ônus imposto aos futuros clientes e trabalhadores da empresa, bem como às comunidades e ecossistemas aos quais pertencem. Os lucros da empresa — e, portanto, os dividendos de seus acionistas — dependem de manter e até aumentar esse fardo.

Colonizando o tempo

O valor da ação, e o dividendo do qual ele depende, tem prioridade sobre qualquer demanda dos trabalhadores por salários mais justos, dos clientes por preços mais baixos ou das comunidades pela proteção de bens comuns — uma prioridade que reflete a maior força da empresa em comparação com trabalhadores, consumidores e comunidades. Essa força é o poder indicado pelo termo, enganosamente limitado, de “dominância de mercado”. O ônus não é um custo necessário para administrar um negócio, mas uma sobretaxa que a posição dominante da empresa lhe permite impor. A avaliação de 82 bilhões de dólares da Uber representava o valor presente de tal arranjo de poder. Seus motoristas e passageiros — e as populações mais amplas afetadas por seu impacto no transporte público e em outros bens coletivos — pagariam esse valor ao longo do tempo, com recursos próprios.

A corporação acionária é, assim, um aparato para colonizar o tempo. Ela fornece um meio de enriquecer um grupo de empreendedores e financistas no presente ao impor uma cobrança adicional a dezenas de milhões de usuários no futuro. O ganho extraordinário obtido hoje por aqueles que estabelecem os mecanismos de controle e organizam as linhas de crédito que sustentam esse aparato será pago a partir da renda daqueles que viverão meses, anos ou décadas adiante — na verdade, tão longe no futuro quanto esse mecanismo de captura puder se estender.

Custos sobre o futuro

Além de enriquecer seus fundadores, as ações de uma empresa também podem gerar ganhos para investidores individuais e fundos de investimento que as compram e negociam, para aqueles que cobram taxas por essas transações e para os que especulam com a alta e a queda de seus preços. De fato, à medida que as extrações impostas às rendas futuras aumentam, até mesmo os relativamente bem situados recorrem a esses mecanismos de captura, dependendo de fundos privados de aposentadoria, investimentos imobiliários e outros ativos que se valorizam para proteger seu padrão de vida. Isso intensifica a imposição de custos sobre o futuro, especialmente sobre aqueles que se tornam cada vez mais incapazes de adquirir moradia ou outros ativos.

Nada nessa captura do futuro é exclusivo da era contemporânea das empresas de tecnologia, do capital de risco e das companhias de gestão de ativos. Durante séculos, antes do surgimento das empresas modernas, já existiam meios de colocar populações em dívida, geralmente por meio de comerciantes que ofereciam crédito a pessoas em dificuldades súbitas ou sobrecarregadas por obrigações fiscais. No entanto, os lucros dos comerciantes surgiam mais frequentemente da exploração de diferenças de preço entre regiões geográficas do que do adiamento temporal do qual depende a capitalização.

A escala de onerar o futuro, contudo, é mais recente. Quando o método corporativo moderno de capturar receitas emergiu ao longo do último século e meio, a corporação acionária rapidamente se tornou aquilo que o grande economista nipo-americano Thorstein Veblen chamou, em 1923, de “a instituição dominante da vida civilizada”.

Outras formas de extrair pagamentos do futuro

Existem outros métodos de extrair pagamentos do futuro — e de viver sob o peso de encargos do passado. Quando as corporações colonizadoras começaram a provocar guerras coloniais, os monarcas que lhes concediam cartas de autorização recorreram ao crédito dos mesmos grandes comerciantes para financiar os custos dessas guerras, criando dívidas públicas devastadoras.

O custo da guerra deixou de ser pago com receitas correntes, como os governantes faziam no passado, e passou a ser financiado pela promessa de receitas fiscais futuras, dando origem ao que ficou conhecido como dívida nacional — inventando, ao mesmo tempo, a moderna “nação” como o corpo responsável por esse encargo. Os títulos públicos e outras formas de dívida estatal tornaram-se os maiores instrumentos de criação de crédito, transformando o poder de tributar em um aparato crescente de extração do futuro.

O militarismo continua sendo, em muitos países, um dos principais meios de impor às populações dívidas de longo prazo, reduzindo a parcela de recursos públicos disponível para manter a saúde, a educação e outros bens comuns. Em muitas partes do Sul Global, as formas de dívida nacional — ampliadas pela dependência de credores internacionais, tanto recentemente quanto no passado colonial — têm repetidamente transformado países inteiros em máquinas de endividamento, enriquecendo aqueles que organizam a oferta de crédito.

Mercado imobiliário

Enquanto a dívida militar, os empréstimos externos e os mercados acionários corporativos impõem custos à população em geral, existem numerosos mecanismos para criar encargos sobre indivíduos e famílias específicas. Cerca de uma década após Thorstein Veblen escrever sobre a corporação acionária, surgiu uma segunda “instituição dominante” para realizar receitas futuras no presente: o banco hipotecário e o mercado imobiliário. Pouco utilizados nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha ou em outros lugares antes da década de 1930, os financiamentos imobiliários transformaram a moradia em outro meio amplamente difundido de capitalização. Em muitos países do Sul, eles ainda são usados com parcimônia hoje, embora, de forma curiosa, a transformação da terra e da habitação em ativos financeiros tenha sido apresentada nas últimas décadas como uma solução quase mágica para a pobreza global.

O desenvolvimento especulativo da habitação tem uma história muito mais longa, especialmente em países como a Inglaterra, onde a terra destinada à expansão urbana era frequentemente monopolizada por grandes propriedades privadas. No entanto, as novas construções eram normalmente arrendadas ou alugadas, com o contrato do edifício calculado separadamente do contrato da terra e baseado simplesmente no custo de construção. As hipotecas (empréstimos garantidos pelo imóvel) não eram amplamente utilizadas, geralmente cobriam menos da metade do valor da casa e costumavam ser quitadas em um pagamento único após poucos anos.

A invenção das hipotecas de longo prazo no Ocidente, nos anos anteriores e posteriores à Segunda Guerra Mundial — subsidiadas por garantias governamentais e pagas em parcelas mensais ao longo de décadas — transformou a habitação em um amplo mecanismo de captura de pagamentos futuros.

Os construtores especulativos passaram então a vender casas não pelo custo de sua construção material, mas pelo valor capitalizado de ocupar uma residência ao longo de trinta anos ou mais.

Na segunda metade do século XX, à medida que a habitação se tornava de longe o principal veículo de transformação em ativos e endividamento no mundo do Atlântico Norte, entre 75% e mais de 90% do aumento no preço dos imóveis passou a ser atribuído não ao custo de construção, mas a esse modo de capitalização.

À medida que o preço da habitação começou a superar amplamente o custo de construção, os setores imobiliário e hipotecário cresceram a ponto de rivalizar com a corporação acionária como mecanismos de endividamento do futuro e captura de receitas antecipadas.

Esse ganho não obtido pelo trabalho levou um arquiteto de Nova York a descrever um novo edifício como “uma máquina que faz a terra pagar”. A ideia de um pagamento pela terra refletia o fato de que o aumento do custo da habitação aparecia como uma valorização do terreno urbanizável, embora esse valor não decorresse de qualquer mudança na natureza da terra, mas sim do aperfeiçoamento dos mecanismos para garantir décadas de pagamentos futuros de aluguel e hipoteca — incluindo os dispositivos de zoneamento, segregação racial e execução hipotecária. Esse custo era cobrado até mesmo para imóveis usados, cujo terreno e custo de construção já haviam sido pagos muitos anos antes.

Os pagamentos não vinham da terra, mas daqueles que precisavam de um lugar para viver ou trabalhar.

Peso sobre a renda do cidadão comum

Os lucros dos bancos e das empresas imobiliárias, assim, acrescentaram um enorme peso financeiro sobre a renda das pessoas comuns. Nas décadas seguintes, surgiram outros mecanismos — como o financiamento de automóveis, o cartão de crédito, o ensino superior e as despesas médicas — que passaram a transformar o curso da vida humana em cronogramas de pagamento.

Hoje, praticamente qualquer arranjo de pagamento futuro pode ser capitalizado. Qualquer encargo que possa ser imposto de forma confiável ao futuro torna-se um ativo passível de ser agrupado, comercializado e adquirido no presente com desconto — desde ações e títulos corporativos até dívidas de cartão de crédito, de aluguéis imobiliários a tarifas de infraestrutura, de fornecimento de água e eletricidade a fluxos de dados, de plataformas de negociação e serviços em nuvem a direitos autorais musicais e literários.

Vendido a um preço descontado para investidores e frequentemente negociado em mercados secundários, o fluxo de pagamentos passa então a carregar o peso de quitar esse adiantamento pelo valor total, gerando um ganho não obtido pelo trabalho, que o investidor recebe na forma de “juros”.

O peso da capitalização não é simplesmente um acréscimo ao custo do capital ou ao valor de um ativo. O próprio capital passa a existir por meio desse processo — não como um recurso acumulado no passado, como normalmente imaginamos, mas como esses mecanismos de extração do futuro.

Timothy Mitchell é um teórico político e historiador que escreveu sobre colonialismo, política do Oriente Médio, economia, o papel do conhecimento especializado na governança da vida coletiva e a história e a política da energia.

O trecho foi adaptado de The Alibi of Capital: How We Broke the Earth to Steal the Future on the Promise of a Better Tomorrow (Verso, 2026).

Texto traduzido de Jacobin por Luciana Cristina Ruy

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