PUBLICADO EM 20 de out de 2026

Megafusão entre Paramount e Warner Bros pode gerar perda de até 4.500 empregos

A fusão entre Paramount e Warner Bros pode resultar na perda de 4.500 empregos em Los Angeles. Entenda as implicações.

A megafusão entre Paramount e Warner Bros poderá provocar a perda de cerca de 4.500 empregos no cinema e na televisão somente em Los Angeles

A megafusão entre Paramount e Warner Bros poderá provocar a perda de cerca de 4.500 empregos no cinema e na televisão somente em Los Angeles

LOS ANGELES — “Nos próximos anos, poderemos apontar para essa incapacidade de colocar os consumidores acima dos interesses financeiros da concentração empresarial como o momento decisivo para a mídia neste país.”

Essas foram as duras palavras da coalizão Block the Merger (Bloqueie a Fusão), depois que o juiz Martínez-Olguín removeu o último obstáculo à fusão entre a Paramount Skydance e a Warner Bros. Discovery.

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Em 6 de outubro, a fusão, avaliada em mais de US$ 110 bilhões, foi concluída, criando a empresa agora chamada Skydance Corp. O bilionário David Ellison, diretor-executivo (CEO), passará a controlar cerca de 17 empresas de mídia, incluindo a CNN e a CBS.

Embora muitos dos que se opõem à fusão prometam continuar lutando, uma nuvem sombria paira sobre Hollywood, já que o monopólio recém-formado poderá provocar a perda de cerca de 4.500 empregos no cinema e na televisão somente em Los Angeles, nos próximos três anos.

Como noticiado anteriormente, em julho, a Califórnia liderou uma coalizão de estados que recorreu à Justiça para impedir o que considerava uma medida desastrosa para os trabalhadores do setor do entretenimento e para os consumidores. Um dia depois, os sindicatos Writers Guild of America West e Writers Guild of America East, que representam roteiristas, também se juntaram à ação, alegando que a fusão violava a legislação federal antitruste e prejudicaria especificamente os profissionais da escrita.

Sindicatos e artistas se manifestaram fortemente contra a concentração empresarial, afirmando que ela resultaria em menos empregos, menor concorrência e menos diversidade. Na época em que a ação judicial foi apresentada, o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, expressou preocupação com a possibilidade de uma única empresa controlar uma parcela tão grande da imprensa corporativa. Ele afirmou:

“Combinar os canais de notícias a cabo significaria menos jornalistas informando nosso eleitorado e menos oportunidades para os americanos terem acesso a toda a amplitude de informações e opiniões sobre um determinado assunto.”

Essa preocupação ganhou ainda mais peso diante dos estreitos vínculos de David Ellison e de seu pai, Larry Ellison, com o presidente Donald Trump. Ao longo dos últimos anos, o governo Trump tem sido acusado de travar uma guerra contra o jornalismo, situação que atingiu seu ponto máximo recentemente com a tentativa do presidente de proibir vários veículos de imprensa — entre eles a CNN — de cobrir as atividades da Casa Branca.

Pete Hegseth, secretário de Guerra de Trump, deu uma indicação dessa proximidade durante uma entrevista coletiva, ao declarar: “Quanto antes David Ellison assumir o controle daquela rede [CNN], melhor.”

Embora a ação judicial movida pela coalizão de estados parecesse sólida, Bonta aparentemente cedeu à pressão quando Ellison ameaçou transferir completamente os estúdios para fora da Califórnia. Com o apoio público do governador Gavin Newsom, as duas partes iniciaram negociações para chegar a um acordo extrajudicial.

O acordo inclui:

  • Compromisso anual de lançamento de filmes: A Paramount concordou com um compromisso de cinco anos, durante os quais a empresa resultante da fusão deverá lançar:
  • 30 filmes por ano — incluindo 20 lançamentos amplos (wide releases, filmes distribuídos em um grande número de salas de cinema) — nos dois primeiros anos.
  • 32 filmes por ano — incluindo 21 lançamentos amplos — no terceiro, quarto e quinto anos.
  • A Paramount se comprometeu a lançar pelo menos quatro filmes independentes por ano durante todo o período do compromisso.

Foi declarado que, se a Paramount não cumprir essa meta de produção em qualquer um dos anos, a empresa será obrigada a vender o estúdio Miramax e pagar US$ 30 milhões por filme não lançado, destinados aos fundos de assistência médica e aposentadoria vinculados ao Writers Guild of America (WGA, sindicato dos roteiristas dos Estados Unidos), à International Alliance of Theatrical Stage Employees (IATSE, aliança internacional dos trabalhadores técnicos e profissionais dos bastidores do entretenimento), à Directors Guild of America (DGA, sindicato dos diretores dos Estados Unidos), à International Brotherhood of Teamsters (IBT, sindicato internacional dos Teamsters) e a outros sindicatos. Uma parcela também será destinada à National Association of Attorneys General (NAAG, Associação Nacional dos Procuradores-Gerais dos EUA), para reforçar a aplicação da legislação antitruste.

  • Produção local: A Paramount concordou em ampliar a produção cinematográfica da empresa resultante da fusão nos Estados Unidos e investir pelo menos US$ 1,5 bilhão adicional ao longo de cinco anos, além dos valores gastos no país em 2025.
  • Fundo para o cinema independente: A empresa resultante da fusão concordou em criar e administrar um fundo para a compra de filmes independentes, com uma contribuição anual de US$ 5 milhões, totalizando US$ 25 milhões.
  • Proteção aos trabalhadores: A empresa resultante da fusão destinará US$ 47,5 milhões, ao longo de cinco anos, a um fundo de apoio à força de trabalho (Workforce Fund), voltado à capacitação e ao desenvolvimento profissional dos trabalhadores prejudicados pela fusão. A empresa também deverá respeitar os acordos coletivos de trabalho já estabelecidos e negociar de boa-fé com os sindicatos nos próximos anos.
  • Conselho editorial independente para o jornalismo: A empresa concorda em criar um Conselho de Independência Editorial de Notícias (News Editorial Independence Board) para ajudar a CNN e a CBS a manter sua independência editorial.
  • Monitoramento contínuo: A empresa também concordou em nomear um fiscal independente para supervisionar o cumprimento desse acordo.

Embora alguns dirigentes sindicais, como Matthew D. Loeb, presidente internacional da IATSE; Russell Hollander, diretor-executivo nacional da DGA; e Sean M. O’Brien, presidente-geral da IBT, tenham agradecido publicamente ao procurador-geral Bonta pelo acordo, os opositores da fusão consideram que as concessões não têm força efetiva.

Isso porque elas priorizam medidas corretivas de conduta (behavioral remedies), em vez de medidas estruturais (structural remedies). No direito antitruste, as medidas estruturais preveem a divisão de uma empresa para impedir a formação de um monopólio. Por exemplo, poderiam exigir que a Paramount vendesse ativos específicos a uma concorrente, a fim de manter o equilíbrio do mercado.

As medidas corretivas de conduta permitem que a empresa permaneça intacta, exigem maior fiscalização e, muitas vezes — como apontam especialistas — permitem que as empresas encontrem brechas nas regras, tornando sua aplicação difícil e cara para o governo ao longo do tempo. Como explicou Lina Khan, ex-presidente da Federal Trade Commission (FTC, Comissão Federal de Comércio dos Estados Unidos), ao comentar a fusão, as medidas corretivas de conduta fracassam sistematicamente.

WGA

O WGA, que, segundo o Los Angeles Times, foi em grande parte excluído das negociações, apesar de ter movido sua própria ação judicial contra a fusão, declarou em nota: “Continuamos acreditando que a fusão causará prejuízos aos roteiristas e ao setor como um todo.”

Reconhecendo que não conta com o apoio do governo e da coalizão de estados, o sindicato acrescentou:

“Como organização sem fins lucrativos, o WGA precisa enfrentar a realidade de seguir adiante sozinho, sem o respaldo das autoridades governamentais responsáveis pela aplicação da lei, em uma complexa ação judicial antitruste que custaria milhões de dólares para ser levada até o julgamento.”

Uma das concessões obtidas pelo WGA foi o compromisso da Paramount de proibir demissões na CBS News Broadcast durante cinco anos e de contribuir com US$ 17,5 milhões para o fundo de assistência médica do sindicato, além de pagar os honorários advocatícios relacionados ao processo judicial.

Demissões

Mas essa proibição de demissões na CBS News Broadcast não salvará os cerca de 4.500 empregos que poderão estar na mira dos cortes em breve.

Como informou a revista Variety, no dia em que o acordo foi concluído, Ellison e Ynon Kreiz, co-diretor-executivo (co-CEO) da Skydance Corp., enviaram um memorando aos funcionários afirmando que as demissões farão parte do processo e que “a integração de duas empresas trará mudanças, incluindo decisões difíceis que afetarão nossa força de trabalho”.

O memorando prosseguiu com uma declaração grandiosa:

“Nunca devemos perder de vista o que mais importa: as nossas pessoas”. No entanto, enquanto Ellison contrata outros multimilionários para ocupar novos cargos de liderança, ao mesmo tempo que se fala em demitir os trabalhadores comuns que construíram essas empresas, muitos consideram essa declaração vazia de significado.

O senador Cory Booker, principal representante da minoria no Subcomitê de Antitruste, Política de Concorrência e Direitos do Consumidor do Senado, condenou a fusão, afirmando que o governo Trump “escolheu um vencedor desde o início e abriu caminho para ele”.

Booker acrescentou: “Os trabalhadores, os artistas e os espectadores de cinema […] pagam o preço quando os estúdios se concentram em grandes grupos empresariais, e a expressão criativa […] desaparece quando menos empresas decide o que será produzido. Fusões anteriores no setor do entretenimento provocaram demissões, projetos engavetados e aumento de preços.”

A senadora Elizabeth Warren, defensora de longa data de uma legislação e de uma regulamentação antitruste rigorosas, declarou:

“Permitir que um conglomerado alinhado a Trump e de propriedade estrangeira domine as notícias e o entretenimento americanos é um resultado desastroso. Depois que o governo Trump conduziu um processo de análise antitruste aparentemente corrupto para aprovar uma fusão flagrantemente ilegal, esse acordo abre caminho para um desastre monopolista que resultará em preços mais altos e menos empregos, além de permitir que um pequeno grupo de bilionários determine os rumos da mídia americana.”

A concentração empresarial descrita por Warren e Booker vem crescendo há décadas na mídia dos Estados Unidos e em outros setores da economia. Em 1983, cinquenta empresas eram proprietárias de 90% de toda a mídia americana. No ano passado, esse número havia diminuído para as chamadas “Big 6” (seis grandes empresas), entre as quais estava a Warner Bros. Agora, com essa megafusão, restarão apenas cinco.

Pode-se argumentar que esse processo reflete um fenômeno mais amplo: a concentração da maior parte da riqueza dos Estados Unidos — e do mundo inteiro — nas mãos de poucos. Relatórios econômicos publicados nos últimos anos apontaram que o 1% mais rico possui mais riqueza do que os 95% mais pobres da população mundial somados.

Apesar de o acordo parecer definitivo e de Ellison continuar construindo o que a imprensa corporativa chama de “império” midiático, muitos dos que combateram a megafusão prometem continuar a luta.

O WGA declarou que, “embora não tenhamos conseguido impedir a fusão, nossa atuação chamou mais atenção para os danos que essa fusão — e outras semelhantes — causará. Continuaremos lutando contra os prejuízos provocados pela concentração empresarial no setor”.

A coalizão Block the Merger, liderada pela ativista política e estrela de cinema Jane Fonda, declarou que “os efeitos dessa fusão se espalharão por toda parte, durarão muito tempo e serão impossíveis de conter”. A coalizão acrescentou, porém, que o lado positivo da situação é que as pessoas agora estão “bem despertas e prestando atenção”.

“Vamos fortalecer esse movimento para que profissionais da criação artística, especialistas em políticas públicas e defensores do interesse público permaneçam unidos na busca por mudanças duradouras nas políticas para a mídia, que garantam seu financiamento, ampliem sua diversidade e protejam sua independência.

Vamos garantir que o governo proteja os interesses das pessoas comuns e impeça que elas continuem sendo atropeladas em favor dos interesses de bilionários oligárquicos. Vamos continuar a luta.”

Chauncey K. Robinson é uma jornalista e crítica de cinema premiada. Nascida e criada em Newark, Nova Jersey, ela tem grande apreço pela arte de contar histórias e pela história. Acredita que as narrativas influenciam profundamente a maneira como vemos o mundo. Por isso, dedica-se a examinar e analisar histórias e manifestações culturais para informar e fortalecer a população.

Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy

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