PUBLICADO EM 07 de jun de 2019
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Colunista Wallace Paz

Como jogar a indústria brasileira no fundo do poço

A Fitmetal (Federação Interestadual de Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil) completa nove anos neste mês de junho. O momento, porém, não é de festa para a categoria metalúrgica, nem para o conjunto dos trabalhadores brasileiros. Nestes primeiros meses do Brasil sob o governo ultradireitista de Jair Bolsonaro (PSL), a situação da indústria e dos trabalhadores só se agrava.

Mais do que uma crise generalizada – política, econômica e social –, o governo mostra uma gritante incapacidade de apontar rumos e perspectivas. O Produto Interno Bruto (PIB) do País – que já havia crescido apenas 1,1% em 2018 – caiu 0,2% no primeiro trimestre de 2019, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística). No caso da indústria, o recuo foi ainda maior: -0,7%. A construção civil teve queda de 2%, acumulando, agora, 20 trimestres seguidos de retração. Como a atividade agropecuária também encolheu, a estagnação econômica se transforma, aos poucos, em nova recessão.

Para piorar, a desindustrialização da economia brasileira, em curso desde a década de 1980, se acelera. Segundo o economista Paulo Morceiro, o peso da indústria da transformação no PIB passou de 11,3% no final de 2018 para 10,4% nos três primeiros meses deste ano. É o menor percentual já registrado na série histórica do IBGE, iniciada em 1996.

Sem crescimento econômico, não é possível combater os elevados índices de desemprego – que cresceram, neste ano, em todas as regiões do País. No trimestre que foi de fevereiro a abril, a taxa de trabalhadores desocupados saltou de 12% para 12,5%, na comparação com o trimestre anterior. Esse percentual mais do que dobra se consideramos, ainda, os brasileiros subocupados (que trabalham menos do que gostariam) e os trabalhadores potenciais (que não buscam emprego, mas estão disponíveis).

Em números absolutos, o Brasil tem hoje 28,4 milhões de pessoas subutilizadas – o recorde na série histórica –, sendo 13,2 milhões de desempregados. Além disso, há 11,2 milhões de trabalhadores informais (sem carteira assinada) e 4,9 milhões de pessoas que até desistiram de procurar emprego. Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua.

Nesse cenário, a desindustrialização é a pior notícia possível para a economia brasileira, na medida em que trava o crescimento, limita a geração de empregos e inviabiliza qualquer projeto desenvolvimentista. A indústria gera produtos com alto valor agregado – o que estimula outros segmentos e a economia como um todo. Nenhum outro setor tem potencial semelhante.

Quando falamos em trabalho decente, o emprego industrial igualmente desponta como referência, por proporcionar, em média, melhores salários, mais benefícios e maior proteção aos trabalhadores. Sem contar seu estímulo à criação de postos de trabalho. Na indústria metalúrgica, por exemplo, cada emprego direto gera mais dois ou três empregos indiretos.

É preciso reconhecer que, ao longo da campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro não apresentou propostas para a indústria brasileira. Limitou-se a insinuar as criminosas intenções de privatizar empresas públicas e vender riquezas nacionais. Porém, ainda que seu governo mal tenha completado seis meses, é nítida sua vocação para jogar a indústria nacional no fundo do poço.

Wallace Paz é secretário-geral da Fitmetal (Federação Interestadual de Metalúrgicos e Metalúrgicas do Brasil).

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