
A Nova Indústria Brasil e o PAC são fundamentais para o crescimento, para a produtividade e para distribuir a riqueza gerada pelo trabalho. Foto: Divulgação/CNI/ José Paulo Lacerda
Nos últimos tempos, voltou a aparecer no debate um tema importante: a política industrial. A chamada Nova Indústria Brasil (NIB) é uma tentativa de fazer o país voltar a investir, produzir mais e gerar empregos de melhor qualidade.
Mas por que isso importa para o trabalhador?
Porque o Brasil cresce pouco. E, quando o país cresce pouco, o emprego cresce pouco, o salário fica pressionado e a disputa por renda aumenta.
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Hoje, o Brasil investe cerca de 16% a 17% do que produz por ano. É pouco para um país do nosso tamanho. E tem outro problema: o investimento muitas vezes não rende o que poderia. Ou seja, investe-se pouco e, ainda por cima, com baixa eficiência. O resultado é um crescimento travado, na faixa de 2% a 3% ao ano.
E isso aparece no dia a dia:
- Menos empregos formais e de qualidade.
- Salários com pouca margem de aumento.
- Serviços públicos pressionados.
Nova Indústria Brasil
É nesse contexto que entra a Nova Indústria Brasil.
Ela busca aumentar o investimento e melhorar a qualidade desse investimento. Incentiva setores mais tecnológicos, fortalece a indústria e pode gerar empregos mais qualificados.
Mas há um ponto fundamental que muitas vezes não aparece no debate: não existe distribuição de renda sustentável sem crescimento da produtividade. Não dá para melhorar salários e ampliar políticas sociais de forma duradoura se a economia não estiver produzindo mais e melhor.
Essa é uma ideia defendida há décadas pela CEPAL: não há igualdade sem transformação produtiva.
Programa de Aceleração do Crescimento
A política industrial sozinha, no entanto, não resolve. Também é preciso investir nas condições gerais da economia. É aí que entra o Programa de Aceleração do Crescimento.
O PAC investe em:
- Estradas.
- Energia.
- Saneamento.
- Transporte.
- Conectividade.
Isso melhora a vida das pessoas e também aumenta a eficiência da economia.
Política monetária restritiva
Mas há um problema ainda mais direto — e que afeta tudo isso ao mesmo tempo. A política monetária no Brasil continua sendo bastante restritiva, com juros elevados.
E isso tem efeitos claros:
- Encarece o crédito.
- Desestimula o investimento produtivo.
- Favorece aplicações financeiras de curto prazo.
Na prática, cria-se uma contradição: por um lado, o Estado tenta estimular a indústria e o investimento, por outro, os juros altos desestimulam exatamente esse investimento.
O resultado é que parte do esforço da política industrial e do PAC acaba sendo neutralizada.
Ou seja:
- O investimento não cresce o suficiente.
- A economia não acelera.
- E o emprego e os salários também não avançam como poderiam.
Gastos tributários
Há ainda outro problema importante. O Brasil abre mão de muito dinheiro com renúncias fiscais — os chamados gastos tributários.
Parte desses recursos poderia estar financiando:
- Infraestrutura.
- Investimento produtivo.
- Políticas públicas.
Mas acaba dispersa em benefícios que nem sempre geram emprego ou crescimento. Isso reduz a capacidade de ação do Estado justamente quando mais se precisa investir.
O desafio é integrar
No fundo, o desafio é integrar quatro coisas:
- Política industrial (NIB), para orientar o investimento.
- Infraestrutura (PAC), para melhorar as condições de produção.
- Política monetária, para não travar o investimento.
- E uso mais eficiente dos recursos públicos.
Se esses elementos não caminham juntos, o crescimento continua limitado.
Se caminham juntos, o efeito é outro:
- Mais investimento.
- Mais crescimento.
- Mais emprego.
- Mais espaço para aumentar salários.
A questão não é escolher entre crescimento e distribuição, mas entender que um depende do outro.
Sem crescimento, a distribuição fica limitada. Com crescimento sustentado, ela se torna possível. E isso depende de decisões concretas sobre investimento, juros e uso dos recursos públicos.
É isso que está em jogo no debate econômico hoje no Brasil.
Antonio Prado é doutor em economia, pelo IE-UNICAMP. É vice-presidente do Corecon-SP e coordenador da ABED-SP. Foi Secretário Executivo Adjunto da Cepal e diretor de divisão na FAO-Roma. Foi docente da PUC-SP e do Instituto Rio Branco. Serviu no Senado Federal como assessor econômico da Liderança do Governo Lula e como chefe de relações governamentais do BNDES. Trabalhou no Dieese por 23 anos.



