
Paralamas do Sucesso, cantores e compositores brasileiros
“Capitão de Indústria”, composta por Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle em 1972, trata de um dilema que permanece atual: a difícil relação entre trabalhar e viver. Ao repetir “eu acordo pra trabalhar, eu durmo pra trabalhar, eu corro pra trabalhar”, a música apresenta um personagem cuja existência foi praticamente absorvida pelo trabalho. Ele não reclama apenas do excesso de tarefas, mas da falta de tempo para “ser”, para amar, contemplar a estrada e desfrutar das coisas livres e coloridas. A canção questiona, assim, uma sociedade em que o ser humano acaba aprisionado pelas próprias coisas que criou. Mais de cinco décadas depois, esse dilema reaparece no atual anseio de milhões de trabalhadores pelo fim da escala 6×1, em busca de mais tempo para a família, o descanso, o lazer e a própria vida.
A música também traduz as profundas transformações vividas pelo Brasil nas décadas de 1960 e 1970. O país deixava para trás suas características predominantemente rurais e acelerava o processo de industrialização e urbanização, levando milhões de pessoas para as grandes e médias cidades. O relógio, a fábrica, os turnos e a disciplina do trabalho industrial passaram a organizar cada vez mais a vida cotidiana. A “fumaça” presente na letra pode ser entendida não apenas como referência à poluição das cidades industriais, mas também como símbolo de uma modernização que, ao mesmo tempo em que prometia progresso e novas oportunidades, criava novas formas de controle sobre o tempo e a vida dos trabalhadores. A presença da canção na novela Selva de Pedra ampliou ainda mais essa representação, levando para o cotidiano de milhões de brasileiros as contradições daquele novo país urbano e industrial.
É justamente por isso que “Capitão de Indústria” continua dialogando com o presente. O debate pelo fim da escala 6×1 recoloca em pauta a pergunta central da música: quando o trabalhador terá tempo para viver? A redução da jornada e a ampliação dos períodos de descanso podem representar muito mais do que uma mudança na organização do trabalho: podem significar uma conquista de qualidade de vida. Ter mais tempo para conviver com os filhos, acompanhar a família, estudar, praticar atividades culturais e esportivas, cuidar da saúde, descansar ou simplesmente não fazer nada é também recuperar uma dimensão da existência que o excesso de trabalho pode retirar. Se em 1972 a música denunciava o homem que “não tem tempo livre de ser”, hoje a luta pela redução da jornada e pelo fim da escala 6×1 pode ser compreendida como uma busca concreta para devolver ao trabalhador aquilo que a canção já apontava como essencial: qualidade de vida.
Capitão de Industria
(Composição: Marcos Valle / Paulo Sergio Kostenbader Valle/1972)
Intérprete: Paralamas do Sucesso
Eu às vezes fico a pensar
Em outra vida ou lugar
Estou cansado demais
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido nas coisas que eu criei
E eu não sei
Eu não vejo além da fumaça
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
Ah, eu acordo pra trabalhar
Eu durmo pra trabalhar
Eu corro pra trabalhar
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
Eu não vejo além da fumaça que passa e polui o ar
Eu nada sei
Eu não vejo além disso tudo
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
Eu acordo pra trabalhar
Eu durmo pra trabalhar
Eu corro pra trabalhar
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
É quando eu me encontro perdido nas coisas que eu criei
E eu não sei
Eu não vejo além da fumaça
O amor e as coisas livres, coloridas
Nada poluídas
Ah, acordo pra trabalhar
Eu durmo pra trabalhar
Eu corro pra trabalhar
Fonte: Centro de Memória Sindical
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