PUBLICADO EM 24 de jan de 2020
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A verdadeira história da Primeira Guerra Mundial por trás do filme “1917”

A recente corrida dos aniversários do centenário da Primeira Guerra Mundial levou a um aumento do interesse no conflito, que terminou em 1918, e Hollywood não foi exceção. Os poucos filmes da Grande Guerra aclamados pela crítica, tais como “Sem Novidade no Front” (All Quiet on the Western Front) [1930] e “Sargento York” (Sergeant York) [1941], foram unidos em 2018 pelo documentário de Peter Jackson, “Eles Não Envelheceram” (They Shall Not Grow Old). No dia de Natal, essa lista vai ter uma nova adição, na forma do novo filme de Sam Mendes, “1917”.

Os principais personagens não são baseados em indivíduos reais, mas pessoas e eventos reais inspiraram o filme, que acontece no dia 6 de abril de 1917. Aqui está como os cineastas esforçaram-se para a precisão na filmagem, e o que saber sobre a real história da Primeira Guerra Mundial que cercou a história.

O homem real que inspirou o filme

O script de “1917”, escrito por Mendes e Krysty Wilson-Cairns, é inspirado por “fragmentos” de histórias do avô de Mendes, que serviu como um “corredor” – um mensageiro para os Britânicos no Front Ocidental. Mas o filme não é sobre eventos reais que aconteceram para o Cabo Alfred H. Mendes, um 1,52m por 10, 16 cm, de 19 anos de idade, que se alistou no Exército Britânico naquele ano e mais tarde contou a seu neto sobre como foi gaseado e ferido enquanto corria pela “Terra de Ninguém”, o território entre a Alemanha e as trincheiras aliadas.

No filme, o General Erinmore (Colin Firth) ordena dois cabos, Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George Mackay), para fazer a perigosa trilha através da Terra de Ninguém, para entregar uma nota manuscrita para um oficial comandante Coronel Mackenzie (Benedict Cumberbatch), ordenando-os a cancelar um ataque planejado aos alemães, que haviam recuado para a Linha Hindenburg, no Norte da França.

Vida nas trincheiras

O filme foi rodado no Sudoeste da Inglaterra, onde os cineastas cavaram cerca de 762 metros de trincheiras – uma característica definidora do front ocidental da guerra – para o set.

Paul Biddiss, o veterano do exército britânico que serviu como consultor técnico militar do filme, e que tem três parentes que serviram na Primeira Guerra Mundial, ensinou para os atores técnicas apropriadas para saudações e manuseio de armas. Ele também usou manuais de instruções militares da época para criar campos de treinamento destinados a dar aos soldados a sensação real do que era servir, e leu sobre a vida nas trincheiras em livros como “Lest We Forget: Forgotten Voices from 1914-1945” (Não esqueçamos: vozes esquecidas de 1914-1945) , de Max Arthur; “The Last Fighting Tommy: The Life of Harry Patch, Last Veteran of the Trenches, 1898-2009, (a última luta Tommy: a vida de Harry Patch, último veterano das trincheiras, 1898-2009), de Richard Van Emden (escrito com Patch); e “The Soldier’s War: The Great War through Veteran’s Eyes”, (A guerra dos Soldados: a grande guerra através dos olhos dos veteranos), de Richard Van Emden, também.

Ele pôs os extras para trabalhar, dando a cada um cerca de três dúzias de tarefas que eram parte das rotinas diárias dos soldados. Alguns participaram de atividades relacionadas à saúde, como inspeções no pé e usar uma vela para matar piolhos, enquanto alguns faziam a manutenção da trincheira, enchendo sacos de areia. Atividades de lazer incluíam jogar damas ou xadrez, usando botões como as peças dos jogos. Havia muita espera, e Biddiss queria que os extras apresentassem aparência de “completo tédio”.

Os reais mensageiros da Primeira Guerra Mundial

A trama do filme centra-se em dois mensageiros correndo através da Terra de Ninguém para entregar uma mensagem, e aí é onde a licença criativa entra. Na realidade, tal ordem teria sido muito perigosa para atribuir.

Quando os corredores foram implantados, o risco de morte por tiro de sniper alemão era tão alto que eles eram mandados em pares. Se algo acontecesse com um deles, então o outro poderia cumprir a tarefa. “Em alguns lugares, a Terra de Ninguém era tão perto quanto 13, 71 metros, em outras era 1,6 km longe,” diz Doran Cart, Curador Sênior no Museu e Memorial Nacional da Primeira Guerra Mundial, na cidade de Kansas. O terreno lamacento era cheio de animais e humanos mortos, arame farpado e destroços de bombas explodindo – dificilmente nenhuma grama ou árvores em vista. “Em 1917, você não saía de sua trincheira e atravessava a Terra de Ninguém. O fogo da artilharia, metralhadoras e gás envenenado era muito pesado; nenhum indivíduo ia levantar e correr através da Terra de Ninguém e tentar tomar o inimigo”.

Mensageiros humanos como Blake e Schofield eram apenas empregados em situações de desespero, de acordo com Cart. Pombos correio, lâmpadas de sinalização e bandeiras faziam a maioria das comunicações no campo de batalha. Também havia um telefone nas trincheiras para comunicação.

“A maioria das pessoas entende que a Primeira Guerra Mundial foi uma guerra de trincheira, mas eles não sabem que havia mais do que uma trincheira,” diz Cart. “Havia a trincheira da linha de frente, de onde as tropas atacariam ou se defenderiam; depois atrás dessa, havia um tipo de linha de segurança, onde eles traziam suprimentos, tropas esperando para ir para a trincheira da linha de frente.” O “banheiro” era na trincheira da latrina.

Havia cerca de 56.330 km de trincheiras no Front Ocidental, todas em zig-zag, e o próprio Front Ocidental tinha 692 km, se estendendo do Canal Inglês no Norte até os Alpes Suíços no Sul.

6 de abril de 1917

A história de 1917 acontece em 6 de abril, e é em parte inspirada por eventos que tinham acabado em 5 de abril. De 23 de fevereiro a 5 de abril daquele ano, os alemães estavam movendo suas tropas para a Linha Hindenburg e aproximadamente ao longo do rio Aisne, uma área cerca de 43,45 km, de Arras para Bapaume, França. A significância desse movimento depende se você está lendo relatos dos alemães ou dos aliados. Os alemães viam isso como um “ajuste” e “simplesmente movendo os recursos necessários para uma localização melhor”, enquanto os aliados chamam as ações dos alemães como um “recuo” ou “retirada”, de acordo com Cart.

Em ambos os casos, toda uma nova fase da guerra estava para começar, por uma razão diferente: os americanos entraram na guerra, em 6 de abril de 1917. Poucos dias depois, os canadenses capturaram o cume Vimy, numa batalha vista a marcar “o nascimento de uma nação”     para o Canadá, como um de seus generais colocou.

Como Matthew Naylor, presidente e CEO do Museu e Memorial Nacional da Primeira Guerra Mundial, na cidade de Kansas, diz sobre o estado das coisas no Front Ocidental em abril de 1917, “baixas dos dois lados são massivas e não há fim em vista”.

Texto de Olivia B. Waxman para time.com originalmente publicado em 23 de dezembro de 2019.

Tradução e adaptação: Luciana Cristina Ruy

Assista o trailer de 1917

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