PUBLICADO EM 03 de dez de 2019
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Colunista Carolina Maria Ruy

Leite estragado

Uma vez, quando eu estava na sexta série do ensino fundamental (nem sei se ainda é assim que se diz), uma professora aplicou uma prova, não lembro de qual matéria ou mesmo se era alguma avaliação extracurricular. O fato é que, de posse do questionário, um engraçadinho da classe, divertindo-se com a simploriedade de uma questão leu alto: “Qual o melhor leite para alimentar um recém-nascido?”. Do outro lado da sala, outro colega, ainda mais engraçadinho, respondeu: “Leite estragado”. Ambos riram.

Dias depois a professora nos apresentou as provas corrigidas. Para estupefação e regozijo da classe, e, por que não dizer, com uma dose de sadismo, mais comum em professores do ensino básico do que gostaríamos de admitir, ela leu em voz alta a resposta de uma garota à simplória pergunta do leite: “Leite estragado, fulana de tal?”. Todos riram diante da menina que ficou imóvel e constrangida.

Lá se vão trinta anos deste episódio, mas embora eu já não lembre mais qual era a matéria, a professora e nem dos rostos dos engraçadinhos, nunca esqueci da expressão catatônica da colega, exposta ao ridículo por sua flagrante falta de conhecimentos básicos.

Hoje ela deve ter seus 42 anos, como eu. O ponto em que quero chegar é, como uma pessoa que aos doze anos não consegue discernir algo tão básico como um alimento estragado, interpreta o mundo hoje? Em outras palavras, como pessoas privadas de conhecimento, incentivo ao senso crítico e cultura, interpretam os absurdos descarregados por Bolsonaro e sua trupe diariamente nos olhos e ouvidos do Brasil?

No instante da prova, minha colega se agarrou à informação que lhe foi oferecida, inscrevendo-a no documento que passaria pelo crivo de sua mestra, sem pensar sobre a plausibilidade daquilo. A professora, por sua vez, não abriu mão de humilhá-la perante a classe. Não cuidou de resguardar a fragilidade de sua aprendiz. Não procurou saber antes que história estaria por trás de tanto alheamento.

Isso aconteceu em uma importante escola estadual, o Fernão Dias Paes, em um bairro nobre de São Paulo, no ano de 1989. Uma escola marcada pela mistura de alunos de classes mais remediadas, que viviam no bairro, com alunos que chegavam da periferia pelo extenso terminal de ônibus no Largo de Pinheiros.

Infelizmente, embora os indicadores de acesso à educação tenham melhorado, não podemos comemorar uma melhora substancial na cultura e educação no Brasil. A privação de conhecimento, incentivo ao senso crítico e cultura é a regra que sedimenta nosso secular atraso. E esta privação acontece de diversas formas, até mesmo dentro das escolas, uma vez que o ensino também é permeado por preconceitos e diferenciações sociais.

Ontem, dia 2 de dezembro de 2019, eu ri alto quando ouvi que o novo presidente a Funarte, Dante Mantovani, disse “O rock ativa a droga que ativa o sexo que ativa a indústria do aborto. A indústria do aborto por sua vez alimenta uma coisa muito mais pesada que é o satanismo. O próprio John Lennon disse que fez um pacto com o diabo”. Mas depois pensei: a quantos brasileiros faltará discernimento para compreender o absurdo desta e de tantas outras afirmações que a turma de Bolsonaro inscrevem diariamente no autos da nossa história?

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical  

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