
As sanções da UE estão ameaçando a liberdade de imprensa. Isso afeta jornalistas e seus direitos civis.
A União Europeia (UE) se apresenta como um farol da liberdade de imprensa e dos direitos humanos, mas essa fachada está se desintegrando rapidamente: a UE agora está utilizando seu formidável aparato de sanções contra jornalistas e publicistas que ousam reportar fora dos limites da narrativa dominante — com consequências devastadoras para seus meios de subsistência, suas famílias e seus direitos civis mais básicos.
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Os casos dos cidadãos alemães Hüseyin Doğru (jornalista), Ulrich Heyden (correspondente), Patrik Baab (publicista) e do analista militar suíço Jacques Baud revelam uma realidade perturbadora: na Europa de hoje, jornalistas que se desviam da narrativa dominante podem ser levados à miséria, privados de seus meios de vida e, na prática, transformados em não-pessoas — tudo isso sem condenação por qualquer crime, muitas vezes sem sequer uma acusação formal, e por vezes até depois de terem sido inocentados por um tribunal.
Hüseyin Doğru: reduzido a zero no coração de Berlim
Em 20 de maio de 2025, Hüseyin Doğru — cidadão alemão de origem turco-curda, pai de cinco filhos (incluindo dois bebês) e jornalista baseado em Berlim — descobriu que seu nome havia sido incluído na lista de sanções da UE como parte do 17º pacote de sanções contra a Rússia.
A justificativa oficial: as reportagens pró-Palestina de Doğru e seu trabalho na plataforma de mídia Red Media supostamente constituíam “propagação de discórdia étnica, política e religiosa”, apoiando assim “as atividades desestabilizadoras da Rússia”. Nenhuma evidência de qualquer ligação com agentes estatais russos foi tornada pública.
As consequências foram nada menos que catastróficas:
- Sua contas bancárias de Doğru foram congeladas;
- Foi imposto um banimento de viagens em toda a Europa e;
- Entrou em vigor uma proibição profissional de fato que o impede de exercer qualquer atividade remunerada, incluindo o jornalismo freelance.
Quando o jornal diário Junge Welt tentou contratá-lo, o banco federal da Alemanha advertiu que isso constituiria uma contribuição econômica proibida.
Em março de 2026, as autoridades alemãs intensificaram a repressão: o Escritório Central de Execução de Sanções (ZfS) também confiscou as contas bancárias da esposa de Doğru, argumentando que o seguro do carro da família — que ela assumiu após o cancelamento da apólice dele — constituía prova de “evasão de sanções”.
A família agora sobrevive com apenas 104 euros e enfrenta o risco iminente de ficar sem moradia.
Alexander Gorski, advogado de Doğru, afirmou que até mesmo um vizinho que trouxesse pão para a família poderia, teoricamente, ser processado.
“Essa repressão”, diz Gorski, “contradiz a dignidade humana da família e é inaceitável em um Estado de direito”.
Um parecer jurídico encomendado pelo Parlamento Europeu, elaborado pela ex-juíza do Tribunal de Justiça da União Europeia Ninon Colneric e pela professora de direito internacional Alina Miron, concluiu que o regime de sanções da UE contra indivíduos por suposta desinformação viola direitos fundamentais — incluindo liberdade de expressão, liberdade de imprensa, direito à propriedade e direito a um julgamento justo. As autoras falam de uma “morte civil” de fato dos atingidos.
Ulrich Heyden: excluído do sistema bancário por viver em um “país de alto risco”
Ulrich Heyden, jornalista alemão de 72 anos que vive e reporta de Moscou há mais de três décadas, recebeu um golpe diferente, mas igualmente devastador.
Em março de 2026, o Hamburger Sparkasse — seu banco desde os anos 1990 — informou que sua conta seria encerrada. Um funcionário explicou a Heyden que a decisão se devia às sanções da UE contra a Rússia, acrescentando que ele vivia em um “país de alto risco”. No entanto, Heyden não consta em nenhuma lista de sanções. Seu “crime”, ao que parece, é simplesmente reportar da Rússia com “compreensão e não espumando de raiva” — como escreveu em uma carta aberta ao presidente alemão Frank-Walter Steinmeier.
Heyden aponta um evidente duplo padrão:
“Projetos de figuras da oposição russa e jornalistas que vivem na Alemanha são apoiados por programas de financiamento do Ministério das Relações Exteriores, enquanto um jornalista alemão como eu, que vive em Moscou e fornece informações e reportagens de contexto sobre Rússia, Ucrânia, Ásia Central e Cáucaso há trinta e quatro anos, está tendo seu sustento retirado”.
Sua longa carreira incluiu contribuições para a Deutschlandfunk (rádio pública nacional da Alemanha), o Sächsische Zeitung, o Tagesspiegel e o Financial Times. Mas, como agora escreve principalmente para veículos online independentes, seu banco — agindo no que o diário de esquerda Junge Welt chama de “obediência preventiva” — decidiu que seu trabalho é arriscado demais para ser associado.
Jacques Baud: o analista que se tornou uma “não-pessoa”
Talvez o caso mais surreal seja o de Jacques Baud, ex-coronel suíço, ex-funcionário da OTAN e ex-especialista em manutenção da paz da ONU que escreveu extensivamente sobre estratégia militar.
Em dezembro de 2025, Baud soube, por meio de uma ligação telefônica com um jornalista, que havia sido incluído na lista de sanções da UE. Ele nunca foi formalmente informado dos motivos. Uma petição em apoio a Baud foi assinada por milhares de pessoas, mas o governo suíço mostrou-se incapaz ou indisposto a proteger seu cidadão.
O resultado da designação de Baud é total:
- Ele não pode acessar suas contas bancárias;
- Não pode usar cartões de crédito;
- Não pode pagar aluguel;
- Não pode comprar alimentos e:
- Sequer pode viajar de sua casa em Bruxelas para seu país de origem, a Suíça.
Como observa o jornal Morning Star:
“Na era dos pagamentos eletrônicos e do rastreamento online, isso equivale, na prática, a uma sentença de prisão sem qualquer acusação, julgamento ou direito de se defender contra acusações falsas”.
Uma isenção humanitária acabou sendo concedida, permitindo a Baud acesso mínimo a fundos para necessidades básicas — mas somente após semanas vivendo em limbo.
Um ataque sistemático ao quarto poder
Esses não são casos isolados. Desde maio de 2025, um total de cinquenta e nove indivíduos foi incluído na lista de sanções da UE por suposta desinformação, incluindo os blogueiros Alina Lipp e Thomas Röper. Os critérios para inclusão foram progressivamente ampliados: uma decisão do Conselho da UE de outubro de 2024 permite sanções contra qualquer pessoa que planeje ou apoie “manipulação de informação” — originalmente, isso exigia prova de coordenação (pertencimento a uma rede organizada ligada ao Estado). Em maio de 2025, a UE removeu até mesmo esse requisito.
Agora, um jornalista pode ser sancionado apenas por suas declarações individuais, sem qualquer evidência de participação em uma campanha coordenada. Na prática, isso significa que qualquer declaração política crítica pode agora ser reclassificada como desinformação passível de sanção.
O efeito intimidador já é palpável. Que jornalista se arriscará a reportar criticamente sobre a guerra em Gaza, sobre protestos pró-Palestina ou sobre a própria política de sanções quando a consequência pode ser a destruição completa de sua existência econômica?
Como observa o advogado de Doğru, as sanções criam uma “morte civil” — um estado tão total que até aceitar pão de um vizinho se torna um potencial delito criminal.
Patrik Baab: a caça às bruxas extralegal que antecipa as sanções
A repressão não começa com uma lista de sanções da UE. Ela começa antes — por meio de um aparato paralelo de denúncia: acadêmicos financiados pelo Estado, emissoras públicas alinhadas e campanhas midiáticas coordenadas que destroem a reputação e os meios de vida de jornalistas antes mesmo de qualquer sanção formal ser imposta.
O caso de Patrik Baab é um exemplo claro. Diferentemente de outros que nunca foram acusados ou tiveram a chance de se defender, o caso de Baab chegou ao tribunal — e venceu.
Em 2022, ele viajou para o leste da Ucrânia para pesquisar um livro. Por isso, sua universidade, a CAU de Kiel, encerrou seu contrato de docência, citando alegações falsas da mídia de que ele teria atuado como observador eleitoral para a Rússia. Baab processou a instituição. Em abril de 2023, o Tribunal Administrativo de Schleswig-Holstein decidiu que a demissão era ilegal e violava a liberdade acadêmica. A universidade não recorreu. Mas o veredicto veio tarde demais para desfazer os danos. Sua reputação já havia sido manchada. Seu emprego já havia sido perdido.
A emissora MDR, segundo ele, exibiu uma matéria unilateral que omitia suas respostas. Políticos locais pressionaram locais a cancelar seus eventos. O caso de Baab mostra como a destruição reputacional precede a punição formal. Quando as sanções chegam, o terreno já está preparado. Ele venceu na Justiça — mas o recado para outros jornalistas foi inequívoco: saia da linha e sua carreira pode ser destruída muito antes de qualquer juiz ter a palavra final.
Francesca Albanese: uma guerra paralela contra a liberdade de expressão
A mesma dinâmica é visível na campanha coordenada contra Francesca Albanese, relatora especial da ONU sobre direitos humanos nos territórios palestinos ocupados. Em fevereiro de 2025, dois eventos nos quais Albanese falaria foram cancelados em Berlim e Munique após pressão política do embaixador israelense, da Sociedade Alemão-Israelense e de políticos locais.
A Universidade Livre de Berlim citou um “risco de segurança imprevisível” — embora nunca tenha havido incidentes de segurança em eventos anteriores de Albanese. Pouco depois, os ministros das Relações Exteriores da França, Alemanha, Itália, Áustria e República Tcheca pediram sua remoção com base em um vídeo deliberadamente truncado que distorcia suas declarações. A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, condenou os ministros por disseminarem desinformação enquanto atacavam uma especialista da ONU por dizer verdades incômodas.
Albanese — que foi sancionada pela administração dos Estados Unidos — descreve o tratamento que recebeu na Alemanha como parte de um padrão mais amplo de silenciamento.
“Fiquei realmente surpresa”, disse ela ao LeftEast, “quando, poucos dias antes de ir à Alemanha, soube que o evento em Munique havia sido cancelado. Comecei a pensar: será que a academia também está cedendo à pressão com tanta facilidade?”
Sua pergunta ecoa muito além do meio acadêmico. Se a UE e seus Estados-membros podem silenciar uma relatora da ONU, destruir os meios de subsistência de jornalistas e congelar os bens de analistas — tudo isso sem o devido processo legal — então o que resta dos valores democráticos que a Europa afirma defender?
Para a esquerda, o que está em jogo não poderia ser maior. O regime de sanções da UE representa uma lógica fundamentalmente autoritária: a de que o Estado tem o direito de definir qual discurso é aceitável e de impor punições extrajudiciais àqueles que se desviam. Isso não é a defesa da democracia; é sua erosão por dentro. O silêncio diante desses ataques é cumplicidade.
Jenny Farrell nasceu na República Democrática Alemãe vive na Irlanda desde 1985; é professora no Galway Mayo Institute of Technology, e leciona literatura irlandesa. Ela é autora de um livro sobre o romantismo revolucionário inglês, e uma introdução marxista às tragédias de William Shakespeare.



