PUBLICADO EM 11 de jan de 2020
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Ana Bolena teve uma má reputação por quase 500 anos. Agora como uma historiadora quer mudar isso.

Como a segunda esposa do Rei Henrique VIII, Ana Bolena foi uma das mulheres mais poderosas do mundo no século XVI. De fato, o desejo de Henrique de anular seu primeiro casamento com Catarina de Aragon para que ele pudesse perseguir Anne é largamente creditado como um fator chave que levou a espantosa ruptura da Inglaterra com a Igreja Católica Romana, em 1533. Mesmo assim, seus colegas na corte de Tudor não se contiveram quando se tratava de suas ideias sobre ela. Descrições contemporâneas de Bolena a pintam como uma sedutora, faminta de poder, e até como uma bruxa de seis dedos que encantou o rei.

Por Suyin Haynes

E essas descrições pegaram.

Por centenas de anos, a má reputação de Ana Bolena correu por ambas narrativas históricas convencionais e representações populares desse período do tempo. E não há pouco delas: a história da mulher que foi a rainha de Henrique por apenas três anos, antes dele ordenar sua decapitação em 1536, por acusações de traição, manteve o interesse público – não procure mais do que o filme A Outra, no qual Natalie Portman retrata Bolena como uma sedutora ardilosa, ou a série de televisão Wolf Hall, estrelando a Ana de Claire Foy como parte de uma família ambiciosa e alpinista social.

Mas para a historiadora Hayley Nolan, esses retratos de Bolena levantam muitas questões não respondidas.

“Eu quis chegar à verdade do porquê e como Henrique poderia fazer isso para Ana,” diz Nolan. “Então, o pesquisando, eu descobri que tudo o que nos foi dito sobre Ana não é a verdade”.

O novo livro de Nolan, “Anne Boleyn: 500 Years Of Lies” (Nota: Ana Bolena: 500 anos de mentiras), é parte biografia e parte exposição histórica, desafiando as fontes convencionais frequentemente usadas para explorar a vida de Bolena, enquanto destaca os esforços humanitários religiosos e políticos da rainha.

Muitas histórias populares pintam Bolena como tendo posto seus olhos em Henrique para perseguir o poder, e o rei fazendo o derradeiro sacrifício por amor em escolher romper com Roma para poder se casar com ela. Muito foi feito das cartas de amor que Henrique VIII escreveu para ela. Embora sem data, as cartas sobreviventes de sua correspondência (apenas as de Henrique continuam, as de Bolena não sobreviveram) abrangem quase três anos.

Como as contas de Nolan deixam claro, contudo, o rei tinha feito investigações em segredo sobre se divorciar de Catarina de Aragon anos antes de Bolena aparecer em cena, e Bolena na verdade resistiu aos avanços do rei. Ela fugiu da corte real por um ano, começando no verão de 1526 a escapar, e aquelas cartas de amor parecem abranger o tempo em que ela estava ausente da corte, se distanciando de seus avanços. “Os historiadores que reconhecem isso dizem que foi uma tática calculada e chantagem sexual – o derradeiro exemplo de ‘quando uma garota diz não, ela realmente quer dizer sim,’” diz a historiadora. “Há historiadores que chamam o assédio de Henrique de cartas de amor e afirmam que ele sentenciou a rainha que ele amava à morte. Me desculpe, mas a maneira em que um homem mata uma mulher não prova seu amor por ela. Se terminou em decapitação, nunca foi amor”.

Nolan vê paralelos em como algumas histórias sobre mulheres são contadas hoje. Mais cedo neste outono, um júri da Nova Zelândia considerou um homem de 27 anos culpado do assassinato da mochileira britânica Grace Millane. Sua defesa consistia na reivindicação de que Millane morreu acidentalmente durante sexo consensual; várias manchetes da mídia sobre o caso foram criticadas por desproporcionalmente focar na história sexual de Millane.

“Mesmo quando as pessoas tentam e dizem que (o período Tudor) era um tempo diferente, não, não era,” diz Nolan. “É sempre tentar desacreditar a vítima, quando na verdade nós precisamos defender a vítima – por causa disso, não podemos descartar a romantização da história de Ana. Isso filtra e tem um efeito.”

Nenhuma parte da história de Bolena deixa isso mais claro do que o fim.

Bolena foi presa com cinco homens com os quais ela foi acusada de estar cometendo adultério – um dos quais era seu próprio irmão George – em maio de 1536. Ela foi julgada primeiro e considerada culpada de adultério, incesto e alta traição, incluindo a acusação de que ela planejava matar o rei para poder fugir com um amante. Mas a essa altura, Henrique já estava profundamente apaixonado por sua própria amante Jane Seymor; ele ficaria noivo dela no dia seguinte da execução de Bolena.

Nolan suspeita que tinha mais na história do que adultério, uma questão controversa sobre a qual historiadores discordam por décadas. Muitos historiadores suspeitam que as acusações contra Bolena eram no mínimo exageradas e na pior das hipóteses totalmente fabricadas por Thomas Cromwell, um conselheiro de Henrique que estava numa luta de poder com a rainha; Nolan argumenta que a falta de privacidade da rainha e suas crenças religiosas profundamente arraigadas fariam com que ficasse difícil que ela fosse infiel em absoluto, muito menos com múltiplos homens.

Dois meses antes de sua execução, Bolena estava envolvida na aprovação de legislação nacional intitulada a Lei Pobre, que declarava que oficiais locais deviam encontrar empregos para os desempregados. A lei implicava em criar um novo conselho de governo, que rivalizava com o liderado por Cromwell. “De repente nós temos uma razão muito mais devastadora quanto ao porquê Cromwell seria imensamente ameaçado pela rainha,” diz Nolan. “Ela não era uma valentona cruel ou uma sedutora; ela era na verdade uma política que trabalhava, que morreu por empurrar ao parlamento essa lei anti-pobreza radical.” Enquanto a criação da lei foi por muito tempo atribuída a Cromwell, o envolvimento de Bolena foi reconhecido como parte da Semana do Parlamento do Reino Unido esse novembro.

A tradicional interpretação histórica de Ana Bolena confiou em fontes que obscureceram parte de sua história. Por exemplo, Nolan diz, o embaixador espanhol Eustace Chapuys é uma fonte de muitos escritos contemporâneos sobre ela, mas ele era um apoiador de Catarina de Aragon. E mesmo além do embaixador, as pessoas que mantiveram os registros nos anos de 1500 e as pessoas que os interpretaram nos séculos que seguiram tendem a ser esmagadoramente homens. Para Nolan, eles trazem a perspectiva de que as mulheres só conquistam poder por “trapaças”.

E, ela argumenta, corrigir a história de Bolena tem implicações mais amplas para a maneira como as histórias das mulheres são contadas. “Nós mandamos uma perigosa mensagem para o mundo quando nós dizemos aos leitores e espectadores que as mulheres só querem o poder por razões egoístas e frívolas,” ela diz. “Quando nós dizemos aos leitores que Ana foi morta porque ela tinha uma série de tórridos romances, isso implica que as mulheres merecem sua queda.”

Em “Women and Power: A Manifesto” (Nota: Mulheres e poder: um manifesto), a classicista Mary Beard traça as raízes da misoginia todo o caminho de volta aos gregos antigos, descobrindo a imagem da venenosa Medusa transposta para líderes femininas contemporâneas, incluindo Angela Merkel e Hillary Clinton. No Reino Unido, nesse ano várias políticas mulheres anunciaram que elas não vão concorrer nas eleições gerais no próximo dezembro, citando crescente abuso, na forma de ameaças de morte e estupro. Foi esse clima que deixou Nolan determinada a fazer a história de Bolena ser ouvida.

“Sua história é mais relevante agora do que nunca, porque ela foi uma política que foi derrubada,” diz Nolan. “Isso ainda está acontecendo, e é por isso que nós precisamos aprender o que realmente aconteceu para garantir que a história nunca se repita novamente.”

Fonte: Time

Tradução: Luciana Cristina Ruy

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