PUBLICADO EM 13 de out de 2026

Nos EUA, Trump persegue críticos de esquerda

Entenda como Trump ataca e persegue críticos de esquerda e as implicações destes atos para a oposição nos Estados Unidos.

Protesto contra Trump na 7ª Avenida em Manhattan, Nova York, em outubro de 2025. Foto: Wikipedia

Protesto contra Trump na 7ª Avenida em Manhattan, Nova York, em outubro de 2025. Foto: Wikipedia

O ataque do governo Trump a seus críticos dentro dos Estados Unidos atingiu seu ponto mais alto até agora na Assembleia Geral das Nações Unidas, em 22 de setembro.

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Durante seu discurso diante de delegados de todo o mundo, o presidente Donald Trump afirmou:

“O regime cubano passou décadas coordenando suas ações com os radicais de esquerda e as redes comunistas aqui nos Estados Unidos. Como nosso Departamento de Estado detalhou, eles cultivaram vínculos com grupos subversivos e radicais, como o Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA), a Antifa e os Socialistas Democráticos da América (Democratic Socialists of America – DSA)”. (Trump pronunciou incorretamente o nome dos Socialistas Democráticos da América, usando a expressão “Dumocrat Socialists of America”).

Essa declaração representa o ponto culminante de meses de esforços para associar a oposição ao movimento MAGA (“Faça a América Grande Novamente”) à influência estrangeira.

Lei de Registro de Agentes Estrangeiros

O primeiro ataque dessa mais recente tentativa ocorreu em maio, quando a Fox News noticiou que os Departamentos de Justiça e do Tesouro dos Estados Unidos estavam investigando organizações sem fins lucrativos e grupos de ativistas do país, sob a alegação de que estariam coordenando ações com o governo cubano.

A Fox também publicou sua própria lista de 145 organizações que associou a atividades de solidariedade a Cuba. A lista inclui desde organizações políticas, como o Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA) e os Socialistas Democráticos da América (DSA), até sindicatos, entre eles a Associação Internacional de Trabalhadores da Indústria Aeroespacial e de Máquinas (IAM) e entidades filiadas ao Sindicato Internacional dos Empregados de Serviços (SEIU).

As investigações dizem respeito a possíveis violações da Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA) e das sanções impostas pelos Estados Unidos a Cuba, cuja aplicação é de responsabilidade do Departamento do Tesouro.

A FARA tem desempenhado um papel central na intensificação dos esforços do governo Trump para silenciar seus críticos. A lei proíbe que “agentes de entidades estrangeiras” atuem nos Estados Unidos sem se registrar junto ao procurador-geral.

Memorando

Tradicionalmente, em consonância com a Primeira Emenda da Constituição americana, a lei tem sido interpretada de modo a não abranger a oposição de cidadãos e organizações dos Estados Unidos às políticas governamentais.

No entanto, o Memorando Presidencial de Segurança Nacional nº 7, assinado por Trump em 25 de setembro de 2025, incluiu possíveis violações da FARA entre os crimes a serem investigados no âmbito de sua campanha contra o que o governo denomina “violência política organizada”.

Essa campanha mira, em particular, movimentos “antifascistas”. O memorando apontou o “anti-americanismo, o anticapitalismo e o anticristianismo” como “elementos comuns” às condutas que pretende combater.

Desde a publicação do Memorando nº 7, os republicanos no Congresso intensificaram as tentativas de silenciar os críticos do movimento MAGA por meio do sistema judiciário. Em fevereiro, o senador Josh Hawley, republicano do Missouri (R-Mo.), escreveu a procuradora-geral Pam Bondi pedindo uma investigação sobre o financiamento dos protestos contra o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos), alegando que alguns financiadores teriam “possíveis vínculos com o Partido Comunista Chinês”.

Em junho, o senador Tom Cotton, republicano do Arkansas (R-Ark.), também solicitou ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) uma investigação para apurar se a oposição aos centros de processamento de dados (data centers) estaria sendo estimulada pela China — uma tese que Trump também tem defendido. Em uma publicação nas redes sociais, Trump escreveu que a China “não poderia estar mais satisfeita com esse movimento contra os centros de processamento de dados”. Em entrevista à Fox News, afirmou que “muita gente diz que isso é uma operação de relações públicas da China”.

As intimações judiciais expedidas em julho contra o People’s Forum, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e o BreakThrough News pelo Comitê de Meios e Recursos da Câmara dos Representantes, controlado pelos republicanos, demonstram a determinação das forças de direita em usar acusações de influência estrangeira contra dissidentes. As intimações foram emitidas após as organizações se recusarem a cooperar com a fiscalização do comitê. Uma investigação relacionada, conduzida por um grande júri federal em Manhattan, sobre o financiamento desses grupos reforça essa tendência.

O Departamento de Justiça parece estar intensificando esses esforços. Em 16 de setembro, divulgou uma declaração incomum para “lembrar o público” da existência da FARA, destacando “manifestações públicas organizadas com o objetivo de promover a propaganda ou outros objetivos de uma potência estrangeira”. A declaração faz alusão às acusações generalizadas, mas falsas, de que os protestos contra a agenda do MAGA seriam motivados por influência estrangeira.

Esses acontecimentos também podem servir como possível justificativa para uma guerra. Em um relatório divulgado em julho pelo Departamento de Estado, o governo Trump apresentou Cuba como uma ameaça aos Estados Unidos por causa de sua suposta influência sobre a esquerda americana.

Discurso na ONU

Da mesma forma, durante seu discurso na ONU, Trump afirmou que seu governo está buscando “uma mudança fundamental na situação em Cuba” e declarou: “Não permitiremos que exista um refúgio para adversários estrangeiros que ameacem os Estados Unidos bem à nossa porta”.

Isso ocorre enquanto a CBS News noticia, citando uma mensagem interna do Exército e autoridades americanas não identificadas, que as Forças Armadas podem estar preparando o terreno para uma possível ação envolvendo Cuba.

A abordagem do governo tem amplo precedente histórico. O macarthismo foi caracterizado, em grande medida, por narrativas sobre a influência estrangeira, utilizadas tanto como justificativa política quanto como fundamento jurídico para perseguir pessoas de esquerda e aprovar algumas das mais severas restrições à liberdade de expressão da história do país.

As forças progressistas nos Estados Unidos não têm aceitado passivamente as ameaças do governo. Em uma declaração de 24 de setembro, em resposta ao discurso de Trump na ONU, o Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA) citou a copresidente Rossana Cambron, que classificou as acusações como “uma fabricação completa e absoluta”, acrescentando: “Nossas políticas são formuladas exclusivamente nos Estados Unidos”.

O CPUSA também condenou as intimações judiciais destinadas a intimidar o People’s Forum e outros grupos de esquerda, em uma declaração de 1º de agosto.

Da mesma forma, em uma declaração de 10 de agosto, a DSA respondeu ao relatório do Departamento de Estado, que alegava falsamente haver vínculos entre a organização, outros grupos de esquerda e uma operação cubana de influência estrangeira. A entidade afirmou que “a DSA não atua em nome do governo cubano, mas apenas por iniciativa própria” e que o relatório “é um instrumento para concretizar os objetivos pessoais de Rubio e Trump de promover uma mudança de regime”.

A declaração também reafirmou o compromisso da DSA de organizar ações contra o bloqueio imposto pelos Estados Unidos a Cuba, apesar das pressões do governo Trump.

Enquanto prosseguem os esforços do governo para sufocar a oposição, o movimento de base contra o MAGA não ficará em silêncio.

Kate Jones escreve da Filadélfia. Ela é integrante do Clube Debbie Amis Bell, do Partido Comunista dos Estados Unidos (CPUSA).

Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy

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