PUBLICADO EM 24 de set de 2021
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Desperte a Clara contra toda a escuridão da alma

Arrigo Barnabé. Foto: Gal Oppido/Divulgação

Por Marcos Aurélio Ruy

Com a promessa de retomar essa coluna com mais afinco, foram selecionadas quatro canções que vislumbram as possibilidades de amor nestes tempos onde o ódio vocifera sem temor. As músicas nos levam ao pensamento de que estamos superando a face canalha da vida e despertando algo sublime.

A superação só virá com muita disposição de juntar povo para gritar pela vida, pela saúde, pela ciência, pela cultura, pela educação… Pela construção de um mundo sem desigualdades.

Caetano Veloso

Caetano Veloso declara que os “anjos tronchos do Vale do Silício” permanecem no escuro “em plena luz” porque os algoritmos determinam o que se pode ou não se pode saber. Mas serão vencidos. “Um post vil poderá matar”. Em tempos de tanta fake news, desinformação e desrespeito ao outro.

 

“Uns anjos tronchos do Vale do Silício

Desses que vivem no escuro em plena luz

Disseram: vai ser virtuoso no vício

Das telas dos azuis mais do que azuis

 

Agora a minha história é um denso algoritmo

Que vende venda a vendedores reais

Neurônios meus ganharam novo outro ritmo

E mais e mais e mais e mais e mais

 

Primavera Árabe – e logo o horror

Querer que o mundo acabe-se

Sombras do amor

 

Palhaços líderes brotaram macabros

No império e nos seus vastos quintais

Ao que revêm impérios já milenares

Munidos de controles totais

 

Anjos já mi ou bi ou trilionários

Comandam só seus mi, bi, trilhões

E nós, quando não somos otários

Ouvimos Shoenberg, Webern, Cage, canções…

 

Ah, morena bela Estás aqui

Sem pele, tela a tela

Estamos aí

 

Um post vil poderá matar

Que é que pode ser salvação?

Que nuvem, se nem espaço há

Nem tempo, nem sim nem não

Sim: nem não

 

Mas há poemas como jamais

Ou como algum poeta sonhou

Nos tempos em que havia tempos atrás

E eu vou, por que não?

Eu vou, por que não? Eu vou

 

Uns anjos tronchos do Vale do Silício

Tocaram fundo o minimíssimo grão

E enquanto nós nos perguntamos do início

Miss Eilish faz tudo do quarto com o irmão”

 

Anjos Tronchos (2021), de Caetano Veloso

 

Arrigo Barnabé

Arrigo Barnabé, que completou 70 anos no dia 14 de setembro, surgiu para o grande público nos anos 1980. Em um festival despontou com Clara Crocodilo. Um trabalho tão diferente quanto inesperado. Atonal. Letra meio falada, meio cantada. Acordes dissonantes. O som agradou o público em 1980 e continua agradando.

 

“São Paulo, 31 de dezembro de 1999. falta
Pouco, pouco, muito pouco mesmo para o
Ano 2000 e você, ouvinte incauto, que no
Aconchego de seu lar, rodeado de seus
Familiares, desafortunadamente colocou
Este disco na vitrola, você que, agora,
Aguarda ansiosamente o espocar da
Champanha e o retinir das taças, você,
Inimigo mortal da angústia e do
Desespero, esteja preparado… o pesadelo
Começou. sim, eu sei, você vai dizer que é
Sua imaginação, que você andou lendo
Muito gibi ultimamente, mas então por
Que suas mãos tremeram, tremeram,
Tremeram tanto, quando você acendeu
Aquele cigarro… e por que você ficou tão
Pálido de repente? será tudo isto fruto da
Sua imaginação? não, meu amigo, vá ao
Banheiro agora, antes que seja tarde
Demais, porque neste mero disco que você
Comprou num sebo, esteve aprisionado
Por mais de 20 anos, o perigoso marginal,
O delinqüente, o facínora, o inimigo
Público número 1, clara crocodilo…

Quem cala consente, eu não me calo
Não vou morrer nas mãos de um tira
Quem cala, consente, eu desacato
Não vou morrer nas mãos de um rato
Não vou ficar mais neste inferno
Nem vou parar num cemitério
Metralhadora não me atinge
Não vou ficar mais neste ringue

Ei, você que está me ouvindo, você acha
Que vai conseguir me agarrar? pois então,
Tome…
Já vi que você é perseverante. vamos ver
Se você segura esta…
Meninas, vocês acham que eles querem
Mais?
Querem sim!
Você, que então é tão espertinho, vamos
Ver se você consegue me seguir neste
Labirinto.

Clara crocodilo fugiu
Clara crocodilo escapuliu
Vê se tem vergonha na cara
E ajuda clara, seu canalha
Olha o holofote no olho,
Sorte, você não passa de um repolho

Onde andará clara crocodilo? onde
Andará? será que ela está roubando algum
Supermercado? será que ela está
Assaltando algum banco? será que ela está
Atrás da porta de seu quarto, aguardando o
Momento oportuno para assassiná-lo com
Os seus entes queridos? ou será que ela
Está adormecida em sua mente esperando
A ocasião propícia para despertar e descer
Até seu coração… ouvinte meu, meu
Irmão?”

 

Clara Crocodilo (1980), de Arrigo Barnabé e Marco Cortes

 

Ismael Silva

O sambista Ismael Silva (1905-1978) foi um dos fundadores do bloco carnavalesco Deixa Falar, em 1928, precursor das escolas de samba. Como ele e um grupo de sambistas ensaiavam próxino a uma escola, ele disse que se ali era a escola que formava professoras, eles formavam a escola de samba. O termo pegou.

Grande compositor, uma das grandes influências de Chico Buarque, dito por ele próprio.

 

“Nem tudo que se diz se faz

Eu digo e serei capaz

De não resistir

Nem é bom falar

Se a orgia se acabar

 

Mas esta vida

Não há quem me faça deixar

Por falares tanto

A polícia quer saber

Se eu dou meu dinheiro todo a você

 

Nem tudo que se diz se faz

Eu digo e serei capaz

De não resistir

Nem é bom falar

Se a orgia se acabar

 

Até que enfim

Eu agora estou descansado

Até que enfim

Eu agora estou descansado

Ela deu o fora

Foi morar lá na Favela

E eu não quero saber mais dela

 

Nem tudo que se diz se faz

Eu digo e serei capaz

De não resistir

Nem é bom falar

Se a orgia se acabar”

 

Nem É Bom Falar (1955), de Ismael Silva

 

Victor Jara

O chileno Victor Jara completaria 89 anos no dia 28 de setembro se não tivesse sido assassinado pela ditadura de Pinochet em 16 de setembro de 1973, aos 40 anos. Seu talento sobreviveu. Pinochet já era.

Quando lançou essa música ele disse que “a mulher não é uma escrava: é igual ao homem, e tem os mesmos direitos. Pedir a mulher pureza e dedicação ao lar, e ao homem não, é ser escravagista. O homem não é nada sem a mulher”.

 

“Te recordo Amanda
A rua molhada
Correndo à fábrica onde trabalhava Manuel.

O sorriso largo, a chuva no cabelo,
Não importava nada
Vais encontrar-se com ele,
Com ele, com ele, com ele

São cinco minutos
A vida é eterna,
Em cinco minutos

Soa a sirene
De volta ao trabalho
E tu caminhando iluminas tudo
Os cinco minutos
Te fazem florescer

Te recordo, Amanda,
A rua molhada
Correndo à fábrica
Onde trabalhava Manuel

O sorriso largo
A chuva no cabelo
Não importava nada,
Vais encontrar-se com ele,
Com ele, com ele, com ele, com ele

Que partiu para a serra
Que nunca fez mal,
Que partiu para a serra
E em cinco minutos,
Foi destruído

Soa a sirene
De volta ao trabalho
Muitos não voltarão
Tampouco Manuel

Te recordo Amanda
A rua molhada
Correndo à fábrica,
Onde trabalhava Manuel”

 

Te Recuerdo Amanda (Te Recordo Amanda, 1969), de Victor Jara

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  • Evelyn Gitti Hanna Secco

    Acompanho os textos do jornalista Marcos Aurélio Ruy, gosto muito da maneira que ele aborda os mais variados temas e sempre aprendo muito, neste texto destaco “possibilidades de amor nestes tempos onde o ódio vocifera sem temor.” Destaco também o trecho da música do Arrigo Barnabé, que eu não conhecia, “Quem cala consente, eu não me calo” às vezes consentir é uma tentativa de entender, silenciar para tentar ouvir o que há por trás de algumas falas ou comportamentos. Consentir aparentemente pode ser entendido como fraqueza, isso bem senso comum, mas pode ser também uma tentativa de aproximação e afeto, nos dias atuais uma grande risco. Sigo analisando as aprendizagens que me chegam e agradeço a oportunidade que me é dada pelas mãos do Marcos, da Carolina e de outros que me são apresentados por vocês. Muito bom ter esse espaço para comentar.

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