PUBLICADO EM 29 de ago de 2018
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Colunista Marcos Verlaine

O errático debate com os presidenciáveis; o que acontece?

“Que Jair Bolsonaro tenha jantado os mal preparados apresentadores da bancada do Jornal Nacional, na entrevista desta terça, é péssimo sinal para o jornalismo”. “A culpa, porém, é da Globo e da pusilanimidade conivente da grande mídia brasileira”, [que flerta, por conveniências políticas e econômicas, com o fascismo para escantear o PT, Lula e a esquerda], cutuca Raymundo Gomes, no portal Diário do Centro do Mundo (DCM).

A cada debate ou sabatina com os presidenciáveis fico ansioso para ver o candidato sendo “espremido” pelos jornalistas com perguntas inteligentes sobre os problemas relevantes do País. Mas não é o que tem acontecido. Nesta semana, a bancada do Jornal Nacional tem recebido os candidatos mais bem posicionados, segundo as pesquisas de intenção de voto, para sabatina.

Na segunda (27), foi sabatinado o candidato do PDT, Ciro Gomes. A entrevista durou em torno de 27 minutos e 40% desse tempo foi consumido pelos entrevistadores William Bonner (editor e apresentador) e Renata Vasconcellos (apresentadora) do jornal eletrônico. O candidato do PDT saiu-se relativamente bem. Entretanto, os entrevistadores na ânsia de tentar expor contradições do entrevistado atrapalham-no porque querem “pegá-lo” e não entrevistá-lo para levar ao grande público o que pensa o candidato sobre temas e problemas relevantes e candentes do País e do povo.

A “polêmica” com Ciro Gomes foi se o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi respondia ou não a processo na Justiça. O candidato afirmou categoricamente que não e que confiava “cegamente” em Lupi. Esta foi a “grande” e “mordaz” “polêmica” com o pedetista. A pergunta que fica é: por que os jornalistas e o jornalismo brasileiro não têm contribuído para elevar o nível dos debates e politizá-los no sentido de esclarecer aos ouvintes, telespectadores e internautas, os eleitores e eleitoras, a fim de que possam formar opinião mais organizada e esclarecida sobre as eleições e os candidatos?

Raymundo Gomes, do portal Diário do Centro do Mundo (DCM), em artigo “Globo deu uma plataforma de tiro a Bolsonaro” sugere ou aponta um caminho sobre esta questão. “Que Jair Bolsonaro tenha jantado os mal preparados apresentadores da bancada do Jornal Nacional, na entrevista desta terça, é péssimo sinal para o jornalismo”, provoca Gomes.

“A culpa, porém, é da Globo e da pusilanimidade conivente da grande mídia brasileira”, acrescenta assertivamente.

“Depois de anos sem denunciar o extremismo fascista, obcecado com o ‘lulodilmismo’ e o PT, Bonner e Renata ficaram vários momentos sem resposta diante de Bolsonaro.”

Gomes acerta em sua análise. Na sabatina com o deputado presidenciável, realizada nesta terça (28), os jornalistas não fizeram perguntas para entender o que pensa o candidato sobre a economia do País e como fazer para sair da recessão, reduzir o desemprego, que acossa 13 milhões de brasileiros e brasileiras, sobre a grave crise na educação, os problemas na infraestrutura nacional, a questão da segurança pública, a economia que patina, que o candidato diz não dominar nada sobre o assunto. Como quer ser presidente da República, o principal cargo do País, sem entender e/ou dominar minimamente tema tão relevante?

Preferem tentar fazê-lo se expor e “escorregar em cascas de banana” na falsa polêmica sobre sua dependência em relação ao seu principal assessor, o economista ultraliberal, Paulo Guedes, a quem Bolsonaro diz que vai entregar os rumos da economia do País. Nada perguntam sobre o fato de o economista comungar com a fracassada pauta econômica em curso. E não fazem a óbvia e simples pergunta porque, ao fim e ao cabo, também concordam com a agenda econômica do governo. Afinal, já está cristalino, que o impedimento de Dilma Rousseff foi para imprimir a política econômica do neoliberalismo, que dialoga com profundos cortes de gastos públicos e com a drástica redução do papel do Estado na economia, contra o povo mais pobre e vulnerável.

Ao questionamento que não pode ficar refém de auxiliares, invariavelmente, o candidato responde com provocações primárias do tipo: “Lula também não entendia nada de economia” ou “Dilma é economista e olha o que ela fez”. Com respostas assim, o candidato expõe todo seu temerário despreparo e prepotência diante de milhões de telespectadores que gostariam de ouvir alguma proposta minimamente elaborada para superar o desalento em que foi jogada a população brasileira, sobretudo a parte mais pobre e vulnerável do povo.

Tudo indica que o deputado não ganhou nem tampouco perdeu eleitores com a sabatina. A entrevista pouco ou nada acrescentou para o debate sucessório. Só fica cada vez mais evidente que ele é tosco e despreparado. Só os seus seguidores mais fanáticos parecem não enxergar isto. Mas nessas alturas da disputa isso tende a não mudar ou influenciar para o bel ou para o mal aqueles que o seguem. Já estão cristalizados.

Pauta multiculturalista

A pauta apresentada pelos entrevistadores — foi assim no Roda Viva, na Globo News e agora no JN — é a agenda que o deputado gosta e que projeta sua polêmica figura política há quase 30 anos. Ele “deita e rola” e ainda tripudia sobre os entrevistadores e a pauta multiculturalista e identitária. E seus seguidores deliram com suas respostas simplistas e muitas vezes grosseiras. Ele nada acrescenta ou elucida sobre os gravíssimos problemas estruturais nacionais, porque essa pauta tem passado ao largo do debate.

O que fica cristalino é que Bolsonaro lançou-se nessa aventura política estimulado pelo gravíssimo e profundo vácuo político e ético-moral, que verticaliza a crise da representação, da democracia representativa, e do presidencialismo de coalizão, que a mídia e o mercado ajudaram a alargar, numa luta política insana, com o propósito de destruir Lula, o PT e a esquerda.

O mais despreparado

Dos candidatos e candidatos com reais chances de vitória ou os que estão efetivamente na disputa — Fernando Haddad (PT), considerando o fato de que deverá substituir Lula na corrida presidencial, Jair Bolsonaro (PSL), Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede) e Ciro Gomes (PDT) — o mais despreparado, em todos os níveis, é Bolsonaro. Isto não é uma provação, é uma constatação.

Que as análises feitas até o momento estejam corretas, quando indicam que o candidato já “bateu” no “teto”. Porque do contrário, se for de fato uma onda crescente, o Brasil será dragado por gravíssima espiral de crise, já que o Estado defendido pelo deputado candidato é o Estado policial, isto é, com uma política liberal-fiscal no plano da economia, aliada a uma política de Estado repressor, sobretudo contra a população mais desguarnecida e periférica do País e também contra os movimentos sociais e sindical.

Que o debate possa melhorar. Que seja mais esclarecedor e politizado. Que a maioria dos eleitores e eleitoras tenha mais clareza e discernimento diante dos gravíssimos e estruturais problemas nacionais, a fim de que o neofascismo não encontre eco e apoio da maioria do nosso povo, porque essa saída será a porta de entrada para o passado, que o Brasil ousou trilhar com muito custo, inclusive humano, quando superou a ditadura militar, a partir de 1985.

Que o futuro dure muito tempo!

Marcos Verlaine é Jornalista, analista político e assessor parlamentar do Diap

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