PUBLICADO EM 20 de nov de 2020
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Colunista Alex Saratt

19 de novembro: nem mais um minuto de silêncio

O problema é o guarda da esquina? Não, não minimizemos o racismo, tampouco esqueçamos que o trio que forma o sistema policial-judicial-prisional é, a um só tempo, grupo de extermínio, tribunal de fachada e campo de concentração para o povo negro africano-brasileiro. Mas a ideologia do ódio, da violência e da morte tornou meros seguranças e vigilantes em semideuses da defesa do patrimônio e da punitividade branca contra os pobres e negros e excluídos e marginalizados.

As cenas repugnantes do espancamento que tirou a vida de João Alberto Silveira de Freitas mostram um homem detido e rendido, o que torna sua execução – quase um linchamento – um horror ainda mais abominável. Mas a permissiva autoridade conferida a quem se supõe guardião da segurança e da justiça, torna cenas e fatos como esses possíveis e comuns (quantos outros negros e negras morreram violentamente ontem?) e dá poderes para que os portadores da ideologia que celebra a desumanização do indivíduo e da sociedade ajam sem nenhum freio

Costumo dizer: a dita consciência humana é formada pelas diversas contribuições de diferentes grupos humanos (não somos seres meramente biológicos, somos sociais, culturais, históricos, políticos) e me parece que a tentativa de negar a celebração da Consciência Negra traz consigo o apagamento e desimportância da presença e contribuição africana para a Humanidade e Brasilidade. Se quisesse ser irônico e resgatando uma expressão racista para ilustrar, para negar a Negritude e Africanidade, no 20 de Novembro “negro vira gente”. No Sul do país é comum festas, feriados, desfiles, denominações de logradouros e espaços públicos com datas que remontam as presenças imigrantes européias específicas, mas quando se trata dos povos africanos, aí vem o discurso de que “somos todos iguais”.

No dia em que os racismos – estrutural, dissimulado e que alegam o reverso – tentam desacreditar a Consciência Negra, usando o jargão espertalhão de “consciência humana” (onde estava ela na hora do espancamento?), numa óbvia tentativa de neutralizar, ocultar, omitir, a luta e existência dos povos africanos na constituição de uma Nação incompleta chamada Brasil, resta-nos tristemente registrar mais um episódio que sintetiza e expõe a brutalidade em que vivemos e a trágica naturalização do racismo genocida.

“Nós vos pedimos com insistência:
Nunca digam – Isso é natural!
Diante dos acontecimentos de cada dia,
Numa época em que corre o sangue
Em que o arbitrário tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza
Não digam nunca: Isso é natural
A fim de que nada passe por imutável.”

Bertolt Brecht

Alex Saratt é professor de História nas redes públicas municipal e estadual em Taquara/RS, vice-diretor do 32º núcleo do Cpers-Sindicato

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Radio Peão Brasil

Leia também:

Dia da Consciência Negra: Na paciência, persistência e resistência

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  • Jair De Sales Mersoni

    os atos nos EUA fizeram com que o mundo inteiro falasse sobre o assunto e também saísse às ruas. Nunca antes o Brasil tinha dado tanto destaque para a temática como agora. O que é extremamente válido. Mas entristece o fato de que esse é um tema vivenciado diariamente no Brasil e que a gente só foi capaz de reconhecer quando o viu no outro, quando sentiu a dor do outro.
    eu sinto muito ódio quando vejo esses atos racistas. É doentio, é desumano, e isso vem em decorrência da criação dos pais.
    O Brasil precisa e deve evoluir!!!

  • ZILA REGINA KOLLING

    Excelente! Texto para ser trabalhado com alunos no Ensino Médio.

  • Magda

    O título de seu texto por si só já é impactante e como lhe é peculiar, o conteúdo me contempla. Que cenário muito bem descrito. Gritemos!

  • VINÍCIUS PUHL

    Parabéns, Alex! São Artigos desta natureza, com esse conteúdo classista e na hora certa que despertam mais a consciência e favorecem a reflexão. #Adiante

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