
Entenda as mudanças no crédito defendidas por Ricardo Patah e Roberto Troster para uma intermediação financeira mais saudável.
O presidente nacional da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah, e o economista Roberto Luis Troster defendem uma mudança no modelo de crédito brasileiro para enfrentar o avanço da inadimplência e melhorar a saúde financeira da população. Em artigo publicado na seção Tendências e Debates da Folha de S.Paulo, em 20 de outubro, os autores apresentam um estudo encomendado pela central sindical com recomendações para tornar a intermediação financeira mais equilibrada e saudável.
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Intitulado “A saúde financeira dos cidadãos”, o texto questiona o contraste entre a sofisticação tecnológica do sistema financeiro e as dificuldades enfrentadas pelos brasileiros para administrar suas dívidas. Troster é doutor em economia, consultor e ex-economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban).
Para os autores, ampliar o acesso a serviços bancários não basta. É necessário garantir condições para que as pessoas consigam cumprir suas obrigações, enfrentar imprevistos e realizar projetos, sem transformar o dinheiro e o crédito em fontes permanentes de aflição.
Inadimplência prejudica toda a economia
Segundo os dados apresentados no artigo, o Brasil tinha 83,7 milhões de cidadãos negativados no Serasa em junho de 2026. Patah e Troster ressaltam que os efeitos desse quadro ultrapassam o orçamento das famílias: comprometem as vendas das empresas, provocam perdas para os bancos, reduzem a arrecadação pública e limitam o crescimento econômico.
Os autores observam que o número de negativados aumentou todos os anos desde 2021, apesar de fatores favoráveis registrados no período, como o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), a queda do desemprego e a implementação de programas de renegociação de dívidas, entre eles o Desenrola.
Na avaliação de ambos, essa trajetória mostra que a conjuntura macroeconômica não explica, sozinha, o avanço da inadimplência. Também é preciso examinar como o crédito é concedido, como seus custos são definidos e de que maneira as dívidas são cobradas.
Um ciclo que encarece o crédito e amplia as dívidas
O artigo descreve um mecanismo que se retroalimenta: o aumento da inadimplência leva à cobrança de juros mais altos, à redução dos prazos e a maiores restrições para obter empréstimos. Essas condições, por sua vez, tornam o pagamento mais difícil e contribuem para novos atrasos.
Para Patah e Troster, esse funcionamento revela o esgotamento de um modelo de intermediação financeira que permanece, em seus fundamentos, semelhante ao de meio século atrás. A modernização, defendem, deve beneficiar tanto os cidadãos quanto as instituições financeiras, ao criar condições mais adequadas para o pagamento dos empréstimos.
Entre os princípios destacados estão o equilíbrio de forças entre credores e devedores, a transparência, regras claras para a definição dos custos do crédito e uma estrutura regulatória capaz de lidar adequadamente com o superendividamento.
Estudo da UGT propõe cinco frentes de mudança
Para contribuir com esse debate, a UGT encomendou um estudo com recomendações organizadas em cinco frentes: reinclusão dos negativados, regras de transparência, ajustes na tributação, atuação do Banco Central e educação financeira.
Conforme o artigo, todas as medidas propostas podem ser adotadas de imediato, sem depender de aprovação do Congresso Nacional. O objetivo é construir uma intermediação financeira que favoreça a recuperação da capacidade de pagamento dos cidadãos e permita ao crédito cumprir seu papel no financiamento de projetos, na geração de renda e na promoção do bem-estar.
A tese central dos autores é que o atual cenário pode ser transformado. “A dinâmica perversa do crédito no Brasil não é uma fatalidade”, afirmam. Para Patah e Troster, enfrentar o problema exige rever escolhas institucionais que alimentam o endividamento e estabelecer uma relação mais equilibrada entre o sistema financeiro e a população.
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