PUBLICADO EM 20 de Maio de 2020
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Colunista Carolina Maria Ruy

Youtuber bombou no campo progressista porque não ameaça a fragmentação crônica

Frente ampla é o movimento que resulta de um grande diálogo político entre partidos e movimentos sociais de esquerda, centro esquerda, centro e até setores da centro direita em torno do compromisso de um programa em comum.

Um exemplo de ação ampla bem sucedida foi a realização do Primeiro De Maio Unitário das Centrais Sindicais neste ano. No artigo “A construção da unidade no 1º de Maio das centrais sindicais” publicado logo após o evento, dia 5 de maio, os sindicalistas Wagner Gomes (CTB), Álvaro Egea (CSB) e João Carlos Juruna (Força Sindical), afirmaram que construir o evento foi trabalhoso, mas perfeitamente possível. Eles disseram que:

“Embora seja fundamental, esta soma de forças não foi, e não é, fácil. Sentimos na pele que a política ampla e unitária não se faz apenas de palavras e intenções. Ela resulta de toda uma trajetória de diálogos, demonstrações de confiança, concessões e tolerância”.

E que:

“Precisamos, nós sindicalistas das mais diversas tendências, que nos aprofundar no esforço de compreender que a verdadeira unidade não deve ser apenas entre quem comunga das mesmas ideologias. A unidade que queremos deve ser fortemente representativa e deve contemplar visões diferentes para além dos nossos tradicionais grupos. Ela é o contrário do sectarismo e do hegemonismo, que são formas de autoritarismo”.

Os sindicalistas deram um exemplo de construção e humildade. Bom para os trabalhadores.

Mas, infelizmente, quando se trata do debate eleitoral e partidário, esse é um ideal em um horizonte distante.

Estamos ainda presos ao esquema divisionista que demoliu a esquerda nas eleições de 2018, com a diferença que agora parecemos obcecados por uma ideia fetichista de frente ampla. O termo, que virou chavão entre os grupos de oposição ao governo, surge mais como um mea-culpa envergonhado pela vacilação que pavimentou a vitória de um presidente de tão baixo nível como o Jair Bolsonaro, do que como uma proposta concreta.

Esta defesa de fachada da frente ampla, empunhada por sectários crônicos, porém disfarçados, é perigosa porque esconde os sintomas da doença da fragmentação e da intolerância.

Isso tornou-se particularmente agudo na repercussão da entrevista do Youtuber Felipe Neto no programa de entrevistas da TV Cultura, Roda Vida. Não cabe aqui uma crítica ao Youtuber, nem há interesse em fazê-la. O que liga o sinal de alerta é que sua defesa em parte do campo progressista contrasta com o comportamento de gueto verificado quando se trata de dialogar com políticos de partidos que não rezam pela mesma cartilha.

Ações políticas e de movimentos sociais que apontam para um diálogo amplo, caem no limbo da guerra da polarização, sem a merecida repercussão entre a mesma parte do campo progressista que bajulou o jovem Youtuber de forma histriônica e constrangedora.

“Mas ele tem tantos milhões de seguidores”, dizem. Ora, não faz muito tempo que quem elegia seus ídolos com base no número seguidores ou expectadores era chamado de alienado. Havia radicalismo e sectarismo. Mas havia massa crítica, discernimento e noção do que é importante. Hoje há o radicalismo e sectarismo de sempre, mas se perdeu o senso crítico, a noção da realidade, a vergonha na cara…

Depreendo disso, pegando o exemplo recente do Youtuber Felipe Neto, que ele “bombou” no nosso campo mais por não ameaçar o divisionismo do que por propor amplitude.

Em bases como esta, resta claro que a frente ampla não é pra agora. Ainda vamos bater muito a cabeça por aí. Por ora estamos condenados à polarização e ao fisiologismo de sempre. Deslumbrados com as redes sociais, reféns dos likes, engolidos pela miséria intelectual e cultural.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

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