PUBLICADO EM 03 de nov de 2026

Colunista: Eusébio Pinto Neto

Que lição tirar desse momento?

Entenda como a coragem dos jovens pode transformar a postura política do Brasil. Que lição tirar desse momento?

O Brasil viveu nas últimas eleições um momento histórico de tomada de consciência coletiva. Diante do risco de entregar o destino do país a grupos neofacistas, com projetos que ameaçam direitos e conquistas civilizatórias, uma parcela expressiva da população compreendeu que não bastava acompanhar os acontecimentos de casa. Era preciso ocupar as ruas, levantar a voz e participar da luta pelo futuro do país.

Foram os estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, que acenderam a faísca. Diante da gravidade do momento político, universitários tomaram a iniciativa de ocupar as ruas e convocar a sociedade à mobilização no segundo turno. O gesto de coragem rompeu a inércia e mostrou que a juventude não estava disposta a assistir passivamente à definição dos rumos do país.

A faísca encontrou terreno fértil. Como um rastilho de pólvora, a mobilização se espalhou por universidades e escolas de diferentes regiões do Brasil, reunindo estudantes, trabalhadores, artistas, movimentos sociais e outros setores da população. O que começou como uma iniciativa de jovens universitários ganhou dimensão nacional e revelou uma disposição coletiva de resistência que ultrapassou os limites da disputa eleitoral.

A maior lição desse momento não está apenas na capacidade de mobilização. Está naquilo que faremos com essa energia daqui para a frente. A eleição passou, mas a luta por um país mais justo continua.

É preciso compreender que a democracia não se resume ao direito de escolher nossos governantes a cada quatro anos. Ela também se constrói no cotidiano, na defesa dos direitos, na participação nas decisões coletivas e na capacidade de organização do povo. É justamente aí que entra a responsabilidade dos sindicatos e dos movimentos sociais, estudantis e culturais.

Não podemos assistir a esse despertar da consciência coletiva como simples espectadores, satisfeitos com o resultado das urnas. Precisamos abrir espaço para novas lideranças, ouvir a juventude, renovar nossas formas de organização e aproximar cada vez mais as entidades da realidade das pessoas que representamos.

Para o movimento sindical, esse desafio é ainda maior. O trabalhador que se mobilizou pelo fim da escala 6×1 e em defesa da democracia precisa perceber que a mesma força coletiva pode transformar outros aspectos da sua vida. Pode conquistar salários melhores, combater a precarização do emprego e garantir mais tempo para a família, o descanso, a cultura e o lazer.

Afinal, a consciência de classe se fortalece quando o trabalhador reconhece que seus problemas não são exclusivamente individuais e que muitos deles só podem ser enfrentados por meio da organização coletiva. Quem descobriu a força de sua voz nas ruas precisa descobrir também a força de sua união no local de trabalho.

Isso exige uma autocrítica das próprias lideranças. Precisamos superar o comodismo, abandonar práticas que nos afastam das bases e compreender que os movimentos sociais não podem se limitar a reagir às ameaças. Devem ser capazes de apresentar caminhos, mobilizar pessoas e construir conquistas.

Não se trata de disputar o protagonismo com a juventude ou de tentar enquadrar uma mobilização espontânea nas estruturas tradicionais. Trata-se de aprender com ela, estabelecer pontes entre gerações e transformar a disposição de participar em compromisso duradouro com a democracia e a justiça social.

O recado das ruas foi dado. Cabe agora às entidades sindicais e aos demais movimentos populares ter a sensibilidade e a coragem de compreendê-lo. Não podemos perder o bonde da história. Precisamos transformar esse despertar coletivo em um salto da consciência de classe, que vai acontecer quando o povo deixar de se enxergar apenas como eleitor e passar a se reconhecer como protagonista de seu próprio destino.

Essa é a lição que precisamos tirar desse momento.

Eusébio Luís Pinto Neto,
Presidente do Sinpospetro RJ e da Federação Nacional dos Frentistas (Fenepospetro)

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