PUBLICADO EM 08 de nov de 2017
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Hora de decidir e de reagir

Neste fim de semana de finados, dois artigos sobre a política nacional alertam para a chegada da hora H. Um deles é o editorial da revista Carta Capital, assinado por Mino Carta, chamado Hora de reagir. O outro é um editorial do jornal O Estado de S. Paulo, assinado por Fernando Henrique Cardoso, chamado Hora de decidir.

A própria escolha do verbo já anuncia o teor da argumentação. Enquanto um fala em agir em resposta a uma situação, o outro fala em tomar resolução ou deliberar.

Interessante essa diferença em um momento em que precisamos tanto reagir às medidas impopulares do governo – e os Sindicatos estão preparando uma bela reação para o dia 10 de novembro, quanto decidir sobre que caminhos trilhar.

Mas, nunca em meus quarenta anos de idade me imaginei vendo FHC mais oportuno que com Mino Carta, postos lado a lado. Venho me perguntando desde domingo (hoje é quarta-feira) o que houve com meus parafusos. Tenho discutido em grupos do Whatsapp (e discussões políticas em grupos de Whatsapp são delicadas como invasões Vikings) e, com isso, sendo forçada a explicar e fundamentar posições cegamente contestadas. É um exercício e tanto. Começarei assim: nunca acreditei no “Fora Temer” ou em “Diretas Já!” em 2017. Não que eu esteja acreditando na balela de que as reformas são necessárias para o desenvolvimento nacional. Isso é sem vergonhice pura. Mas está claro que o que está por trás da queda ou da permanência de um presidente da República são interesses outros, interesses dignos da “dark web”. Não defendo que a corrupção seja uma lei da natureza. Mas estamos falando em atravessar uma má fase e chegar vivos em 2018.

Desde o impeachment Mino Carta vem insistindo nessa linha maniqueísta e em lastimar a queda do PT. É compreensível, uma vez que ele é um idealista, que acreditava em um governo popular, mesmo com Dilma Rousseff. Entretanto é preocupante o fato de ele, sob pretexto desta inconformidade, sugerir, por exemplo, que vivemos, desde “o golpe de 2016”, uma situação pior que a ditadura militar, quando não corríamos o risco de sofrer com o entreguismo que sofremos agora. Ora, mas o próprio golpe de 1964 foi entreguista, foi uma subordinação aos EUA, e hoje isso não apenas é notório como está documentado.

Ainda mais preocupantes são afirmações, sem respaldo na realidade, como: as greves do ABC de 1978 a 1980 projetaram um novo líder, Lula, “à testa de uma nova leva de sindicalistas habilitados a substituir os pelegos”.

Aquelas greves não apenas não se restringiram a São Bernardo – elas se espraiaram para todo o Brasil, por diferentes categorias, como não representaram o surgimento do sindicalismo autêntico no Brasil.

Quem conhece minimamente a história dos trabalhadores brasileiros sabe que a ideia de que o sindicalismo começou em 1978, e que antes o que havia era “pelegagem”, é uma falácia inventada por grupos – não por sindicatos ou centrais – que pensam se beneficiar desta mentira. Não vou encher o texto de palavras, apontando greves, sindicatos e sindicalistas pré 1978. Hoje facilmente o leitor pode pesquisar o assunto e verificar a falsidade da informação publicada na Carta.

Por fim, e não menos preocupante, o editor fala sobre o “povo na rua preparado para a luta se necessário, comandado por líderes determinados”. Oi? Tipo “luta armada”? Aí eu me pergunto: estamos mesmo nesta situação? Quem viria iria nessa?

Contrário ao ímpeto guerrilheiro, o editorial do FHC começa com a ideia de um povo atualmente “descrente e desanimado” com a política. Muito se tem falado, desde domingo, que ele afirmou que o PSDB deveria “desembarcar do governo”. Mas ele disse muito mais.

Do alto de sua vaidade FHC fez questão de lembrar que ganhou duas vezes de Lula (naquela época, né? Sem falar na “dark web” e tal), mas admite que seria melhor se aquele seu adversário de honra concorresse novamente, em 2018. Hello! Muito mais interessante do que falar pela enésima vez do “desembarque do PSDB” deste governo que, sinceramente, é mesmo uma pinguela, é afirmar que Lula deve concorrer, não é? Lula no cenário muda tudo.

É um sinal. Não entendo porque não sai uma boa conversa/articulação entre eles, entre PT e PSDB. Não entendo porque essa ideia parece tão chocante para alguns militantes esquerdistas. Vamos combinar que engolimos parcerias muito mais assustadoras. E, quando vejo fotos daqueles palanques de 1984, com Lula, FHC, Montoro, Ulisses e Brizola avistando um futuro democrático, me pergunto onde o negócio entortou tanto que não pode voltar mais pro lugar.

FHC está certo em afirmar que o PT ganhou em 2002 por que ampliou sua base de apoio. E ainda, acréscimo meu, perdeu em 2016 porque quis dar um chega pra lá nesta base. Está certo também em dizer que o PSDB deve passar a limpo seu passado recente.

Enfim, não estamos em um contexto onde o povo, consciente e politizado, pegará em armas contra patrões e banqueiros opressores e conduzirá ao planalto um autêntico líder das massas. A triste realidade é que a extrema direita cresce sob nossos olhos e que o “povo na rua” em 2013 resultou na projeção de grupos fascistas com pautas que deveriam estar enterradas desde 1985.

Penso que hoje seria muito melhor para Lula ouvir Fernando Henrique do que Mino Carta. Nada contra o Mino. Ele pode chorar e se lamentar pelo que ocorreu com seu sonho em 2016. Mas a reação agora precisa ser muito bem pensada, deliberada, decidida, passo a passo.

Não vou entrar na discussão sobre como o atual governo chegou ao poder. Não porque, mesmo que este seja um fato incontestável contra a hipocrisia reinante nas discussões de boteco, isso abriria um debate teórico sem fim, um debate que envolve a psicologia das alianças e a matemática da governabilidade. O mais realista neste momento, penso, é reservar o idealismo para quando o vento voltar a soprar a nosso favor e fazer o que é possível, com o que sobrou depois da avalanche caiu sobre nós.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

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