PUBLICADO EM 28 de mar de 2018
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Colunista Carolina Maria Ruy

Democracia em campo minado

Circulou ontem a noite, 27, após a notícia de que o ônibus da caravana do Lula foi alvejado criminosamente, uma nota do diretório estadual do PT do Paraná que desmentia a informação do Departamento da Polícia Civil do estado, que o ex-Presidente Lula teria chegado de helicóptero no campus da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) em Laranjeiras do Sul.

A nota explicava que “Desde o início da Caravana no Sul, o PT-PR participou de audiências com o comando das forças de segurança pública no estado a fim de assegurar toda a proteção necessária à caravana do ex-presidente pelo Paraná. Na oportunidade, entregou às autoridades ofício com detalhamento da trajetória da Caravana. A presidenta nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann, ainda estabeleceu contatos com o Ministério da Justiça nesse mesmo sentido”. Como prova, estavam anexadas à nota uma carta do Ministro Raul Jungmann confirmando recebimento “do roteiro e o calendário de atividades da Caravana Lula Pelo Brasil pelos Estados do Sul” e a carta do PT ao Secretário de Segurança do Paraná, Júlio Cezar dos Reis, explicitando o roteiro da caravana.

O fato de o poder público estar ciente de todo o plano de ações do partido tornam ainda mais graves os tiros contra a caravana. A duas semanas do assassinato da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro, não faltou quem relacionasse os dois atentados. Não há ainda indícios de ligação direta, mas é fato que eles são sintomas do clima de acirramento e insegurança política que vivemos.

Hoje de manhã as centrais sindicais Força Sindical, UGT e CSB assinaram uma nota conjunta repudiando o ataque. A nota classifica o ato como “lamentável”, “covarde” e “insano” e afirma que devemos manter “o bom-senso e o direito democrático de expor, em bom tom, opiniões ou conceitos distintos”.

Estão corretas em defender, como instituições representativas que são, o debate social e a democracia.

Já nos jornais e nas redes sociais a temperatura está elevada. Uma breve compilação de frases coletadas na rede dá o tom:

“O gênio do fascismo saiu da lâmpada, e parece fora de qualquer controle” (…) “A direita reacionária passa das palavras aos atos nos ataques contra a democracia e a legalidade”.

“Um ministro duvida que haja eleições em outubro próximo” (…) “O agravamento do quadro de tensão política no país não permitirá”.

“Querem matar o presidente Lula”.

“RS é o estado que mais baixa conteúdo fascista”.

“Situações como essas no passado desembocaram em décadas de Estado de Exceção”.

Estamos “a um passo da intervenção militar”.

“O PT colhe o que plantou”.

Vivemos uma “Transição à barbárie”.

“Grupos fascistas, violentos e terroristas contam com a complacência da grande imprensa”.

Muito se fala em “tumultuar as eleições”.

No rádio, uma comentarista fez uma malandra relativização  da violência, dando a entender que o PT, como foi dito por outro, colheu o que plantou.

Após o assassinato de Marielle, muitos falaram em uma comoção capaz de reviver mega manifestações como as de junho de 2013. Reviver talvez não seja o caso, uma vez que o mais provável é que ainda estejamos sob seus efeitos. Não se sabe qual faísca incendiou o país em 2013. O que se nota é que aquele movimento, e é de se presumir que não tenha sido a intenção inicial, levantou a voz de uma direita que até então se expressava muito envergonhadamente. Os efeitos estão aí para quem quiser ver.

Pisamos em campo minado, dentro do mais profundo acirramento político, frente a frente com uma extrema direita que se agigantou nos últimos cinco anos. Dizer que as eleições já começaram é coisa do passado. Incentivar uma guerra entre regiões ou mesmo entre posições políticas só beneficiará grupos que se erguem sob o ódio. Ódio à diversidade, ódio aos pobres, ódio às mulheres, por exemplo.

Há exatos cinquenta anos, em 28 de março de 1968, o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto, foi assassinado pela polícia do regime militar. Sua morte gerou uma onda de protestos. Como reação a ditadura endureceu. O AI-5, de 13 de dezembro daquele ano é a maior expressão do endurecimento. Desde então muita coisa mudou no país. Aqueles que se beneficiam da nossa enraizada desigualdade social, continuam, entretanto, lançando mão da violência e da vilania para manter seus privilégios.

Carolina Maria Ruy é coordenadora do Centro de Memória Sindical

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