PUBLICADO EM 15 de jul de 2020
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Colunista José Carlos Ruy

Críticas à ideia de progresso

As críticas à ideia de progresso não são recentes; elas andam de mãos dadas com a recusa em reconhecer o caráter científico da história e com a oposição e resistência aos avanços democráticos e civilizacionais.

O conservador alemão Oswald Spengler, após a 1ª Grande Guerra, reagiu contra os avanços da democracia e defendeu uma visão cíclica da história com fases de apogeu e decadência das civilizações. O próprio título de seu livro mais famoso – “A Decadência do Ocidente” (1918) – tem o sentido de uma reação justamente contra o avanço da democracia e do socialismo, que ele encarava como ameaçador.

É uma forma de pensar reacionária e negativista que se desenvolve “num clima de crítica e desencanto perante a ideologia do progresso e, mais recentemente, de repúdio ao marxismo, pelo menos do marxismo vulgarizado” (Le Goff: 1984). E gera uma “produção de pseudo-história antimarxista que parece ter tomado como bandeira o tema gasto do irracional”. Segundo Le Goff há duas condições “essenciais da história da ideia de progresso”: o papel da ciência e da tecnologia, e sua ligação com a percepção do desenvolvimento material das sociedades.

“É a experiência do progresso que leva a acreditar nele, a sua estagnação é em geral seguida de uma crise de tal ideia”. Ele também associou o avanço do progresso material à origem do medo ao progresso, um “fenômeno que caracteriza o século 20”. Concluiu dizendo que “a ideia de progresso está associada à confiança na razão e à ideia de que há leis na natureza e na sociedade” (Le Goff: 1984).

Os gregos do séc. V a.C., época de Péricles, da democracia ateniense e da filosofia de Sócrates e Platão, tinham uma concepção circular da história. As moiras (que em Roma foram chamadas de parcas) governavam o destino com desígnios imutáveis e inevitáveis, e os homens eram vistos como submetidos às determinações gravadas desde sempre em ferro e bronze no palácio daquelas deusas. A história era vista como um ciclo imutável de nascimento, auge e declínio.

Esta visão mística pode ser compreensível na aurora da civilização européia, época que Marx, em “Contribuição à economia política” (1858), comparou à infância da humanidade. Embora os seres humanos ainda não tivessem experiência e conhecimento acumulados para ter consciência deste fato, a concretização daquele destino gravado pelas imaginárias moiras nos umbrais de seus templos exigia a existência e participação de homens concretos, reais, de carne e osso, para serem os artífices objetivos que realizassem, na Terra, aqueles desígnios celestes.

A passagem para a época clássica nas cidades gregas foi marcada por intensa luta de classes que opôs comerciantes enriquecidos, individualizantes e, naquele contexto, progressistas, contra a tradicionalista aristocracia agrária.

Nessa luta, a própria concepção de história mudou. Os aristocratas defendiam um modelo cíclico, eterno e imutável; contra eles, levantaram-se as “individualidades que vão criando o conceito de história como um progresso de racionalização”. São os indivíduos que na prática realizam essa idéia da história. E “o progresso racional é concebido como conduzindo a um êxito racional – poder, riqueza – e solidário com o progresso da Justiça”, diz o historiador Francisco Rodriguez Adrados (1975).

A concepção circular da história, comum a muitas visões de fundo místico, antigas – está presente tanto no pensamento indiano antigo como no pensamento grego – é, modernamente, representada pelo mito do eterno retorno, de Nietzsche.

Essa concepção foi superada pela noção do progresso linear rumo ao futuro que marca a concepção cristã, condicionada pela luta das camadas escravizadas e oprimidas no Império Romano contra o arbítrio da aristocracia escravista – cuja concepção incluía, na esfera intelectual, a defesa de uma história circular que só se move para voltar ao ponto de partida, e assim manter tudo imóvel, na prisão férrea de um círculo mental e ideológico.

Contra essa visão se insurgiram os escritores cristãos desde os séculos IV e V d.C., buscando compreender a profunda mudança que assistiam em seu tempo, cujo sentido não podia ser compreendido pela maneira tradicional de pensar. Eles opuseram à mitológica história cíclica outra mitologia: a de um mundo “governado pelo logos ou Razão Divina, também chamada Providência, que constituía a estrutura de toda a natureza e de toda a História” (Le Goff: 1984; Agostinho: 1952). Há uma descrição detalhada e instrutiva do ambiente intelectual entre os padres da Igreja e da continuidade entre o helenismo e o ceistianismo em “Nova História da Igreja” (Rogier: 1971).

José Carlos Ruy é jornalista, escritor, estudioso de história e do pensamento marxista.

Referências

Adrados, Francisco Rodriguez. “La Democracia Ateniense”. Madrid, Alianza Editorial, 1975

Agostinho (santo). The City of God, in Great Books of the Western World, vol. 18. Chicago, Encyclopaedia Britannica Inc, 1952.

Goff, Jacques Le, “História”, verbete à Enciclopédia Einaudi, v. 1, “Memória-História”, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Porto, 1984

Marx, Karl. “Contribuição para a Crítica da Economia Política“, Editorial Estampa, Lisboa, 1973

Rogier, L. J.; Aubert, R.; Knowles, M. D. “Nova História da Igreja“. Editora Vozes, Petrópolis, 1971

Spengler, O. “A Decadência do Ocidente: esboço de uma morfologia da História Universal”. Rio de Janeiro. Zahar Editores, 1964.

 

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