
Ato em homenagem a Manoel Fiel Filho em São Paulo
“Precisamos lutar para que isso não volte”. Foi com essa frase que Márcia Fiel, filha de Manoel Fiel Filho, concluiu seu discurso durante o evento que lembrou os 50 anos do assassinato de seu pai pela ditadura militar que governou o Brasil por 21 anos.
O ato, realizado na sede nacional do Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), com o apoio das centrais sindicais e de movimentos sociais, reuniu representantes do movimento sindical, ativistas de direitos humanos, pesquisadores e familiares de vítimas da repressão, reafirmando a importância da memória, da verdade e da justiça.
“O ato foi um marco de lembrança, denúncia e compromisso com a democracia”, analisa Andrea Gato, secretária-geral do Sindnapi.
Quem foi Manoel Fiel Filho
Metalúrgico da fábrica Metal Arte, Manoel Fiel Filho, aos 49 anos, foi preso no local de trabalho no dia 17 de janeiro de 1976. O ato foi arbitrário. Não havia acusação nem investigação contra ele.
Foi torturado e morto nas dependências do DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna) do II Exército, órgão de repressão à oposição à ditadura, conhecido por práticas sistemáticas de tortura, em São Paulo.
O regime tentou atribuir sua morte a um suposto suicídio, versão posteriormente desmentida por investigações históricas e documentos oficiais.
Em junho de 2015, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou à Justiça Federal sete ex-agentes da ditadura militar pela morte de Manoel Fiel Filho. As investigações apontaram que ele já havia sido levado sem vida à cela forte do DOI-Codi, numa tentativa de sustentar a versão oficial de suicídio. Para forjar a cena, os agentes amarraram meias em seu pescoço e simularam um enforcamento, chegando a escrever na parede uma falsa mensagem de arrependimento atribuída à vítima: “mãe, perdoe este filho que tanto errou ore por mim mamãe. Deus pai todo poderoso nos perdoe senhora S. Catarina”
“O caso tornou-se um dos símbolos da violência de Estado e das graves violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura”, destacou o jurista Belizário Santos Júnior, que atuou no caso da morte de Fiel Filho.
Livro, filme e homenagens
A programação do ato incluiu o lançamento do livro Carrascos da Ditadura, que reúne pesquisas e relatos sobre agentes envolvidos na repressão política, contribuindo para o debate sobre a responsabilização histórica. Também foi exibido o filme Perdão, Mister Fiel!, do jornalista Jorge Oliveira, que aborda a trajetória de Manoel Fiel Filho e o impacto de sua morte na luta pela redemocratização do país.

Antonio Neto com Jorge Oliveira, autor do livro Carrascos da Ditadura
Durante o evento, foi realizada ainda a entrega da Medalha Manoel Fiel Filho à procuradora federal Eugênia Gonzaga, presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), que atua na luta pelo reconhecimento das torturas e assassinatos de opositores promovidos pelos ditadores no Brasil; às filhas de Fiel Filho, Aparecida e Márcia Fiel; e a José Ferreira da Silva, o Frei Chico, vice-presidente do Sindnapi.
A medalha é concedida a personalidades e entidades que se destacam na defesa da democracia, dos direitos humanos e das liberdades democráticas. A homenagem reforçou o compromisso do movimento sindical e social com a preservação da memória das vítimas do regime autoritário.
Participações
O SINTRABOR, como um defensor da democracia, como todos devemos ser, esteve presente com diretores e assessores, que representaram o Presidente Márcio Ferreira e toda a categoria borracheira.

Andra Gato com representantes do Sintrabor no ato em homenagem a Manoel Fiel Filho
Para o deputado federal Carlos Zaratini (PT-SP), o ato ocorreu em um contexto de enfrentamento ao negacionismo histórico e de defesa das instituições democráticas.
“Lembrar Manoel Fiel Filho é também alertar para os riscos do autoritarismo e reafirmar que a democracia se constrói com verdade, justiça e respeito aos direitos humanos”, disse.
Metalúrgicos de Guarulhos, inclusive o presidente, Josinaldo Cabeça, com Frei Chico, no ato em homenagem a Manoel Fiel Filho
Integra do discurso de Antonio Neto, presidente da CSB no ato em homenagem à Manoel Filho, representando as centrais sindicais.
Companheiras e companheiros,
amigas e amigos,Profundamente honrado em falar em nome das centrais sindicais aqui presentes: CSB, CUT, Força Sindical, UGT, CTB, Nova Central, CSP-Conlutas, Pública e Intersindical.
Hoje não é um dia qualquer.
Hoje não estamos reunidos apenas para lembrar um nome.
Estamos aqui para afirmar uma memória — e, com ela, um compromisso histórico.Lembrar Manoel Fiel Filho não é um gesto protocolar.
Não é um rito qualquer.
É um ato político no sentido mais profundo da palavra:
a decisão consciente de não permitir que o esquecimento vença a verdade.Recentemente, ao falar sobre o filme O agente secreto, na cerimônia do Globo de Ouro,
Wagner Moura disse algo que dialoga diretamente com este momento.Ele afirmou que o filme é, acima de tudo, sobre memória —
ou sobre a falta dela.
Sobre trauma geracional.
E sobre como sociedades que não elaboram seus traumas
ficam condenadas a repeti-los.Mas ele disse algo ainda mais importante:
se o trauma pode ser transmitido de geração em geração,
os valores também podem.
E precisam ser.É exatamente disso que estamos falando hoje.
Manoel Fiel Filho era um trabalhador.
Metalúrgico. Pai de família. Um homem simples, como milhões de brasileiros que constroem este país com o próprio suor.
Nasceu em 1927, em Quebrangulo, no interior de Alagoas,
e veio para São Paulo em busca de trabalho, dignidade e futuro.Foi padeiro.
Foi cobrador de ônibus.
E, por quase vinte anos, operário metalúrgico na Mooca —
um território histórico da classe trabalhadora paulista.
Nada, absolutamente nada, em sua trajetória justificaria a violência que sofreu.
Mas há 50 anos, em janeiro de 1976,
Manoel Fiel Filho foi preso no local de trabalho
e levado ao DOI-Codi do II Exército.
No dia seguinte, estava morto.A ditadura tentou mentir.
Disse que foi suicídio.
Disse que ele teria se enforcado com as próprias meias.
Mas a mentira não se sustentou.
Ele foi preso de chinelo.
Não tinha meias.
E seu corpo carregava marcas evidentes de tortura.Hoje, o próprio Estado brasileiro reconhece:
Manoel Fiel Filho foi torturado e assassinado sob custódia do Estado.É duro dizer isso.
Mas é necessário dizer.
Porque a ditadura não foi algo abstrato ou que é possível relativizar.
Ela teve vítimas de carne e osso.
Teve trabalhadores.
Teve famílias destruídas.E é fundamental lembrar:
a ditadura perseguiu o mundo do trabalho.
Perseguiu sindicatos.
Perseguiu lideranças operárias.
Perseguiu trabalhadores que ousavam se organizar, pensar, se informar.Manoel Fiel Filho ajudava a difundir o jornal Voz Operária.
E isso bastou para que fosse tratado como inimigo.
A ditadura sabia muito bem:
onde o trabalhador se organiza,
o autoritarismo treme.Por isso, estar aqui hoje, cinquenta anos depois,
é afirmar que eles não venceram.
Mas é também um alerta.
Porque memória não é passado.
Memória é presente.
Memória é disputa permanente.É exatamente isso que O agente secreto nos lembra.
Quando Wagner Moura afirma que o filme não existiria sem o Brasil recente,
ele está dizendo que o autoritarismo não é uma página virada, infelizmente.Ele reaparece quando a memória falha.
Quando o trauma não é elaborado.
Quando a violência de ontem é relativizada hoje.Quando alguém fala em “excessos”,
quando elogia ou exalta torturadores,
quando tentam reescrever a história em nome da conciliação,
não está falando do passado.
Está testando os limites da democracia no presente.Não há conciliação com o golpismo,
não há dosimetria que apague a violência daqueles que rasgam a democracia em nome da tirania.Um país que aceita a tortura ontem
passa a tolerar a violência hoje
e pode normalizar o autoritarismo amanhã.Por isso, lembrar Manoel Fiel Filho é um ato profundamente atual.
A democracia que temos hoje não caiu do céu.
Ela custou luta.
Custou sofrimento.
Custou vidas.Direitos trabalhistas, liberdade sindical, direito de organização existem porque trabalhadores resistiram —
mesmo quando o Estado tentou esmagá-los.E toda vez que direitos são atacados,
que sindicatos são criminalizados,
que o trabalho é precarizado e desumanizado,
a história nos mostra que quem paga o preço primeiro somos nós: os trabalhadores.Por isso, homenagear Manoel Fiel Filho
não é apenas olhar para trás.
É reafirmar um compromisso com o futuro.Compromisso com a verdade.
Com a justiça.
Com a democracia.
E com os valores que atravessam gerações:
solidariedade, dignidade, organização coletiva e coragem.Que o nome de Manoel Fiel Filho
não seja apenas lembrança,
mas alerta permanente.Ditadura nunca mais.
Tortura nunca mais.
Nunca mais assassinato de trabalhadores pelo Estado.Porque lembrar Manoel Fiel Filho —
como nos lembra a arte, a história e a luta do povo —
é escolher, conscientemente,
de que lado da memória
e de que lado da história
nós queremos estar.
Também participaram do evento:
- O ex-ministro José Aníbal;
- Takao Amano, ex-militante da Aliança para a Libertação Nacional (ALN), grupo Marighella;
- os diretores do Sindnapi Carlos Andreu Ortiz, Braz Ferreira e Diógenes Sandim;
- Antonio Neto, presidente da CSB;
- Nailton Francisco de Souza (Nailton Porreta), da NCST – Nova Central Sindical de Trabalhadores;
- Walter Paixão, do Coletivo Memória e Democracia;
- Carlos Eduardo Pestana, da Comissão Justiça e Paz de São Paulo;
- Jorge Carlos (Araken), representando o presidente da Força Sindical, Miguel Torres;
- Chico Bezerra, diretor da Federação Nacional dos Advogados e Advogadas do Brasil;
- Carlito Santos, do Sindicato dos Borracheiros da Grande São Paulo (Sintrabor);
- Márcia Egéa, do Sindicato do Vestuário de Guarulhos;
- Rogério Nunes, da Central dos Trabalhadores do Brasil (CTB);
- Josinaldo José de Barros (Cabeça), presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Guarulhos; entre outros.
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