
Raimundo Rodrigues Pereira, jornalista, no Centro de Memória Sindical, em 2017
O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira morreu neste sábado (2), aos 85 anos, no Rio de Janeiro. Fundador do histórico jornal Movimento, ele construiu uma trajetória marcada pelo rigor profissional, pela independência editorial e pelo compromisso com a democracia em um dos períodos mais repressivos da história do país.
A notícia de sua morte gerou forte repercussão entre profissionais da comunicação, intelectuais e lideranças políticas.
O escritor e jornalista Fernando Morais resumiu sua importância ao afirmar que Raimundo era “o mais completo jornalista brasileiro”, destacando sua capacidade de atuar em todas as etapas do fazer jornalístico — da pauta à edição — com excelência técnica e engajamento político.
Atuação em tempos de ditadura
A carreira de Raimundo se desenvolveu durante a ditadura militar brasileira (1964–1985). Ele passou por importantes veículos da grande imprensa, como a revista Realidade e o jornal O Estado de S. Paulo, onde se destacou pela qualidade de suas reportagens e análises.
Em 1968 ele trabalhou na primeira edição da revista Veja. Ao Centro de Memória Sindical, Raimundo contou como foi sua passagem pela Veja e sua profissionalização como jornalista:
“Com meu currículo – tinha quinto ano de Engenharia e diploma de Física –, entrei na primeira equipe da revista Veja para fazer Ciências. E tive sorte. Virei um jornalista profissional e político por acidente, um conjunto de acidentes. A revista Veja saiu vendendo setecentos mil no primeiro número, e menos de um ano depois vendia apenas quinze mil por semana. Foi um fracasso rotundo. E, buscando fórmulas na editoria de Ciências, com o Roberto Pereira, inventamos um fascículo para sair em dez semanas e o último deveria ser a descida do homem na Lua. Fomos contando a história, resultou num livro, bem ilustrado, bonito, bem feito, que conta a disputa entre russos e americanos, os foguetes etc. O povo esperava o negócio da Lua, e foi crescendo, ajudou a revista a vender, sair do buraco. E me deu certa fama. Sempre ali com o Mino (Carta) fechando. Acabou que fui, não para a Lua, mas para os EUA. No Cabo Canaveral, entrevistei o (Werner) Von Braun no Alabama, fui ver os astronautas que ficaram por aqui”.
No entanto, foi na imprensa alternativa que sua atuação ganhou maior relevância histórica. Em 1975, durante o governo do general Ernesto Geisel, Raimundo fundou o Movimento, após romper com o empresário Fernando Gasparian, do jornal Opinião. A divergência se deu em torno da política de abertura “lenta, gradual e segura” defendida pelo regime, considerada insuficiente por Raimundo.
Um jornal sob censura
O Movimento nasceu como um projeto independente, financiado por jornalistas, intelectuais e apoiadores, sem vínculos com grupos econômicos ou o Estado. Desde o início, enfrentou forte repressão: suas edições eram submetidas à censura prévia da Polícia Federal antes da publicação.
Entre 1975 e 1978, cerca de 6 mil conteúdos — entre textos e ilustrações — foram vetados. Reportagens inteiras eram suprimidas, e o jornal chegou a ser apreendido. Nem mesmo o nome do jornalista Vladimir Herzog, morto sob tortura pela ditadura, podia ser mencionado.
Apesar das restrições, o periódico resistiu e se consolidou como um dos principais veículos de oposição ao regime.
Espaço de articulação democrática
Com sucursais em diversas capitais, o Movimento reuniu uma ampla rede de colaboradores, incluindo nomes como Chico Buarque, Fernando Henrique Cardoso e Paul Singer. O jornal tornou-se um importante espaço de articulação da resistência democrática.
Além de denunciar a repressão política, a crise econômica e as desigualdades sociais, o veículo deu visibilidade às lutas da classe trabalhadora, cobrindo as greves do ABC paulista e o surgimento de novas lideranças sindicais, como Luiz Inácio Lula da Silva.
O Movimento também defendeu pautas centrais do processo de redemocratização, como a anistia, as liberdades civis e a convocação de uma Assembleia Constituinte.
Fim do jornal e legado
O jornal circulou até 1981. Com o avanço da abertura política e a reorganização partidária, a frente ampla que sustentava o projeto se fragmentou. Além disso, atentados contra bancas de jornal e pressões políticas dificultaram sua distribuição.
Depois disso ele criou a coleção Retrato do Brasil e, já nos anos 2000, a Revista Reportagem.
Raimundo Rodrigues Pereira deixa como legado a defesa de um jornalismo independente, crítico e comprometido com o interesse público.
Sua trajetória permanece como referência para profissionais que veem na imprensa não apenas um meio de informação, mas um instrumento de transformação social.
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