PUBLICADO EM 13 de abr de 2026

Cuba será o próximo troféu imperial de Trump?

Entenda como Cuba se tornou um desafio para os EUA desde a revolução de 1959 e o impacto do bloqueio econômico.

Avenida 23 em Havana, Cuba. Foto de 4 de março de 2019, Tacorontey

Avenida 23 em Havana, Cuba. Foto de 4 de março de 2019, Tacorontey

Por Marc Vandepitte

Desde a revolução de 1959, Cuba tem sido uma pedra no sapato de Washington. A existência de um projeto socialista a apenas 90 milhas da costa dos EUA era inaceitável. Gerações de presidentes tentaram colocar a ilha de joelhos por meio de sabotagem, isolamento e pressão econômica.

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O exemplo cubano precisava desaparecer, ou pelo menos ser prejudicado a tal ponto que não pudesse mais servir de inspiração. Essa estratégia levou ao bloqueio econômico mais duradouro da história moderna, que ainda hoje determina a vida de milhões de cubanos.

Sem parceiro estratégico

Durante décadas, Cuba pôde contar com apoio externo: primeiro da União Soviética e dos países socialistas do Leste Europeu, depois da Venezuela. Essas alianças formavam uma tábua de salvação, especialmente para o fornecimento de energia e o comércio. Mas esse tempo acabou.

Após o suposto sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por tropas dos EUA, um parceiro crucial desapareceu. Pela primeira vez desde 1959, Cuba não tem mais um verdadeiro aliado estratégico e está praticamente sozinha. Havana está mais vulnerável do que nunca e, para a Casa Branca, o momento parecia ideal para desferir um golpe final na revolução.

Trump declarou abertamente que poderia tomar Cuba. “Quero dizer, se eu a liberto, tomo posse dela. Acho que posso fazer o que quiser com ela”, disse a jornalistas na Casa Branca, em Washington.

Para isso, em 29 de janeiro, ele impôs um bloqueio total de petróleo. Países que ainda ousarem fornecer petróleo à ilha sofrem pressão extremamente forte por parte de Washington. Além do corte de energia, o secretário de Estado Marco Rubio está tentando sistematicamente secar todas as fontes de moeda estrangeira de Cuba.

Mais especificamente, ele está mirando as missões médicas internacionais. Ao forçar países anfitriões a expulsarem médicos cubanos, a ilha perde sua principal fonte de renda atual, usada para importar medicamentos e alimentos básicos.

Sociedade paralisada

Cuba é historicamente altamente dependente de importações, devido ao seu passado como colônia monocultora e à falta de matérias-primas. A energia, em particular, é vital.

Antes do bloqueio energético, o país consumia cerca de 110 mil barris de petróleo por dia, dos quais 40 mil eram produzidos internamente. O restante vinha da Venezuela, do México e da Rússia. Desde janeiro, esse fornecimento praticamente secou. Apenas um navio — um petroleiro russo — conseguiu chegar a um porto cubano nos últimos três meses.

O governo cubano reconhece que erros de política foram cometidos no passado, como a fracassada reforma monetária de 2021. Mas nenhuma economia consegue se sustentar quando precisa funcionar com apenas 40% de sua energia e, ao mesmo tempo, está sendo financeiramente estrangulada.

Para a população cubana, essa crise se traduz em uma realidade dura. As cidades estão paralisadas porque não há combustível para ônibus e carros. A indústria mal consegue operar, o abastecimento das lojas é difícil e os alimentos estão cada vez mais escassos.

O sistema de saúde, que já foi uma vitrine da revolução, está sob forte pressão. Cirurgias são adiadas ou canceladas por medo de quedas de energia. A mortalidade no primeiro ano de vida dobrou.

Bebês prematuros e vulneráveis morrem em incubadoras quando a eletricidade acaba, apesar de a equipe médica fazer tudo o que pode para mantê-los respirando manualmente. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a situação é “muito preocupante”.

Até mesmo o turismo, por muito tempo uma importante fonte de moeda estrangeira, está entrando em colapso devido à infraestrutura instável. Hotéis sem eletricidade não atraem visitantes. Dessa forma, o estrangulamento econômico se intensifica ainda mais.

A resiliência da população cubana está sendo levada ao limite em uma luta pela sobrevivência que, segundo o texto, foi deliberadamente criada por Washington para provocar agitação social e uma revolta popular.

Objetivo e estratégia de Washington

Assim como na guerra contra o Irã, os objetivos do governo Trump não estão totalmente claros. Também parece que Trump e Rubio não estão totalmente alinhados.

Muitos cubanos que vivem nos Estados Unidos querem nada menos que uma mudança de regime. Um núcleo duro, porém influente, se opõe fortemente a qualquer aproximação com Cuba e pode até tentar sabotá-la. Para sua carreira política futura, Rubio — ele próprio filho de migrantes cubanos — depende desse grupo mais radical. Ele já indicou que busca uma mudança de regime.

Uma mudança de regime clássica, no entanto, parece improvável. O sistema político cubano está firmemente estabelecido e ainda desfruta de considerável legitimidade. Além disso, há pouco ou nenhum apoio nos Estados Unidos para uma intervenção militar.

Para Trump, a pressão dos cubano-americanos não tem um peso tão grande. Além disso, devido ao fracasso no Irã e à ausência de um acordo de paz na Ucrânia, ele precisa urgentemente de uma “vitória” política para se fortalecer nas eleições legislativas cruciais de novembro.

Rubio é uma figura de peso na Casa Branca. Ele é a primeira pessoa desde Henry Kissinger a ocupar simultaneamente os cargos de conselheiro de segurança nacional e secretário de Estado. Ainda assim, ele é menos poderoso do que Kissinger. Sob Trump, seu departamento foi esvaziado, enquanto dossiês sensíveis, como as guerras na Ucrânia, em Gaza e no Irã, foram confiados principalmente a Steve Witkoff e Jared Kushner.

No caso de Cuba, também parece que ele não consegue deixar sua marca. O foco nas negociações atuais entre Cuba e os EUA não é político (mudança de regime), mas principalmente econômico.

Trump há muito tempo deseja fazer negócios com Cuba e, em 1998, chegou a explorar um investimento, possivelmente em violação das leis do bloqueio. Mais tarde, ele registrou sua marca no país. Para ele, o que importa acima de tudo é um governo que importe produtos dos EUA, independentemente do sistema político, segundo a revista The Economist.

Com o bloqueio energético, Washington quer agora forçar Cuba a adotar reformas econômicas que beneficiem empresas americanas. Busca acesso a setores estratégicos como energia, portos, turismo e telecomunicações. Em troca, espera uma liberalização profunda: empresas privadas maiores, abertura do sistema bancário e o desmonte de monopólios estatais.

A mudança política, portanto, seria mais um meio do que um objetivo final. Washington não estaria visando uma mudança total de regime, mas optando por uma estratégia mais sutil, inspirada na Venezuela: não uma derrubada completa, mas um chamado “ajuste de regime” — cooperação forçada com ajustes limitados na liderança política.

Sinais vindos de Washington sugerem que a saída do presidente Miguel Díaz-Canel poderia ser uma condição para um acordo.

Resposta cubana

A fome não leva a uma revolta em massa. Segundo Daniel Montero, jornalista do Democracy Now, as pessoas estão principalmente ocupadas em sobreviver, preocupadas com o que ainda podem comer. A frustração cresce, mas não é direcionada contra o governo; ao contrário, volta-se contra Trump e fortalece a vontade de resistir.

Um exemplo disso é como Silvio Rodríguez, o cantor mais conhecido da ilha, pediu simbolicamente um fuzil Kalashnikov para enfatizar que defenderia Cuba em caso de ataque.

O governo também permanece combativo. No passado, já havia planos para reduzir a dependência de combustível importado por meio de painéis solares e para tornar a matriz energética mais sustentável. Devido ao atual bloqueio energético, essa transição está sendo acelerada.

Não há qualquer questão de submissão aos Estados Unidos. O presidente Miguel Díaz-Canel advertiu que qualquer tentativa de mudança de regime encontrará uma “resistência inquebrantável”. Ao mesmo tempo, anunciou que negociações foram iniciadas, com base no respeito à soberania cubana.

Paralelamente, o governo cubano adota uma postura pragmática. Cerca de 20 prisioneiros envolvidos nos protestos violentos do verão de 2021 foram libertados. Além disso, reformas econômicas profundas estão sendo implementadas.

Os investimentos estrangeiros estão sendo incentivados, e cubanos no exterior agora também podem investir na ilha. Trata-se de uma abertura notável após décadas de forte regulação.

Além disso, Cuba está disposta a discutir compensações por propriedades americanas nacionalizadas, com a condição de que os danos causados pelo bloqueio também sejam reconhecidos. Essas propostas demonstram uma atitude construtiva, mas é incerto se — e até que ponto — Trump responderá a elas. Sua imprevisibilidade continua sendo a maior variável nesse conflito.

Washington usará Cuba como uma vitória rápida para obter vantagem política interna, fechando um acordo que crie oportunidades econômicas para empresas americanas? Ou o cerco “medieval” será prolongado, empurrando ainda mais os habitantes da ilha para o desespero?

Ambos os cenários são possíveis. O que é certo é que a população cubana está pagando o preço desse jogo geopolítico implacável.

Solidariedade internacional necessária

Diante desse cenário, a solidariedade internacional está crescendo. Países como México, Rússia, China, Vietnã e, agora, também a Espanha já expressaram apoio e estão enviando comboios humanitários para romper o bloqueio.

Nas últimas semanas, mais de 100 ativistas, sindicalistas e membros do Parlamento Europeu chegaram a Havana com ajuda humanitária no valor de meio milhão de euros. Além disso, o comboio “Nuestra América” chegou à cidade com suprimentos adicionais para apoiar a população.

Essas “frotas” não apenas entregam alimentos e medicamentos, mas também enviam um forte sinal político contra a hegemonia e a arbitrariedade dos Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, reina um silêncio ensurdecedor na Europa, com a Espanha como grande exceção. É uma vergonha que governos ocidentais se recusem a condenar essa estratégia considerada criminosa de fome. Ao virar o rosto, tornam-se cúmplices na destruição de um povo.

As próximas semanas serão decisivas para o povo cubano.

Marc Vandepitte é um economista e filósofo belga. Ele escreve sobre relações Norte-Sul, América Latina, Cuba e China.

Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy

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