PUBLICADO EM 03 de mar de 2018
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Colunista Raimundo Rodrigues Pereira

Temer, o super-homem

Ele imagina que tirou o país do buraco

A informação do IBGE de que a economia brasileira cresceu 1,0% em 2017, depois de dois anos de contração (-3,5% em 2015 e -3,5% em 2016) levou o presidente da República, Michel Temer, a se considerar um super-homem: “Eu cumpri o que escrevi no documento Ponte para o Futuro: coloquei o Brasil de pé outra vez. Não vou deixar o País andar para trás”. O presidente tomou posse na presidência da República, no golpe parlamentar que derrubou a presidente eleita Dilma Rousseff, em maio de 2016. Se fosse o que se acha ser, há quase dois anos a economia brasileira deveria estar andando para a frente.

Quem acompanha minimamente as estatísticas da economia brasileira sabe que ela é cíclica, tem altos e baixos. Num exame do material divulgado pelo IBGE nesta quinta-feira dia 1 de março, junto com o número do crescimento de 1% do ano passado, se vê o gráfico que reproduzimos acima e que mostra um indicador do crescimento do PIB do Brasil através de um índice trimestral que vai de 1994 até o final do ano passado. Ele revela o que os estudiosos das contas do Brasil já sabiam. Nesse período:
*há uma quase estagnação no final do primeiro mandato do governo FHC, entre 1997-1998;
*tem início um crescimento relativamente lento entre o segundo e o quarto trimestres do segundo mandato;
*tem início uma subida mais acentuada no segundo trimestre de 2003, já no primeiro governo Lula e que vai até 2008;
*há uma queda visível do PIB brasileiro do segundo para o quarto trimestre de 2008, perto da metade do segundo mandato de Lula, em decorrência da grande crise do mundo capitalista;
*o crescimento é retomado, ainda no segundo mandato de Lula, num ritmo parecido com o anterior à crise, mas, já no segundo trimestre de 2011, primeiro ano do primeiro mandato de Dilma a tendência e se inclina mais para baixo;
*e, finalmente, o crescimento começa a marcar passo no segundo semestre de 2013 e despenca no segundo trimestre de 2014, queda da qual começa a se recuperar no quarto trimestre de 2016;
*e a tendência apresentada pelo número do quarto trimestre de 2017 não parece indicar nenhum crescimento econômico mais expressivo.

Esta é, por exemplo, a opinião do ex-presidente do Banco Central Celso Pastores. Para ele, em entrevista concedida ao jornal O Estado de S.Paulo desta sexta, 2, os números do Produto Interno Bruto (PIB) de 2017 reforçam que “o Brasil está numa trajetória de recuperação extremamente lenta”. “O resultado [de 2017] está dentro do que se esperava, mas no fundo quem projetava um crescimento de 3,5%, 3,8% para este ano [de 2018] vai ter uma frustração”. E ele acrescenta: “Em todas as outras recessões, houve uma recuperação relativamente rápida. Essa recessão deixou uma carga pesada”.
Ao contrário de Temer, Pastore não acha que a economia brasileira já está de pé. Ele defende a reforma da Previdência como essencial e acha que o Brasil precisa fazer muito enquanto há tempo, enquanto há “um mercado internacional extremamente favorável”. Para ele, deve-se esperar um ressurgimento da inflação nos EUA – alguns aumentos, ele imagina até cinco, de 0,25% nos juros do Fed e o quadro internacional então muda.

A fórmula de Pastore, para que o Brasil se dê bem, ele diz na entrevista, é eleger “um presidente que continue essa agenda de reformas, com uma equipe econômica boa, com o mesmo Banco Central, com gente desse tipo”. Ele acha que, assim, “o problema externo é superado”.

Pastore não diz mas o Brasil está saindo de uma das maiores crises econômicas de sua história, mas, dentro do padrão de desenvolvimento das economias capitalistas dependentes: atrai capital estrangeiro; esses capitais promovem um surto de crescimento; esse surto não se sustenta, por falta de recursos em moeda estrangeira para compensar seus custos; e, em crise, para cobrir o deficit, o crescimento interno é contido, as condições de exploração da mão de obra se intensificam e, de um modo geral, se vende patrimônio nacional na bacia das almas.

A recessão dos anos 2015-2016, dos governos Dilma-Temer, tem o papel das três anteriores – a dos anos 1981-1983, do final dos governos militares; a dos anos 1990-1992, do início dos governos liberais, com Fernando Collor de Mello; e a dos anos 1998-1999, da continuidade desses governos, com o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso: cada uma delas preparou o Brasil para retomar o ciclo logo a seguir, em condições piores. Esse padrão de desenvolvimento econômico não é uma imposição dos céus, da natureza geral do desenvolvimento das economias: se dá num contexto de amplas lutas sociais e políticas.

O caminho da dependência do Brasil, nesse sentido, foi aberto a ferro e a fogo, com o golpe militar de 1964 que derrubou o governo de Jango Goulart e pôs fim à longa Era Vargas, iniciada com a Revolução de 1930. Os governos liberais de Collor e FHC surgiram na esteira de uma convulsão política global, a do desmantelamento da União Soviética em 1989, quando pareceu não haver mais alternativa ao modelo de desenvolvimento econômico-financeiro dependente do dólar, tornado o centro das finanças globais, ao final da Segunda Guerra Mundial, com a Conferencia de Bretton Woods, nos EUA, em 1945. E a recessão nos governos Dilma-Temer preparou a articulação política do impeachment que afastou, com um golpe parlamentar, a presidente eleita – provisoriamente, em 12 de maio, após 16 meses de seu segundo mandato, e em caráter definitivo, de 31 de agosto de 2016 até o final deste ano de 2018, quando por suposto, estará eleito um novo presidente para o lugar de Michel Temer.

Para concluir, duas observações:
1) a recessão atual não é a maior da história econômica do País, como dizem muitos. A do fim do regime militar foi pior. Na de agora, ocorreram duas quedas do Produto Interno Bruto do País, em torno de -3,7%, e já em 2017 a economia parece ter se recuperado – segundo o IBGE, com um crescimento em torno de 1%. A do final do regime militar foi maior, durou praticamente três anos: houve duas quedas do PIB, mais ou menos do mesmo valor que as recentes, uma de 4,4% e outra de 3,4%, mas mediadas, em 1982, por uma estagnação, um crescimento do PIB de apenas 0,2%.

2) A crise atual é seguramente pior do ponto de vista político. A da queda do Regime Militar ajudou a desencadear um amplo processo de mobilização política, que persistiu e se fortaleceu com as duas crises seguintes, dos governos liberais, a de Collor e a de FHC e cujo desdobramento último foi a subida ao poder dos governos liderados pelo Partido dos Trabalhadores. O problema é que, como confessou recentemente o grande líder do partido, Luís Inácio Lula da Silva, para chegar ao poder em 2002, o PT ignorou a questão da dependência econômico financeira do País. E, em 2008, quando seu governo sentiu o golpe da grande crise do sistema capitalista, ele disse que se tratava de “uma marolinha”. Hoje, embora seja a principal força de oposição ao governo nascido do golpe parlamentar e à tentativa da turma Temer-Meireles de sair da crise aprofundando o caminho da dependência, o PT está visivelmente enfraquecido.

Raimundo Rodrigues Pereira é jornalista, foi editor dos semanários OpiniãoMovimento e das revistas RealidadeReportagem e Retrato do Brasil. Trabalhou na VejaIstoÉ e Carta Capital. Atualmente é diretor da Editora Manifesto que está em campanha: “Por um novo semanário, em defesa da independência nacional, da democracia e da elevação do padrão de vida material e cultural dos trabalhadores”.

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