PUBLICADO EM 18 de abr de 2019
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Colunista Carolina Maria Ruy

Muita calma nessa hora

Mobilizar multidões é condição intrínseca do movimento sindical. Esta é uma prática constante, um exercício que, entre outras coisas, molda, no seio das bases, o perfil e o discurso dos líderes sindicais.

Entretanto, precisamos ter cuidado para entender o momento que vivemos. Momento estranho, para dizer o mínimo. E isso envolve a mentalidade social.

A grande campanha contra a esquerda, nela inclusa partidos e movimentos, realizada através de grandes empresas de comunicação e de redes sociais (e que também levou muita gente para a rua), resultou na crise que este campo vive hoje. Crise que é estrutural, financeira e também de identidade e de comunicação. Precisamos compreender que vivemos um momento de baixa, que a baixa não é para sempre e que pode ser encarada como uma oportunidade de reflexão e de reestruturação.

Neste contexto, será compreensível e até esperado que não se consiga arregimentar multidões de forma atabalhoada e apressada. O 1º de maio unitário e as manifestações contra a reforma da previdência vão acontecer nas ruas. E, do tamanho que forem, serão grandiosos e importantes, registrando na história o papel que os movimentos cumprem, e continuarão cumprindo apesar dos ataques que sofrem.

A campanha massiva contra os sindicatos pode ter tido resultados rápidos. Mas, no médio e longo prazo o trabalhador verá, por ele mesmo, e com a ajuda dos sindicatos e dos movimentos sociais, que estas são instituições que existem para resguardar seus direitos e batalhar por suas reivindicações. Sindicatos existem, enfim, para o bem do trabalhador. Com o tempo o trabalhador sentirá na pele, e pode já estar sentindo, a falsidade do discurso político que hoje dá as cartas.

Precisamos ter calma, continuar firmes nos nossos propósitos e, concomitantemente, manter, somado às manifestações populares, uma ação efetiva junto aos poderes constituídos, com parlamentares e chefes do executivo. Constitucionalmente os trabalhadores tem o direito e o dever de ocupar esses espaços e lutar por seus interesses. Não pode vestir a carapuça que a extrema direita tenta impingir de ser um movimento meramente voluntarista, que só sabe agir na força e no grito, sem estrutura e sem projetos.

O movimento sindical brasileiro é maduro e estruturado. Suas manifestações são exemplo de organização para todos as manifestações sociais. Seus quadros são ouvidos pela sociedade, muito além de seu nicho. Por tudo isso, arrisco-me a dizer que hoje, após a eleição de Bolsonaro, ainda mais importante que contabilizar o número de pessoas levantando bandeiras nas ruas, é investir em um discurso e em propostas de qualidade para superar a atual crise e ir além.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

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