PUBLICADO EM 27 de ago de 2021
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Colunista Miguel Torres

Como ou por que Bolsonaro chegou até aqui

Como deputado que foi durante 7 mandatos (28 anos), Bolsonaro, como a maioria dos eleitos para os níveis de representação parlamentar — federal, estadual e municipal —, não disse a que veio. Isto é, Bolsonaro foi um deputado federal abaixo da média. Ele não justificou os votos que recebeu ao longo do tempo que representou o povo do Rio de Janeiro.

Ele não produziu na Câmara dos Deputados nada que justificasse as generosas renovações de mandato que teve nas urnas às sucessivas vezes que foi reeleito. Ao contrário. Isso porque no Brasil não há revogação de mandato se o agente político, com mandato popular, não cumprir os compromissos de campanha. Refiro-me ao recall de mandato.

Em política, recall significa o poder de cassar e revogar o mandato de qualquer representante político, pelo eleitorado; é chamar de volta para “reavaliação” popular mandatário improbo, incompetente ou inoperante. É o caso de Bolsonaro.

Sem esse mecanismo, muitos Bolsonaros irão continuar pululando na política brasileira, nos vários níveis de representação popular, seja nos parlamentos, ou nos executivos.

Como os filtros políticos no Brasil são tênues, com tendências a piorar, pois não há preocupações com a educação política do povo, que, em geral, vota sem discernimentos e/ou preocupações com o futuro. Assim, por exemplo, de 4 em 4 anos, a representação política no Congresso ressurge pior, em termos qualitativos.

O atual Congresso — Câmara e Senado — é pior que o anterior. Essa piora na qualidade dos chamados políticos tem relação direta com a queda no nível de compreensão política do eleitor, cuja participação política cada vez mais rarefeita lhe impede de compreender essa complexa atividade humana, que é a política.

Condescendência e negligência
As instituições da democracia — Parlamento, Poder Judiciário, imprensa, Ministério Público — foram e ainda estão sendo condescendentes com Bolsonaro e agora correm atrás dos prejuízos.

Neste instante, há apenas 2 freios que tentam conter os ímpetos disruptivos do presidente da República: a CPI da Covid-19 no Senado, e o Supremo, que acordou da longa hibernação a que se submeteu, e agora confronta os movimentos antidemocráticos de Bolsonaro e do bolsonarismo.

A negligência ainda está presente na cobertura jornalística que a imprensa faz dos graves problemas da gestão Bolsonaro. E também do comportamento dele no exercício do mandato, pois é superficial, beirando a ingenuidade, quando sugere, por exemplo, que a ascensão de representante do “centrão” a cargo relevante na Esplanada vai conter os ímpetos golpistas do presidente.

Com negligência segue tratando a maioria do Congresso, um presidente que ameaça diuturnamente a democracia. Na Câmara, o presidente se nega a examinar, indistintamente, os mais de 100 pedidos de impeachment de Bolsonaro. No Senado, do mesmo modo, o presidente se recusa a enxergar que Bolsonaro é a crise, que se aprofunda no Brasil, e segue tentando construir entendimentos com ele. Ao mesmo tempo em que o chefe do Executivo se movimenta na lógica do confronto entre os poderes.

Mas porque Bolsonaro chegou onde chegou
Bolsonaro chegou onde chegou porque não foi contido quando era possível e menos traumático. Os mecanismos da democracia foram negligenciados. Achou-se, salvo melhor juízo, que as instituições da democracia estavam consolidadas e o Estado Democrático de Direito não mais sofreria abalos. Ledo engano.

Bolsonaro é o resultado do descompromisso com a democracia e o Estado de Direito; com a negligência no trato da política, com a cobertura jornalística pela grande mídia que, grosso modo, associa política com malandragem, mal feito e a busca, por quem nessa milita, em se dar bem, em detrimento do bem comum.

A eleição à Presidência da República de 1 dos piores deputados que já passaram pela Câmara não é obra do acaso.

Bolsonaro é o ocaso (declínio) da política brasileira. É o resultado de como tratamos e procedemos em relação à política nesses anos todos pós redemocratização do Brasil. Não apenas em relação ao Parlamento e outras instituições da República, mas também em relação ao movimento sindical.

Precisamos fazer profundo balanço autocrítico, pois não há inocentes nesse processo. Todos temos responsabilidades por termos permitido que o Brasil chegasse onde chegou.

Reflitamos todos sobre isto. A Luta faz a Lei!

Miguel Torres, presidente da Força Sindical, da CNTM (Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos) e do Sindicato do Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes

twitter.com/FsMigueltorres

www.facebook.com/MiguelTorresFS

As opiniões expostas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do Rádio Peão Brasil

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