PUBLICADO EM 18 de jul de 2025

A pesquisa de Boulos e o que a esquerda precisa entender

Há um problema de entendimento em setores da esquerda. Para Igor Corrêa “o eleitor deseja prosperar pelo seu próprio esforço, e esse desejo pode ser motor de um projeto nacional de desenvolvimento”.

Boulos discute a resposta dos eleitores de baixa renda em entrevista. Mas falta ouvir o povo e estabelecer um diálogo real.

Boulos discute a resposta dos eleitores de baixa renda em entrevista. Mas falta ouvir o povo e estabelecer um diálogo real.

Por Igor Corrêa Pereira

Guilherme Boulos, candidato do PSOL à prefeitura de São Paulo em 2022, comentou em recente entrevista ao jornalista Breno Altmann, uma pesquisa reveladora durante sua campanha: ao perguntar a eleitores de baixa renda (como motoristas de Uber, manicures e trabalhadores da construção civil) qual candidato “defendia os pobres”, a maioria respondeu que era ele. No entanto, esses mesmos eleitores não votaram nele, justificando: “Eu não sou pobre, não preciso de esmola do Estado” ou “Sou um empreendedor”.

Boulos interpretou esse resultado como uma “derrota cultural” da esquerda, argumentando que ela perdeu a capacidade de influenciar a autoimagem da classe trabalhadora. Para ele, o problema é que a esquerda não está presente nas periferias para “explicar” ao eleitor que ele é, de fato, um pobre explorado – e que, sem essa conscientização, ele acaba seduzido pela direita.

O Erro da análise de Boulos: tutela em vez de diálogo

A conclusão de Boulos é condescendente. Em vez de ouvir o que o eleitor está dizendo, ele assume que o problema é uma “falta de entendimento”. Seu raciocínio segue a lógica do “pobre de direita” – a ideia de que o trabalhador que não vota na esquerda está iludido ou manipulado.

Mas e se o eleitor não estiver enganado? E se, ao dizer “não sou pobre”, ele estiver expressando um desejo legítimo de ascender pelo próprio trabalho, sem depender de assistencialismo?

A esquerda abandonou a classe trabalhadora?

O grande equívoco da esquerda atual é ter substituído a luta por um projeto nacional de desenvolvimento por políticas focadas apenas em reduzir a pobreza. Em vez de defender industrialização, soberania e pleno emprego, ela se limitou a mitigar os efeitos do neoliberalismo com programas sociais – importantes, mas insuficientes.

O eleitor do Grajaú ou de Perus que se diz “empreendedor” não está negando sua condição social; ele está rejeitando a ideia de que sua única saída é a dependência do Estado. Ele quer oportunidades, não esmolas.

O exemplo que a esquerda ignora: a história dos EUA

Os Estados Unidos se tornaram uma potência porque, em seu período de industrialização, valorizaram o trabalho e a meritocracia (ainda que de forma desigual). Foi isso que a fez triunfar na Guerra Fria. Quando abandonaram essa mentalidade produtiva pelo neoliberalismo financeirizado, entraram em declínio. A esquerda, em vez de propor um projeto de desenvolvimento soberano para o Brasil que efetivamente contraponha esse projeto neoliberal decadente, contentou-se em administrar e mitigar os efeitos da pobreza.

O que a esquerda precisa mudar?

  1. Parar de tratar o trabalhador como vítima passiva– Ele não é um “pobre coitado”, mas alguém que quer dignidade pelo trabalho.
  2. Retomar a defesa da industrialização– Políticas assistenciais são paliativos; o país precisa de empregos de qualidade. Em 1995, éramos um país mais industrializado do que a China, hoje estamos nos encaminhando para o retorno a uma condição de país agroexportador. Esse retrocesso não pode ser apenas mitigado por políticas paliativas.
  3. Oferecer um projeto de nação– A esquerda deve falar em soberania, no lugar que o Brasil pode ocupar em um mundo multipolar como líder de um Sul Global que contraponha as potências imperialistas do Ocidente. Precisa falar em tecnologia e desenvolvimento, não apenas em “combate às desigualdades”.

O erro de Boulos

Boulos errou ao reduzir a rejeição da esquerda a um “problema de comunicação”. O eleitor não quer ser convencido de que é um pobre; deseja prosperar pelo seu próprio esforço, e esse desejo pode ser motor de um projeto nacional de desenvolvimento. Enquanto a esquerda não entender isso, continuará perdendo espaço para quem – mesmo com discursos enganosos – fala diretamente ao orgulho e ao desejo de ascensão da classe trabalhadora.

Igor Corrêa Pereira é técnico em assuntos educacionais e mestre em educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Membro da direção estadual da CTB do Rio Grande do Sul.

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