
Manoel Fiel Filho: justiça após cinco décadas
Cinco décadas após a morte do operário Manoel Fiel Filho, assassinado durante a ditadura militar em 17 de janeiro de 1976, sua família finalmente terá o reconhecimento oficial da verdadeira causa do óbito. O atestado de morte, que por anos registrou “suicídio”, será retificado para “assassinato”, corrigindo uma das muitas distorções impostas pelo regime autoritário, conforme noticiou a Folha de S.Paulo.
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Manoel Fiel Filho foi morto, após ser levado por agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) sob a justificativa de prestar depoimento. Militante do Partido Comunista Brasileiro e operário na Mooca, em São Paulo, ele nunca retornou para casa. No dia seguinte, sua família recebeu apenas a notícia de sua morte, apresentada de forma fraudulenta como suicídio, conforme relatou a Folha.
Metalúrgico da fábrica Metal Arte, então localizada na Mooca, Fiel Filho integrava a base do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, o que provocou reação no movimento sindical. À época, o então presidente do Sindicato, Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, enviou um telegrama ao governo exigindo explicações sobre o ocorrido — gesto que evidencia a gravidade do caso e a indignação da categoria.
Reparação tardia
A correção do documento depois de longos 50 anos será realizada pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos, vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos, em cerimônia prevista para junho. Para a família, porém, o reconhecimento chega com um peso agridoce. Maria Aparecida Fiel, filha do operário, afirma que a reparação tardia não apaga décadas de sofrimento — e lamenta que a mãe, que lutou por justiça ao longo da vida, não esteja viva para testemunhar esse momento, como destacou a reportagem.
A morte de Manoel Fiel Filho teve impacto profundo na trajetória de sua família, que enfrentou perseguições e desestruturação após o crime. A luta por justiça se arrastou por décadas, incluindo o reconhecimento da responsabilidade do Estado e a indenização, mas sem que os responsáveis fossem punidos — em grande parte devido à interpretação da Lei da Anistia de 1979.
Além do drama familiar, o caso teve relevância histórica. A morte de Manoel ocorreu meses após o assassinato do jornalista Vladimir Herzog e intensificou a crise interna do regime militar. O episódio contribuiu para pressionar o processo de abertura política, levando inclusive à exoneração de um comandante do Exército pelo então presidente Ernesto Geisel, segundo a reportagem.
Violência do Estado
Segundo especialistas e integrantes de comissões de memória, o caso simboliza a violência do Estado durante a ditadura e a importância da preservação da verdade histórica. A Comissão Nacional da Verdade registrou ao menos 434 mortos e desaparecidos políticos no período, conforme apontado na matéria.
Para a família, o reconhecimento oficial representa mais do que uma correção burocrática: é a reafirmação da memória e da dignidade de um trabalhador que teve sua vida interrompida pela repressão. Mesmo sem justiça plena, Manoel Fiel Filho segue sendo lembrado como símbolo de resistência — e sua história, como parte fundamental da luta por democracia no Brasil.
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