PUBLICADO EM 15 de abr de 2021
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The Americans e a desconstrução do sonho soviético

Por Carolina Maria Ruy

Década perdida é como chamamos os anos de 1980. Não por acaso. A década é mais lembrada pelo fim do sonho soviético do que pela vitória do duro modelo de realidade oferecido pelos EUA. Esse clima de derrota e perdição é reproduzido em The Americans, série que enfrenta um tema pouco explorado pelo cinema e pela TV: a melancolia dos agentes soviéticos no fim da Guerra Fria.

O recorte é o ano de 1981, após a eleição de Ronald Reagan para a presidência dos EUA, até 1987, quando a Perestroika e a Glasnost, sob comando de Mikhail Gorbachev, indicavam a queda da União Soviética.

Após terminar as seis temporadas permaneci por dias comovida com o drama dos Jennings, o casal de espiões da KGB em torno do qual gira a história.

Elizabeth e Phillip Jennings vivem em Washington sob o disfarce de uma típica família americana e cumprem ordens de Moscou sem questioná-las, o que inclui matar, roubar e trapacear. Mas não são vilões. Pelo contrário. São heróis perdidos no tempo.

Há um heroísmo em ser abnegado e anular a própria identidade por um bem maior, mas a autoanulação que os agentes vivem torna-se sufocante. E isso é agravado pelo fato de eles e os filhos adolescentes usufruírem do conforto que o capitalismo proporciona àqueles que conseguem se estabelecer.

Para demonstrar a inviabilidade do socialismo, a série faz uma crítica inversa ao modo de vida americano. Depois de alguns episódios somos envolvidos na ideia de que, mesmo que o capitalismo seja injusto e selvagem, ele não só garante a liberdade e a democracia, como é o único sistema possível. Envolvidos na ideia de que o socialismo não passa de um ideal romântico.

Através de citações, memórias e, sobretudo, através da obstinação dos agentes, o socialismo aparece como uma causa nobre. A realidade capitalista na qual o casal está submerso, entretanto, torna-o abstrato e insustentável.

A necessidade de retomar lembranças do passado e reeditar o que os impulsiona para a luta é constante e entra em conflito com o apelo, também constante, para uma evolução “espiritual” no estilo americano. Assim, segundo a série, os padrões soviéticos parecem quebrar-se justamente pelo excessivo controle e pela escassez na oferta de bens materiais.

O caráter dos Jennings é ressaltado na inusitada relação com o vizinho Stan Beeman, um agente da contrainteligência do FBI. Embora a vida americana dos agentes seja falsa e embora o vizinho seja solenemente tapeado, a amizade que nasce ali é real e está no limite do esgotamento da Guerra Fria. Um disfarce sem sentido e uma amizade inevitável.

A série aborda, através da percepção distante e fracionada dos agentes, a geopolítica que resultou naquele divisor de águas da nossa história. A chamada “guerra nas estrelas”, que pressionava a URSS, somada ao desastre de Chernobyl, precipitou a crise que levou ao desaparecimento do comunismo soviético.

Nos momentos finais, a KGB é atropelada pela política de abertura de Gorbatchov em um processo que divide a URSS. Os agentes são alienados dos acontecimentos por dirigentes sectários e dogmáticos de uma KGB cada vez mais hierarquizada e radicalizada. E isso os deixa ainda mais perdidos, deprimidos e frustrados com o que se tornaram. Fica no ar a dúvida se vale a pena matar e morrer por uma causa.

Entendi isso tudo como uma crítica muito sagaz. E talvez o fato de a série ter sido criada por um ex-agente da CIA (chamado Joe Weisberg) tenha feito alguma diferença.

A melancolia fica por conta da desconstrução do sonho no qual Moscou investiu tanto sangue e tantas almas. O fim da Guerra Fria marcou o suposto triunfo de uma política orquestrada por Ronald Reagan e Margareth Thatcher. E o abismo social que se aprofundou desde então está longe de ser a sociedade dos sonhos.

Mas, se naquela época o American Way of Life parecia invencível, hoje vemos que ele não ditou o fim da história. Depois de o neoliberalismo chegar ao cúmulo da desumanidade no governo de Donald Trump, parece que ele apresenta sinais de esgotamento até mesmo no Salão Oval da Casa Branca.

Isso ficou claro no anúncio que surpreendeu o mundo de um plano de infraestrutura de US$ 2 trilhões, apresentado por Joe Biden neste início de 2021. Para o professor de Economia Política Internacional da Universidade Harvard, Dani Rodrik (no artigo Biden precisa definir o futuro, não o passado, publicado no Valor Econômico, 12/04/21), o plano trilionário é um sinal de que a era neoliberal, com sua crença de que os mercados funcionam melhor quando não sofrem interferências, ficou para trás.

A derrota de Trump em novembro de 2020 foi expressão da insustentabilidade da euforia dos mercados nos últimos trinta anos: “excessos de mercados privados, ascensão dos monopólios, desatinos das finanças privadas, extrema concentração de renda e o aumento da insegurança econômica”, conforme descrição de Rodrik.

The Americans acerta em resgatar esse debate com a complexidade e a sensibilidade que lhe cabe. Fico pensando em como foi a vida dos agentes ao retornarem para a URSS. Como vivenciaram a transição para uma Rússia capitalista? Teriam eles organizado partidos e movimentos de esquerda? Mantido relações com Cuba ou com a China comunista? Tornaram-se ativistas ambientais? O certo é que naquele momento de 1987 eles não podiam imaginar que além da desigualdade inerente ao capitalismo, o sistema colocaria em risco também a democracia e a liberdade fomentando a ascensão de governos autoritários e insensíveis à causa pública. A plena democracia e liberdade, como trunfos da narrativa americana, enfim, são para poucos.

Veja aqui a abertura icônica da série:

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  • Rita de Cassia Vianna Gava

    Interessante.
    A história é um carro Alegre
    Dinâmica não estática como algumas seitas insistem em querer impor
    A União Soviética tem sua história particular

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