
A editora marxista International Publishers influenciou o mundo literário e político nos EUA
Por C.J. Atkins
Todo mês, no People’s World, recebemos solicitações para uma variedade de novos livros recém-lançados e em busca de uma resenha em uma publicação progressista. Publicitários e autores entram em contato conosco esperançosos por uma chance de colocar seu trabalho diante dos olhos de leitores de veículos como o PW. A maioria é intrigante e certamente merecedora de uma resenha em nossas páginas — mais do que podemos possivelmente ler e analisar.
Um dos títulos em nossa pilha, no entanto, que francamente deveríamos ter compartilhado com nossos leitores antes, é Books to Change the World: International Publishers at One Hundred.
Embora o título pareça bastante autoexplicativo, este não é apenas um livro sobre a história da mais famosa e mais longeva editora marxista dos Estados Unidos. É também um registro de como uma ampla gama de ativistas, autores e acadêmicos avaliam a importância da Internacional no movimento trabalhista e de esquerda ao longo das décadas e o papel que seus livros desempenharam em derrubar barreiras pela igualdade e justiça.
Lá em 1924, quando a Internacional publicou seu primeiro catálogo completo, nossos predecessores no conselho editorial do que então era o Daily Worker comentaram: “A literatura da revolução está ocupando seu lugar de destaque no mundo de língua inglesa.”
Neste novo volume, há nove ensaios que exploram parte desse legado literário. Eles são baseados em apresentações feitas em um simpósio realizado em outubro de 2023 na Biblioteca Tamiment da Universidade de Nova York, em preparação para o centenário da International Publishers no ano seguinte. Cada um deles é uma janela para apenas um aspecto das dez décadas dessa marca histórica, e introduções do atual presidente da IP, Tony Pecinovsky, e da curadora da Biblioteca Tamiment, Shannon O’Neill, preparam o leitor para o que está por vir.
Vozes e ideias que moldaram o pensamento crítico
Elisabeth Armstrong analisa a fundação da Federação Democrática Internacional de Mulheres — um importante defensor global da igualdade das mulheres na metade do século — e destaca como muitas de suas líderes ganharam destaque nas décadas de 1930 e 1940, quando seu trabalho foi levado a um público amplo pela primeira vez pela Internacional.
Dennis Laumann, renomado historiador da África e da diáspora africana, traça a história fascinante de um único título da International Publishers, Kwame Nkrumah, que por muitas décadas foi quase a única biografia disponível em inglês sobre o líder ganês deposto pela CIA na década de 1960.
“Por gerações”, escreve Laumann em seu capítulo, “a International Publishers forneceu textos críticos, acessíveis e a preços acessíveis sobre líderes, movimentos e ideias progressistas para leitores da classe trabalhadora.” Especificamente, ele afirma, “a editora frequentemente publicou as únicas obras disponíveis de marxistas negros como Nkrumah e W.E.B. Du Bois, entre outros.”
Joel Wendland-Liu também se concentra em um único título influente da IP, um de Maurice Dobb, considerado “o economista marxista mais influente do século XX no Ocidente” e creditado como inspiração para o programa moderno de reformas econômicas da China.
Studies in the Development of Capitalism, de Dobb, argumenta Wendland-Liu, mostrou que a economia marxista era mais do que apenas grandes modelos abstratos de sistema desprovidos de análise precisa e baseada em evidências empíricas. Dobb abraçou “uma abordagem interdisciplinar, que mesclava o método empírico do historiador com a economia clássica, a economia política marxista e a filosofia materialista dialética”.
Mais uma vez, é uma história em que a IP recebe crédito como a editora que trouxe ao mundo uma obra tão fundamental.
Uma história semelhante se repete no capítulo de Melissa Ford sobre Grace Hutchins e seus estudos pioneiros sobre mães trabalhadoras e a “dupla jornada” de manter um lar enquanto também trabalhavam na esfera pública.
Os panfletos de Hutchins publicados pela IP na era da Grande Depressão, Women Who Work e Children Under Capitalism, não foram apenas algumas das primeiras obras a levantar o véu sobre a opressão específica de mulheres e crianças; também serviram como correção ao longo descaso do Partido Comunista e do movimento radical mais amplo com esses temas.
Já uma escritora estabelecida do Daily Worker, foi o presidente da IP, Alexander Trachtenberg, quem trouxe Hutchins para o grupo de autores da Internacional em 1927.
Livros como armas na batalha das ideias
Nem todos os ensaios se concentram em títulos ou autores individuais, no entanto.
A veterana ativista de Connecticut Joelle Fishman, por exemplo, fala sobre crescer como uma red-diaper baby e como os livros da IP eram uma presença constante em sua casa de infância. Fishman escreve que os livros da Internacional, de autores tão variados quanto Victor Perlo, Elizabeth Gurley Flynn, Henry Winston, Hosea Hudson, Gus Hall e outros, “me informaram, me deram base, despertaram minha imaginação e ajudaram a lançar minha trajetória como organizadora do Partido Comunista”.
Gerald Horne, ele próprio ex-autor da IP com vários títulos no catálogo da editora, examina o momento em que a International Publishers se viu desempenhando um papel central no drama dos julgamentos anticomunistas da Lei Smith na década de 1950.
Nesses casos, tanto promotores do governo quanto réus do Partido Comunista se referiram aos títulos da IP como evidência em seus respectivos processos. Citando um dos réus, Horne diz: “As testemunhas eram livros, livros e mais livros… foi um julgamento de livros.” Livros sobre marxismo, sobre a luta pela liberdade negra, sobre estratégia e tática — todos se tornaram peças centrais.
Durante a Guerra Fria, o governo e as grandes empresas perceberam o perigo representado pela International Publishers e sua prensa. Ela era perigosa porque dizia a verdade sobre capitalismo, exploração e guerra — e tornava essa verdade facilmente acessível. “Não era incomum”, como Horne lembra ao leitor, “que a IP distribuísse edições de bolso de até 100.000” cópias. Não é de se admirar, então, como ele diz, que “a IP tenha se encontrado no banco dos réus.”
Um legado que continua inspirando
Esses são apenas alguns dos ensaios intrigantes em Books to Change the World, que são ainda complementados por uma seleção de documentos-chave da história da IP. Nesse conjunto estão importantes artigos do Daily Worker e do People’s World sobre o desenvolvimento da editora, juntamente com comentários sobre as investigações da Lei Smith enquanto aconteciam.
Para um livro de pouco mais de 200 páginas, ele contém muita coisa e certamente será uma adição bem-vinda às bibliotecas de qualquer pessoa interessada na história da Primeira Emenda, na publicação radical, na política marxista, no Partido Comunista ou nos muitos movimentos abordados pelos autores da IP ao longo das décadas — desde a igualdade das mulheres até a paz, a libertação negra, a solidariedade internacional e muito mais.
Com possíveis caças às bruxas ao estilo McCarthy novamente no horizonte, instituições que fomentam o pensamento livre, a crítica social e a dissidência, como a International Publishers, são ainda mais valiosas. Ao longo de seus 101 anos, a empresa produziu incontáveis livros que mudaram o mundo. Este novo volume fornece apenas alguns instantâneos de como a IP perseguiu essa missão e de como ela ainda está correndo atrás do sonho de um futuro pós-capitalista.
Books to Change the World: International Publishers at One Hundred
Editado com introduções de Tony Pecinovsky e Shannon O’Neill
International Publishers, 2024, US$ 24,99.
C.J. Atkins é editor-gerente do People’s World. Ele possui doutorado em ciência política pela Universidade York, em Toronto, e tem experiência em pesquisa e ensino em economia política e nas ideias e na política da esquerda americana.
Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy
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