PUBLICADO EM 09 de Maio de 2020
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Homenagem: Como a música popular brasileira tenta definir o que é ser mãe

Por Marcos Aurélio Ruy

Para celebrar o Dia das Mães, foram selecionadas músicas sobre a importância das mães na vida de todo mundo. Pode parecer piegas, mas não deixa de ser verdade. E mesmo que o Dia das Mães seja uma data comercial, não dá par deixar de falar dela, mesmo que já não tenha a sua presença no convívio.

Antes das canções, a que se destacar a poesia de Mário Quintana (1906-1994) Mãe:

Mãe… São três letras apenas

As desse nome bendito;

Também o céu tem três letras

E nelas cabe o infinito.

 

Para louvar nossa mãe,

Todo o bem que se disser

Nunca há de ser tão grande

Como o bem que ela nos quer.

 

Palavra tão pequenina,

Bem sabem os lábios meus

Que és do tamanho do céu

E apenas menor que Deus!

 

Tom Zé e Elton Medeiros

 

A primeira canção selecionada é uma parceria de Elton Medeiros (1930-2019) e Tom Zé e leva o nome de Mãe (Mãe Solteira), de 1975. Muito importante destacar as mães solteiras, que são muitas no Brasil, onde de acordo com informações oficiais, cerca de 6 milhões de pessoas não têm o nome do pai no registro de nascimento.

Este samba mostra a dificuldade que todas as mães solos enfrentam para ser mãe e pai ao mesmo tempo e ainda o preconceito que a sociedade lhes impõe, ainda hoje. Se ser mãe já temos seus percalços, dá para imaginar assumir o papel que deveria ser do pai também.

 

 

Mãe (Mãe Solteira), de Elton Medeiros e Tom Zé

Cada passo, cada mágoa

Cada lágrima somada

Cada ponto do tricô

Seu silêncio de aranha

Vomitando paciência

Prá tecer o seu destino

 

Cada beijo irresponsável

Cada marca do ciúme

Cada noite de perdão

O futuro na esquina

E a clareza repentina

De estar na solidão

 

Os vizinhos e parentes

A sociedade atenta

A moral com suas lentes

Com desesperada calma

Sua dor calada e muda

Cada ânsia foi juntando

 

Preparando a armadilha

Teias, linhas e agulhas

Tudo contra a solidão

Prá poder trazer um filho

Cuja mãe são seus pavores

E o pai sua coragem

 

Dorme

Meu pecado

Minha culpa

Minha salvação

 

John Lennon

O ex-Beatle, John Lennon (1940-1980) foi criado pela irmã de sua mãe biológica porque o seu pai biológico abandonou a ambos e ela não se sentiu em condições de cuidar do filho. A rigorosa tia exigiu muito de Lennon, mas talvez isso tenha contribuído para a formação desse gênio da música, embora em constante atrito com a tia-mãe. Mother (Mãe), de 1970, trata do sentimento de abandono de um filho.

Mãe, de John Lennon (tradução)

Mãe, você me teve

Mas eu nunca a tive

Eu te quis

Você não me quis

 

Então eu

Eu só tenho que te dizer

Adeus

Adeus

 

Pai, você me deixou

Mas eu nunca o deixei

Eu precisei de você

Você não precisou de mim

 

Então eu

Eu só tenho que te dizer

Adeus

Adeus

 

Crianças, não façam

O que eu fiz

Eu não pude caminhar

E tentei correr

 

Então eu

Eu só tenho que lhes dizer

Adeus

Adeus

 

Mamãe, não se vá

Papai, volte pra casa

Mamãe, não se vá

Papai, volte pra casa

 

Mamãe, não se vá

Papai, volte pra casa

Mamãe, não se vá

Papai, volte pra casa

 

Mamãe, não se vá

Papai, volte pra casa

Mamãe, não se vá

Papai, volte pra casa

 

Mamãe, não se vá

Papai, volte pra casa

Mamãe, não se vá

Papai, volte pra casa

 

Mamãe, não se vá

Papai, volte pra casa

Mamãe, não se vá

Papai, volte pra casa

 

Gonzaguinha

O cantor e compositor carioca Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, o Gonzaguinha (1945-1991), retrata em Com a Perna no Mundo, de 1979, o amor por Dina, a mulher que o criou no morro de São Carlos, no Rio de Janeiro. A cantora Odaléia Guedes dos Santos largou Luiz Gonzaga (1912-1989) com o filho por causa das constantes brigas provocadas pelo ciúme do marido.

Dois anos depois de nascimento de Gonzaguinha, Léia, como era chamada, morreu de tuberculose. Luiz Gonzaga deixou o menino com os padrinhos de batismo da criança, Leopoldina, a Dina e Henrique Xavier Pinheiro. A canção do genial Gonzaguinha comprova que mãe é quem cria, mais um clichê, que não deixa de ser verdade.

Com a Perna no Mundo, de Gonzaguinha

Acreditava na vida

Na alegria de ser

Nas coisas do coração

Nas mãos um muito fazer

 

Sentava bem lá no alto

Pivete olhando a cidade

Sentindo o cheiro do asfalto

Desceu por necessidade

 

O Dina

Teu menino desceu o São Carlos

Pegou um sonho e partiu

Pensava que era um guerreiro

Com terras e gente a conquistar

Havia um fogo em seus olhos

Um fogo de não se apagar

 

Diz lá pra Dina que eu volto

Que seu guri não fugiu

Só quis saber como é

Qual é

Perna no mundo sumiu

 

E hoje

Depois de tantas batalhas

A lama dos sapatos

É a medalha

Que ele tem pra mostrar

 

Passado

É um pé no chão e um sabiá

Presente

É a porta aberta

E futuro é o que virá, mas, e daí?

 

ô ô ô e á

O moleque acabou de chegar

ô ô ô e á

Nessa cama é que eu quero sonhar

ô ô ô e á

Amanhã bato a perna no mundo

ô ô ô e á

É que o mundo é que é meu lugar

 

Emicida

Emicida perdeu no pai ainda criança e a sua mãe criou a ele e os irmãos sozinha. Nesta canção de 2015, o rapper paulistano homenageia sua mãe pela força que teve para sustentar os filhos e segurar todas as barras surgidas pelo caminho.

“A sós nesse mundo incerto

Peço um anjo que me acompanhe

Em tudo eu via a voz de minha mãe

Em tudo eu via nóis”

Mãe, de Emicida

Um sorriso no rosto, um aperto no peito

Imposto, imperfeito, tipo encosto, estreito

Banzo, vi tanto por aí

Pranto, de canto chorando, fazendo os outro rir

Não esqueci da senhora limpando o chão desses boy cuzão

Tanta humilhação não é vingança, hoje é redenção

Uma vida de mal me quer, não vi fé

Profundo ver o peso do mundo nas costa de uma mulher

Alexandre no presídio, eu pensando em suicídio

Aos oito anos, moça

De onde cê tirava força?

Orgulhosão de andar com os ladrão, trouxa!

Recitando Malcolm X sem coragem de lavar uma louça

Papo de quadrada, 12, madrugada e pose

As ligação que não fiz, tão chamando até hoje

Dos rec no Djose ao hemisfério norte

O sonho é um tempo onde as mina não tenha que ser tão forte

 

Nossas mãos ainda encaixam certo

Peço um anjo que me acompanhe

Em tudo eu via a voz de minha mãe

Em tudo eu via nóis

A sós nesse mundo incerto

Peço um anjo que me acompanhe

Em tudo eu via a voz de minha mãe

Em tudo eu via nóis

 

Outra festa, meu bem, tipo Orkut

Mais de mil amigo e não lembro de ninguém

Grunge, Alice in Chains

Onde ou você vive Lady Gaga ou morre Pepê e Neném

Luta diária, fio da navalha. Marcas? Várias

Senzalas, cesáreas, cicatrizes

Estrias, varizes, crises

Tipo Lulu, nem sempre é so easy

Pra nós punk é quem amamenta, enquanto enfrenta a guerra

Os tanque, as roupas suja, a vida sem amaciante

Bomba a todo instante, num quadro ao léu

Que é só enquadro e banco dos réu, sem flagrante

Até meu jeito é o dela

Amor cego, escutando com o coração a luz do peito dela

Descreve o efeito dela: breve, intenso, imenso

Ao ponto de agradecer até os defeito dela

Esses dias achei na minha caligrafia tua letra

E as lágrima molha a caneta

Desafia, vai dar mó treta

Quando disser que vi Deus

Ele era uma mulher preta

 

Nossas mãos ainda encaixam certo

Peço um anjo que me acompanhe

Em tudo eu via a voz de minha mãe

Em tudo eu via nóis

A sós nesse mundo incerto

Peço um anjo que me acompanhe

Em tudo eu via a voz de minha mãe

Em tudo eu via nóis

 

Nossas mãos ainda encaixam certo (certo)

Peço um anjo que me acompanhe (onde for)

Em tudo eu via a voz de minha mãe (tudo!)

Em tudo eu via nóis (em tudo eu via nóis)

A sós nesse mundo incerto (incerto)

Peço um anjo que me acompanhe (onde for)

Em tudo eu via a voz de minha mãe

Em tudo eu via nóis

 

O terceiro filho nasceu: é homem

Não, ainda é menino

Miguel bebeu por três dias de alegria

Eu disse que ele viria, nasceu!

E eu nem sabia como seria

Alguém prevenia: filho é pro mundo

Não, o meu é meu

Sentia a necessidade de ter algo na vida

Buscava o amor das coisas desejadas

Então pensei que amaria muito mais

Alguém que saiu de dentro de mim e mais nada

Me sentia como a terra: sagrada

E que barulho, que lambança

Saltou do meu ventre, contente, e parecia dizer: É sábado, gente!

A freira que o amparou tentava reter

Seus dois pezinhos sem conseguir

E ela dizia: Mas que menino danado!

Como vai chamar ele, mãe?

Leandro

 

Vicente Celestino

O cantor e compositor Vicente Celestino (1894-1968) é um dos tenores à moda antiga. Do tempo no qual os cantores precisavam ter uma voz potente, antes da bossa nova mostrar que todo mundo pode cantar. Coração Materno chegou a ser gravada inclusive por Caetano Veloso.

Coração Materno, de Vicente Celestino

Disse um campônio à sua amada:

“Minha idolatrada, diga o que quer

Por ti vou matar, vou roubar

Embora tristezas me causes mulher

Prova que eu te quero

Venero teus olhos, teu porte, teu ser

Mas diga, tua ordem espero

Por ti não importa matar ou morrer”

E ela disse ao campônio, a brincar

“Se é verdade tua louca paixão

Parte já e pra mim vá buscar

De tua mãe, inteiro o coração”

E a correr o campônio partiu

Como um raio na estrada sumiu

E sua amada qual louca ficou

A chorar na estrada tombou

 

Chega à choupana o campônio

Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar

Rasga-lhe o peito o demônio

Tombando a velhinha aos pés do altar

Tira do peito sangrando

Da velha mãezinha o pobre coração

E volta a correr proclamando

“Vitória, vitória, tem minha paixão”

Mas em meio da estrada caiu

E na queda uma perna partiu

E à distância saltou-lhe da mão

Sobre a terra o pobre coração

Nesse instante uma voz ecoou:

“Magoou-se, pobre filho meu?

Vem buscar-me filho, aqui estou,

Vem buscar-me que ainda sou teu!”

 

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  • Ivanet Gonçalves marinho Souza

    Boas músicas nós refletem a coisas do passado e ela são veteranas não há nada melhor do que o tempo que passou éramos felizes e não sabíamos

QUENTINHAS