PUBLICADO EM 16 de ago de 2019
COMPARTILHAR COM:

Há 80 anos uma carta de Einstein à Franklin Roosevelt iniciou o Projeto Manhattan, que criou a bomba atômica

Tantos cientistas tinham fugido do território ocupado pelos nazistas, que o Terceiro Reich sentiu a falta dos cérebros poderosos que precisavam para desenvolver a bomba. E a perda dos nazistas era o ganho dos Estados Unidos.

Por Trevor Lipscombe

Albert Einstein e Leo Szilard escrevem a famosa carta.

O caos reina na fronteira enquanto os Estados Unidos confrontam um influxo massivo de imigrantes. Alguns, temendo por suas vidas, procuram asilo de regimes brutais. Outros procuram o sempre elusivo sonho americano. Mas, primeiro, eles são mantidos, às vezes em condições aterradoras, até serem processados pelas autoridades de imigração.

Essa não é a fronteira Estados Unidos-México em 2019, mas Ellis Island nos anos de 1930. Enquanto os nazistas tomavam o poder e carimbavam suas botas de cano alto em comunidades judias e intelectuais de esquerda através da Europa, muitos fugiam para os Estados Unidos. Uma das novas chegadas é Albert Einstein, que chegou em 1933 e vários anos depois se tornou um cidadão naturalizado, fazendo o juramento de fidelidade em Trenton, N.J.

A entrada de Einstein nos Estados Unidos foi suavizada por ele já ter recebido um Prêmio Nobel em física, ainda que seu trabalho fosse exonerado como mera “física judia”, por outro laureado pelo Nobel, Philipp Lenard, que serviu como Chefe de Física Ariana para o Terceiro Reich. Einstein, cuja teoria da relatividade tinha sido publicada em 1905, tinha conquistado fama internacional, mesmo que – como ele gracejou – ninguém realmente tenha entendido o porquê. Ele não era o único cientista refugiado a pousar em costas americanas, mas sua influência ofuscava os outros.

Enquanto a guerra se aproximava, Einstein, um pacifista de uma vida inteira, fez algo que não tinha a ver com ele por necessidade. Em 2 de agosto de 1939, ele assinou uma carta endereçada ao Presidente Franklin Delano Roosevelt, avisando que os nazistas poderiam estar desenvolvendo armas nucleares. Einstein sugeriu aos Estados Unidos estocar minério de urânio e começar a trabalhar em suas próprias armas atômicas.

Não foi ele quem escreveu a carta – isso foi trabalho do imigrante húngaro Leó Szilárd, com quem Einstein compartilhou a patente de um novo refrigerador. Szilárd a compôs com a ajuda de outros dois físicos húngaros, Edward Teller e Eugene Wigner, que (com Hans Bethe) se tornariam jocosamente chamados de “Os Quatro Húngaros do Apocalipse”. Com a carta recentemente datilografada, Teller levou Szilárd para Peconic, Long Island, onde Einstein estava, para pegar a sua assinatura.

Ninguém mais a assinou. Assim nasceu o Projeto Manhattan.

Aug. 2, 1939: The first page of a letter from the physicist Albert Einstein to President Franklin Delano Roosevelt raising the possibility that Germany could build an atomic bomb.

A primeira página da carta de Albert Einstein ao presidente Franklin Delano Roosevelt. Getty Images

Seis anos depois, em dois fatídicos dias de agosto de 1945, as bombas conhecidas como Little Man e Fat Boy foram jogadas em Hiroshima e Nagasaki, no Japão, em soldados, marinheiros, civos, mulheres e crianças. Essas detonações aceleraram o fim da Segunda Guerra Mundial, mas pressagiaram a Guerra Fria que dominou a última metade do Século 20.

Einstein se arrependeu da carta. Em um artigo da Newsweek, de 1947, com a manchete “O Homem que Começou isso Tudo” (nota: The Man Who Started it All), ele foi citado dizendo, “se eu soubesse que os alemães não teriam sucesso em produzir uma bomba atômica, eu nunca levantaria um dedo”.

De fato, os nazistas não podiam reunir os avanços necessários para conseguir as armas nucleares que Einstein e seus companheiros físicos temiam. Tantos cientistas tinham fugido do território ocupado pelos nazistas, que o Terceiro Reich sentiu a falta dos cérebros poderosos de que eles precisavam para desenvolver a bomba. Sim, eles tinham Lenard e Werner Heisenberg, mas as fileiras de cientistas nucleares de primeira ordem na Alemanha estavam profundamente empobrecidas devido as políticas de Hitler. E a perda dos nazistas era o ganho dos Estados Unidos.

Os imigrantes trouxeram sua expertise para apoiar o Projeto Manhattan. Enrico Fermi fugiu da Itália por causa das leis antijudaicas que se relacionavam a sua esposa. Emílio Segré correu por entrar em conflito com essas leis, também. Rudolf Peierls, que se estabeleceu na Grã-Bretanha, era um físico judeu nascido na Alemanha e Felix Bloch, que como Peierls também trabalhou brevemente na bomba, era da mesma forma um refugiado judeu dos nazistas.

Junto com Szilard e Wigner, esses se classificavam entre os físicos superstar do Século XX.

Será que os Estados Unidos entendiam o que eles estavam adquirindo quando permitiram a entrada dos físicos? Uma corrente de futuros vencedores do Prêmio Nobel, um grupo de pessoas comprometidas a trabalhar para defender a liberdade de seu novo país, contra a tirania de suas terras natais? Um grupo de pessoas cuja pesquisa não apenas permitiu o desenvolvimento da bomba, mas mais tarde permitiu que Neil Armstrong e Buzz Aldrin fincasse a bandeira dos EUA na lua, em 20 de julho de 1969? Os nazistas compreendiam o que haviam perdido, por desenvolver uma cultura que via muitos de seus cientistas internacionalmente reconhecidos deixar a Europa? Provavelmente, não.

Mas nós aprendemos. A Evasão de Cérebros causada pelos nazistas estabeleceu os Estados Unidos como uma superpotência científica. O Prêmio Nobel em Física pode ser concedido em Estocolmo, pela Academia Real de Ciências da Suécia, mas é agora tão americano quanto a torta de maçã. Muitos daqueles que conseguem um aceno do Nobel vivem aqui nos Estados Unidos, nascidos ou atraídos pela vibrante comunidade de pesquisa científica.

Hoje o desafio do país é manter nível. No último quarto de 2018, um quarto de todos os pedidos para visto H1-B, aqueles que possibilitam empresas de trazer trabalhadores técnicos altamente qualificados, foram declinados. 5% acima do mesmo período de 2014.

Fonte: time.com

Tradução: Luciana Cristina Ruy

ENVIE SEUS COMENTÁRIOS

QUENTINHAS