
Durante uma transmissão ao vivo da UAW, o presidente do sindicato, Shawn Fain, anunciou um acordo contratual provisório para os trabalhadores da fábrica da Volkswagen em Chattanooga, Tennessee. | Captura de tela do vídeo via UAW
CHATTANOOGA, Tennessee — Quase dois anos depois de 3.200 trabalhadores da indústria automobilística conquistarem seu sindicato com o United Auto Workers (UAW) na fábrica da Volkswagen em Chattanooga, eles finalmente chegaram a um acordo provisório para seu primeiro contrato sindical.
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Acordo histórico
Agora, os membros votarão para decidir se adotam ou não o acordo provisório, que o sindicato está chamando de “acordo histórico”, conquistado por meio de uma campanha organizada que superou anos de oposição corporativa e política à sindicalização no Sul.
“Os dias de favoritismo, assédio e tratamento desigual na VW acabaram”, disse o presidente do UAW, Shawn Fain. “Diziam que os trabalhadores do setor automotivo no Sul jamais conseguiriam formar um sindicato ou conquistar um contrato sindical. Os trabalhadores da Volkswagen em Chattanooga responderam: ‘Assistam.’”
O avanço ocorre quase dois anos depois de os trabalhadores da fábrica votarem de forma esmagadora — 2.628 a 985 — para se filiar ao UAW em abril de 2024. Essa eleição marcou a primeira grande vitória de organização sindical em uma montadora estrangeira no Sul, tendo sucesso onde as tentativas de 2014 e 2019 fracassaram.
Os trabalhadores comemoraram a vitória como o caminho para garantir os salários e benefícios substanciais que os membros do UAW nas Três Grandes montadoras conquistaram na greve “Stand Up Strike” de 2023.
“Durante anos, disseram aos trabalhadores de Chattanooga que se contentassem com menos enquanto a Volkswagen registrava lucros recordes. Então, os trabalhadores se uniram, conquistaram seu sindicato — e agora garantiram um primeiro acordo que muda vidas”, afirmou Fain. “Este acordo prova o que acontece quando trabalhadores da indústria automobilística se levantam e exigem sua parte justa.”
A campanha de 2024 na VW foi a primeira vitória na mobilização de dois anos e US$ 40 milhões do UAW para organizar cerca de 150 mil trabalhadores automotivos não sindicalizados em fábricas estrangeiras (“transplants”) espalhadas pelo Sul. A vitória ocorreu apesar de uma campanha coordenada da empresa e de seis governadores republicanos de direita para bloquear o esforço de sindicalização.
O sindicato também apresentou meia dúzia de denúncias de práticas trabalhistas desleais contra a Volkswagen durante a campanha de organização, citando interferência ilegal e ações antissindicais.
Reivindicações dos trabalhadores
O acordo provisório atende às principais reivindicações dos trabalhadores, segundo o sindicato. Ele prevê:
- aumento salarial imediato de 20% para todos,
- assistência médica de alta qualidade e acessível sem aumento nos prêmios,
- bônus substanciais, incluindo um bônus de ratificação de US$ 6.550 e
- bônus anuais de US$ 2.550.
O acordo também estabelecerá:
- proteções reais de segurança no emprego contra terceirizações e fechamento de fábricas,
- padrões mais fortes de saúde e segurança com representação sindical,
- licença remunerada,
- regras justas de escala de trabalho e
- um procedimento claro de apresentação de queixas.
Os avanços são especialmente significativos considerando o desempenho recente da Volkswagen; a segunda maior montadora do mundo registrou US$ 20,6 bilhões em lucros apenas em 2024. O acordo provisório representa uma melhoria significativa em relação à chamada “oferta final” da empresa em outubro, que levou os trabalhadores a autorizarem uma greve.
O acordo aprimorado inclui compromissos com novos produtos, garantias ampliadas do direito de greve e linguagem mais forte sobre segurança no emprego, informou o sindicato.
Os trabalhadores de Chattanooga “também conquistaram um plano de saúde que podem pagar”, disse Fain. “O custo da assistência médica para eles será menor em 2030 do que era em 2024”, acrescentou, sem fornecer detalhes.
Além de “melhores proteções de greve”, afirmou o UAW. Seus contratos com as Três Grandes de Detroit ampliaram o direito do sindicato de realizar greves para incluir paralisações relacionadas a queixas não resolvidas.
Práticas antissindicais
O caminho até esse acordo provisório não foi fácil. De fato, mesmo durante as negociações, os trabalhadores enfrentaram uma nova campanha antissindical na fábrica — um esforço bem financiado de desfiliação sindical apelidado de “Take Your VW Raise” (“Pegue seu aumento da VW”). A campanha, apoiada pelo veterano advogado antissindical Maury Nicely, que tem histórico de campanhas contra o UAW, tentou explorar a longa demora para se alcançar um primeiro contrato.
Mas, para a maioria dos trabalhadores que continuaram lutando, “Este contrato é a prova de que, se você se levanta e permanece unido, pode conquistar uma vida melhor”, disse Kelcey Smith, trabalhadora do setor de pintura. “Não importa onde você viva ou onde trabalhe, os trabalhadores da indústria automobilística merecem um contrato sindical.”
A vitória no Tennessee faz parte de um cenário mais amplo e disputado para o UAW no Sul.
No Kentucky, o sindicato venceu recentemente uma campanha de sindicalização na fábrica BlueOval SK Battery Park, em Glendale, superando intimidações semelhantes da gerência e práticas trabalhistas desleais. No entanto, quase todos os 1.600 trabalhadores da unidade agora enfrentam demissões, à medida que a Ford Motor Company “reestrutura” suas operações, alegando “demanda abaixo do esperado e custos elevados”.
A vice-presidente do UAW, Laura Dickerson, reafirmou o compromisso do sindicato de lutar contra as demissões no Kentucky. “A Ford tem a obrigação legal de negociar conosco os efeitos do fechamento”, disse ela ao The Detroit News.
O UAW enviou à Ford uma notificação formal exigindo a abertura de negociações e está reunindo apoio para uma petição que exige que qualquer futuro proprietário da instalação se comprometa a recontratar os trabalhadores demitidos sob o contrato sindical. Eles já têm mais de 1.000 assinaturas, disse Dickerson.
Nova realidade no chão de fábrica
Para os trabalhadores de Chattanooga, caberá agora a eles decidir se esse acordo arduamente conquistado se tornará uma nova realidade no chão de fábrica.
Mas, além do bônus de ratificação e dos aumentos salariais, o verdadeiro impacto do contrato estará em sua implementação e na continuidade da luta contra a busca de lucros das grandes corporações. Por ora, os trabalhadores da indústria automobilística em uma fábrica “transplant” no Sul podem apontar não apenas para a promessa de um sindicato, mas para as recompensas concretas de uma luta bem-sucedida.
“Para todos os trabalhadores da indústria automobilística não sindicalizados que estão ouvindo por aí, esta vitória também é de vocês”, disse Fain. “Um futuro como este está ao alcance — e começa com a filiação a um sindicato.”
Cameron Harrison é ativista sindical e organizador da Comissão do Trabalho do CPUSA. Ele também atua como Coordenador de Educação Trabalhista no People Before Profits Education Fund.
Mark Gruenberg é chefe do escritório de Washington, D.C., do People’s World. Ele também é editor do serviço de notícias sindical Press Associates Inc. (PAI).
Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy.
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