
Um funcionário da Boeing trabalhando na montagem da deriva vertical de uma aeronave em uma fábrica em Salt Lake City. | Rick Bowmer / AP
Por Gene Lantz
Por onde olho, vejo placas de “Parem a Guerra” ou “Não à Guerra”. Na verdade, eu mesmo estava usando uma pendurada no pescoço no último sábado. Mas os ativistas deveriam aprender que há muito mais na luta do que simples slogans.
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Nossos materiais e palavras de ordem contra a guerra precisam avançar. É necessário incorporar propostas concretas, como a geração de empregos em indústrias convertidas. “Acabar com a guerra e garantir bons empregos para trabalhadores da produção militar!” — esse é um slogan atualizado que vale a pena considerar.
Trabalhadores da indústria de defesa: entre a produção e o conflito
Muitos trabalhadores acabam sendo empurrados para o lado errado da luta pela paz. São aqueles inseridos no que se convencionou chamar de indústria “aeroespacial e de defesa”. Em suas bancadas passam tanto peças de aviões comerciais quanto equipamentos militares, como aviões de combate e mísseis. Trata-se de um setor fortemente dependente do Estado, com atividades que vão do útil ao destrutivo.
O contingente de trabalhadores é expressivo. A indústria de defesa pode envolver até 2,2 milhões de empregos, considerando postos diretos, cadeia de suprimentos e efeitos indiretos. Mesmo olhando apenas os trabalhadores diretamente empregados em manufatura, engenharia e manutenção, estamos falando de algo entre meio milhão e quase um milhão de pessoas.
Organização sindical e condições de trabalho
Esses trabalhadores recebem salários relativamente melhores — não pelo tipo de produto que fabricam, mas pela força de sua organização sindical. Durante a Segunda Guerra Mundial, esses setores se sindicalizaram de forma significativa, e muitos permanecem organizados até hoje.
O sindicato dos trabalhadores do setor automotivo e o dos maquinistas representam grande parte dessa categoria, garantindo melhores condições de trabalho e remuneração.
O erro de criminalizar o trabalhador
Há quem adote uma visão simplista e até hostil em relação aos trabalhadores aeroespaciais. Em algumas regiões, como no norte do Texas, manifestantes chegam a realizar piquetes com cartazes de “Não à Guerra” e pedem que esses trabalhadores abandonem seus empregos. Em casos extremos, chegam a equipará-los à polícia, como se fossem parte de uma classe distinta.
Essa visão ignora um ponto fundamental: independentemente do que produzem, esses trabalhadores continuam sendo parte da classe trabalhadora.
Conversão industrial: uma alternativa concreta
As instalações de produção militar podem — e devem — ser convertidas para usos em tempos de paz. Acadêmicos já defenderam essa transição como um caminho economicamente racional para sociedades avançadas.
Uma das propostas recorrentes é utilizar a expertise desses trabalhadores na construção de trens de alta velocidade, fundamentais para o desenvolvimento tecnológico. Não por acaso, esses sistemas utilizam materiais leves e resistentes, semelhantes aos empregados na indústria aeroespacial.
Unidade da classe trabalhadora para construir o futuro
Se quisermos construir uma sociedade melhor, isso só será possível por meio da organização da classe trabalhadora como um todo — incluindo os trabalhadores da indústria aeroespacial.
Eles enfrentam os mesmos problemas que os demais trabalhadores e não devem ser isolados. Como lembra o personagem judeu de Shakespeare em O Mercador de Veneza: “Se nos cortam, não sangramos?”
Gene Lantz, de Dallas, Texas, é um ativista veterano e sindicalista.
Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy
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