
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz discurso na abertura do Debate Geral da 80.ª Sessão Ordinária da Assembleia Geral das Nações Unidas. Sede da Assembleia Geral das Nações Unidas, Nova York (EUA). Foto: Ricardo Stuckert / PR
Foto: Ricardo Stuckert / PR
Por Diógenes Sandim
O dia 23 de setembro de 2025 marcou um ponto de inflexão na diplomacia global. No salão nobre da 80ª Assembleia Geral da ONU, o discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva transcendeu a mera retórica política, ecoando como um manifesto por uma nova ordem mundial. Não se tratou apenas de um relatório sobre a política externa brasileira, mas de uma convocação ao mundo para enxergar a necessidade de superar um modelo civilizacional já em colapso. O discurso ressoa como um grito por uma era de “primavera” global, um momento de renovação que exige a reorganização de valores e de novas estruturas para o mundo.
A análise histórica desse evento não pode se desvincular de sua ontogenia, ou seja, de sua origem e desenvolvimento. O discurso na ONU não nasceu no vácuo; é o ápice de um processo que vem se gestando há décadas. As exigências da ordem multipolar, em contraste com a unipolaridade representada na fala do presidente estadunidense Donald Trump, evidenciam a necessidade urgente de mudanças. Os destroços, entulhos e imundícies — como o genocídio em Gaza e tantas outras injustiças — são cicatrizes deixadas por um modelo que priorizou o poder e o acúmulo em detrimento da solidariedade e da sustentabilidade. A crise climática, as desigualdades sociais e os conflitos geopolíticos são sintomas de uma patologia sistêmica.
Do ponto de vista da política social, o discurso de Lula se alinha a uma tradição crítica que questiona as bases estruturais da dominação e da desigualdade. No entanto, vai além da análise puramente materialista. Ao defender a multilateralidade, a soberania das nações, o combate à fome no mundo e a igualdade de oportunidades, o presidente propõe uma engenharia social baseada em princípios éticos, e não apenas econômicos. A rejeição de um mundo dominado por poucos, em favor de uma ordem multilateral, é, no fundo, uma aposta na complexidade e na interdependência — temas caros a pensadores como Edgar Morin.
Morin, hoje com 104 anos e ainda vivo, formulador do conceito e do pensamento complexo, ensina que a realidade não pode ser reduzida a uma única causa ou solução. A nova ordem exigida pelo discurso de Lula é, portanto, uma ordem complexa, que reconhece a multiplicidade de atores e a necessidade de uma ética de ligação que una o particular ao universal.
Seu discurso, mesmo não dito de forma explícita, é uma referência ao “Humanismo Sistêmico”, pois eleva a reflexão a uma dimensão cosmogônica. Trata-se de uma visão que entende a humanidade não como um ser isolado, mas como parte integrante de um todo maior, de um sistema vivo e interdependente. Esse humanismo sistêmico pode ser interpretado, também, à luz das ideias de Humberto Maturana, que nos lembra que a vida é um fenômeno autopoiético — de auto criação e auto-organização — assim como a consciência humana global. Ao advogar pela paz e pela cooperação, o discurso de Lula propõe um caminho para que a humanidade, como um sistema vivo, possa se reorganizar de forma a garantir sua própria sobrevivência e florescimento. É um apelo à responsabilidade e à coevolução.
O discurso pode, de fato, ser considerado um Discurso do BRICS, para um novo ciclo histórico, o da Pós-Modernidade. Ele sinaliza a emergência de um polo de poder que questiona a hegemonia estabelecida e hoje ainda imposta, buscando sempre uma transição para um mundo definitivamente multipolar.
“Não há pacificação com impunidade”, relembrou Lula em sua fala.
A natureza propositiva e condenatória de seu discurso o torna tão impactante. Condena o que foi, mas propõe o que deve ser. A reverberação desse pronunciamento aos homens e mulheres de boa vontade em todos os cantos do mundo nos lembra a potência da palavra quando ela se conecta à aspiração humana mais profunda: a de uma vida digna e pacífica.
A fala de Lula remete ao “Último Discurso” do filme “O Grande Ditador”, pois ambos têm apelos humanistas em meio à escuridão da violência e da dominação.
Considero estarmos caminhando para mais perto de alcançarmos uma “massa crítica consciencial” no mundo, suficiente para reconhecer as condições de uma mudança substancial que já começa a se delinear. A consciência global sobre os desafios e a necessidade de cooperação nunca foi tão alta. O discurso de Lula, portanto, atua como um catalisador, um farol que ilumina o caminho para um salto qualitativo global. Ele não cria a mudança, mas a articula, dando forma e voz a um anseio coletivo que já está cada vez mais maduro para emergir.
Diógenes Sandim Martins é médico, diretor do Sindnapi e secretário-geral do CMI/SP





















