PUBLICADO EM 06 de jan de 2026

Colunista: Diógenes Sandim Martins

O Crepúsculo do Soft Power: A Doutrina Monroe 2.0 e o Sequestro da Soberania Sul-Americana

A Soberania da América Latina está ameaçada. Descubra os desdobramentos da intervenção dos Estados Unidos em um novo contexto global.

Milhares de venezuelanos marcham em apoio ao governo de Nicolás Maduro após os EUA promoverem ação imperialista sequestrar o presidente. Crédito: Juan Barreto/AFP

Milhares de venezuelanos marcham em apoio ao governo de Nicolás Maduro após os EUA promoverem ação imperialista sequestrar o presidente. Crédito: Juan Barreto/AFP

​Em um lance que desafia não apenas a diplomacia moderna, mas a própria estrutura do Direito Internacional, o mundo testemunhou o que pode ser descrito como o ato mais temerário do imperialismo contemporâneo: a intervenção direta e o sequestro do Presidente Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos. O evento ocorre sob a égide da recém-proclamada Doutrina Monroe 2.0 — ou “Don/Monroe” —, uma atualização agressiva do dogma de 1823 que, sob o pretexto da “América para os Americanos”, reafirma o continente como o quintal exclusivo da hegemonia de Washington.

​O Desespero da “Fera Acuada”

​Para compreendermos a ontogenia deste ato, é preciso olhar além da superfície jurídica. O que vemos não é um sinal de força, mas o espasmo de uma “Fera acuada sem saída”. Como observa a análise geopolítica crítica, o imperialismo estadunidense, ao ver suas ferramentas de “soft power” esvaírem-se e sua dominância econômica contestada, recorre ao desvairio.

​A negação das regras internacionais estabelecidas no pós-Guerra sugere um mundo de controle à deriva. Trata-se da forma da demência humana (homo demens) , mais crua e desesperada: um império que tenta deter o fluxo da história através da força bruta, ignorando que a realidade multipolar já se cristalizou.

​Do Imperialismo ao Multilateralismo: A Ideologia Dialógica

​Enquanto o Norte Global tenta restaurar um domínio anacrônico, o Sul Global, articulado pelo BRICS Plus, propõe uma alternativa sistêmica. Não se trata apenas de uma troca de potências, mas de uma transição para a Pós-Modernidade baseada em uma Ideologia Dialógica Humanista Sistêmica.

​Inspirados pela autopoiese de Humberto Maturana e pela complexidade de Edgar Morin, os países que compõem este novo eixo entendem que a soberania nacional não é um obstáculo, mas a condição fundamental para uma sustentabilidade global real. O BRICS Plus apresentar-se-á como a ferramenta de mediação necessária para um planeta que clama por paz e por um desenvolvimento que não seja predatório.

​O Papel do Brasil: A Práxis da Dialogia

​Neste cenário de incertezas, o Brasil emergirá como o fiel da balança. A diplomacia do Itamaraty, sob o governo Lula, é chamada a realizar um verdadeiro sociopsicodrama geopolítico. Utilizando a “Práxis” da dialogia — tão cara ao pensamento de Jacob Moreno —, o Brasil deverá atuar como o mediador capaz de transformar o conflito em diálogo, transformando a crise venezuelana em um palco para a afirmação da autonomia sul-americana.

​A sabedoria diplomática brasileira será testada em sua capacidade de navegar entre a agressividade da Don/Monroe e a construção da Nova Rota da Seda chinesa, a resiliência russa frente à OTAN e a resistência do Irã às injustiças no Oriente Médio.

​Caminhante, Não Há Caminho

​A história não está escrita; ela se faz no passo a passo. Como lembrou o poeta Antonio Machado, “caminante, no hay camino, se hace camino al andar”. O sequestro de Maduro é um obstáculo severo, mas não altera o curso da história que aponta para a queda da unipolaridade.

Podemos prospectar que ​a partir de fevereiro e março, com o protagonismo da Índia ( dirigente do BRICS ano 2026) e do Brasil nas discussões sobre o futuro da Venezuela, que deverá integrar-se, o mais rápido possível, no âmbito do BRICS Plus, veremos se a força bruta do império conseguirá deter a emergência de uma ordem mais justa. Por ora, o que resta é a resistência e a certeza de que a nova ordem mundial será tecida pela diplomacia, pela soberania e pela solidariedade entre os povos do Sul.

​VIVA O BRICS!

Diógenes Sandim Martins é médico, diretor do Sindnapi e secretário-geral do CMI/SP

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