PUBLICADO EM 10 de mar de 2026

Colunista: Geopolítica contemporânea

O Crepúsculo do Leviatã: O Erro Estratégico no Irã e o Parto Doloroso de uma Nova Ordem

A autor analisa os ataques e a influencia do Irã no cenário geopolítico e social do Oriente Médio em um momento de transformação global.

Manifestação no Irã a favor da resistencia palestina. (Foto de Vahid Salemi / AP Photo)

Manifestação no Irã a favor da resistencia palestina. (Foto de Vahid Salemi / AP Photo)

Por Diógenes Sandim Martins

O fluxo da história não é uma linha reta, mas um emaranhado de forças complementares, concorrentes e, sobretudo, antagônicas. Como diria a dialética clássica, toda estrutura carrega em si o germe de sua própria contradição. O que assistimos hoje no Oriente Médio não é apenas mais um capítulo de escaramuças geopolíticas, mas o que Jacob Moreno chamaria de um “momento de sociometria profunda”: um conflito estruturante onde o velho paradigma imperial resiste em fenecer, enquanto uma nova configuração global luta para nascer.

A Ilusão da Decapitação e o Erro de Cálculo

A recente ofensiva coordenada entre Washington e Tel Aviv contra Teerã, culminando no ataque ao Ayatollah Khamenei, foi vendida ao mundo como um triunfo tático de precisão. No entanto, na gramática do poder, vitórias táticas podem ser prefácios de derrotas estratégicas colossais. Ao apostar na “decapitação” da liderança religiosa como gatilho para a implosão de um Estado socio-religioso consolidado há 46 anos, o eixo Trump-Netanyahu demonstrou uma incompreensão ontológica sobre a resiliência iraniana.

O engano foi supor que o Irã, ludibriado por diplomacias superficiais, estaria desguarnecido. O que se vê no “teatro de operações” é o oposto: um Estado estrategicamente posicionado, com sua produção de defesa — incluindo os onipresentes drones — protegida em bunkers subterrâneos, pronta para uma guerra de atrito que drena bilhões dos cofres americanos.

A Geopolítica da Resistência e o Suporte Euroasiático

Diferente de décadas passadas, o isolamento pretendido pelo Ocidente encontra barreiras na realidade multipolar. Rússia e China, respeitando os limites da soberania, oferecem o suporte necessário para que o Irã não colapse. Enquanto isso, o arsenal estadunidense começa a dar sinais de exaustão em ataques de baixa eficiência, manchados por tragédias humanitárias, como o bombardeio a alvos civis que ceifou a vida de 180 estudantes em Teerã.

A resposta iraniana, agora direcionada com mísseis de longo alcance contra Israel, redesenha o mapa do medo. A censura imposta em Tel Aviv tenta esconder o que os mercados já começam a sentir: o fechamento do Estreito de Ormuz. O fluxo de petróleo for interrompido, a Europa, já fragilizada, poderá enfrentar um inverno econômico sem precedentes.

O Perigo do Império em Decadência

A história nos ensina que impérios em declínio são os mais perigosos. Quando a força predominante percebe que seus métodos convencionais falharam, o recurso ao “impensável” torna-se uma tentação real. Diante da resistência de Teerã, o governo Trump e o Estado sionista flertam com a transformação da capital iraniana em uma nova Gaza, ou pior, com a ameaça nuclear.

Esta é a face de uma liderança que apresenta traços de uma “psicosociopatia política”: a incapacidade de ler o outro como sujeito soberano, tratando nações inteiras como obstáculos a serem removidos.

O Precipício do Século XXI

O que os analistas previam para 2030 — a derrocada definitiva da hegemonia do petrodólar e das petrocracias herdadas do antigo Império Britânico — está sendo precipitado agora. Estamos diante de um conflito de paradigmas. De um lado, o modelo de dominação unilateral que se recusa a aceitar seu ocaso; do outro, a urgência de uma ordem que contemple a autodeterminação dos povos.

O desfecho desta crise definirá se o século XXI será o século da emancipação ou o cenário de uma catástrofe final provocada por aqueles que, por não saberem perder o poder, preferem ver o mundo arder. Pela exacerbação dos conflitos geopolíticos, o ano de 2026 pode se tornar um marco de referência, do início, da passagem do velho ciclo histórico, que iniciou em 1789, para um Novo que, há tempo, esforça nascer.
Oxalá!!!

Texto de inteira responsabilidade do autor quanto sua arquitetura conceitual e juízo crítico, com auxílio de Inteligência Artificial (IA) na Mediação e refinamento.

Diógenes Sandim Martins é médico, diretor do Sindnapi e secretário-geral do CMI/SP

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