
Apresentação da proposta de redução da jornada de trabalho no México. Foto: Presidência da República/México.
O trigésimo quinto artigo do dossiê “Fim da Escala 6×1 e Redução da Jornada de Trabalho”, organizado pelo Organizado pelo Cesit (Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho) em parceria com as centrais sindicais aborda as “¿Reducción de la jornada laboral?: consensos posibles, cambios reales y nominales en México”. O artigo é assinadpo por Leslie Noemi Lemus Barahona,
O estudo reconstrói o debate recente no México e mostra que, apesar dos avanços, a redução da jornada resulta de um processo político complexo, marcado pela disputa entre trabalhadores, empresários e governo.
Jornadas longas e alta informalidade
O diagnóstico apresentado no artigo revela um cenário de forte pressão sobre a classe trabalhadora mexicana. O país registra uma das maiores médias de horas trabalhadas entre os países da OCDE, com cerca de 2.193 horas por ano.
Embora a legislação estabeleça jornada semanal de 48 horas, uma parcela significativa dos trabalhadores ultrapassa esse limite. Segundo o estudo, 26,1% trabalham mais de 50 horas por semana e 11,8% chegam a ultrapassar 60 horas. Ao mesmo tempo, a informalidade atinge mais da metade da força de trabalho, chegando a 54,4% .
Para a autora, esse quadro evidencia a persistência de jornadas extensas e condições de trabalho precárias, reforçando a necessidade de mudanças estruturais.
Disputa política travou avanço inicial
O debate sobre a redução da jornada ganhou força a partir de 2022, mas enfrentou forte resistência. De um lado, sindicatos e organizações de trabalhadores defenderam a redução imediata para 40 horas semanais, sem corte de salários, destacando ganhos em saúde, qualidade de vida e geração de empregos.
Do outro, entidades empresariais argumentaram que a medida poderia elevar custos, pressionar pequenas empresas, aumentar a informalidade e impactar a inflação.
A falta de consenso travou o avanço da proposta no Congresso durante os primeiros anos de discussão.
Governo aposta em negociação e mudança gradual
A virada ocorreu a partir de 2025, já sob o governo de Claudia Sheinbaum, quando o Executivo assumiu a condução do processo e promoveu uma rodada ampliada de diálogo social com empresários, sindicatos e especialistas.
O resultado foi uma proposta de reforma que busca conciliar interesses e viabilizar a mudança.
A nova legislação prevê a redução da jornada de 48 para 40 horas semanais, mas de forma gradual, ao longo de vários anos. O cronograma estabelece a diminuição progressiva até 2030.
Avanço parcial e limites da reforma
Apesar de representar um avanço histórico, a proposta aprovada mantém pontos considerados controversos. A semana de trabalho segue estruturada em seis dias, e há ampliação do limite de horas extras, o que, segundo críticos, pode reduzir o impacto real da mudança.
Para a autora, o resultado expressa os “consensos possíveis” dentro de um cenário de disputa. Ou seja, a reforma combina mudanças concretas com ajustes que preservam interesses empresariais.
Debate segue aberto
O caso mexicano reforça que a redução da jornada de trabalho não é apenas uma questão técnica, mas política. O avanço depende da correlação de forças entre capital e trabalho e da capacidade de construção de acordos.
Mesmo com limites, a experiência aponta um caminho que volta a ganhar força em vários países: reduzir o tempo de trabalho como forma de melhorar as condições de vida e enfrentar as desigualdades no mundo do trabalho.



