
Harry Belafonte, que idealizou o We Are The World, foi um ativista que lutou por causas humanitárias. Na foto ele está no Rio de Janeiro em 1970. Foto: Wikipedia. Autor Desconhecido
Nos anos 1980, artistas do mundo todo se uniram em torno de causas humanitárias. A primeira música-manifesto dessa onda foi gravada no Natal de 1984: Do They Know It’s Christmas?. Logo depois vieram We Are the World, Sun City (Artists United Against Apartheid), o festival Live Aid e outros projetos voltados ao combate à fome e à solidariedade com os povos da Etiópia.
Influenciado por esse contexto, o Brasil lançou em 1985 a música Chega de Mágoas, que reuniu nomes como Chico Buarque, Roberto Carlos, Rita Lee e Tim Maia. O manifesto tinha como objetivo ajudar as vítimas da seca no Nordeste, e o projeto foi batizado de Nordeste Já.
Recentemente, vi um meme debochando do vídeo de We Are the World. Para não parecer “cri cri”, deixei passar. O meme dizia que a China enviava ajuda humanitária (para Gaza? Não era específico) com tanques cheios de mantimentos, enquanto os EUA fazia a música cantada por Cindy Lauper, Huey Lewis e Kim Carnes. Propositalmente o meme mostrava três artistas brancos levando a ideia enganosa de que foram apenas os estadunidenses com aquele perfil que a produziram.
Eu não ligava muito para essa música — embora sempre tenha gostado da ideia por trás de todas as que citei acima. Mas, depois que assisti ao documentário A Noite que Mudou o Pop (Bao Nguyen, 2024), fiquei com vontade de sair pela rua cantando e dando as mãos para todo mundo (risos). Não fiz isso, claro (rs).
Bem, sobre o meme vale esclarecer que o USA for África foi idealizado por Harry Belafonte, americano de origem jamaicana, que, além de músico, foi um ativista importante do movimento negro, dos direitos humanos e da luta pela paz. A ideia era que os negros dos EUA reproduzissem a campanha em prol das vítimas da fome na África, que o ativista e músico Bob Geldoff realizou na Europa com o Band Aid. Para isso ele chamou músicos da Motown Records.
O nome da gravadora — que revelou inúmeros artistas negros — faz referência ao fato de que a economia de sua cidade natal, Detroit, era baseada na indústria automobilística: Motor Town, ou “cidade do motor”. De lá vieram músicos negros de origem operária como Michael Jackson e seus irmãos, Diana Ross, Ray Charles, Marvin Gaye, Stevie Wonder e Lionel Richie.
O USA for Africa, no entanto, não se fechou apenas aos artistas negros e convidou também músicos brancos para gravar We Are the World. Daí então a participação de Cindy Lauper, Huey Lewis e Kim Carnes. E de Bob Dylan, Paul Simon, Bruce Springsteen, do cantor de Footloose (Kenny Loggins) e do cantor de Don’t Stop Believin’ (da banda Jorney). Todos regidos pelo maestro Quincy Jones.
Relembro tudo isso primeiro por causa do meu incomodo com a ideia do meme. E depois porque é triste a apatia do público frente ao sofrimento praticado em larga escala e de forma escancarada como vemos hoje palestinos vítimas do governo de Israel. A ajuda com tanques de mantimentos não se contradiz com uma campanha cultural de arrecadação — pelo contrário, as duas podem se complementar. Atualmente seria importante ter projetos como aqueles de quarenta anos atrás que despertassem alguma consciência humanitária com relação à Gaza e ao sofrimento dos palestinos na população mundial.
Leio matérias estarrecedoras nos jornais e, em seguida, comentários desumanos e cruéis que me levam a um profundo desânimo. Falta-nos um caldo de cultura que nos inspire mais compaixão e nos leve a encarar a humanidade, o meio ambiente e a vida como causas que pertencem a todos nós.
Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical.

















