
The Tunnel, uma série que captura a essência da violência e das relações humanas. Foto: Reprodução Prime Video
Por Carolina Maria Ruy
Defino The Tunnel como “dura, porém sensível”. É um entretenimento que combina com a aspereza do cotidiano. A série tem o clima de uma tarde nublada de quarta-feira: de pesar. Falando assim, parece até uma crítica negativa. Longe disso, a densidade melhora a série. Não pretendia escrever sobre ela. No entanto, mesmo um mês depois de tê-la finalizado, ainda me pego pensando nos temas e situações que apresentou.
The Tunnel é a versão franco-inglesa da série dinamarquesa Broen (A Ponte). Também há a adaptação norte-americana, The Bridge (2013), que acertou na primeira temporada, mas carregou na violência na segunda. A ambientação, no México e nos EUA, refletia a época em que Ciudad Juárez era considerada uma das mais violentas do mundo.
Mesmo padrão
A essência da produção original se repete: um corpo é encontrado na linha fronteiriça entre dois países, obrigando as polícias das duas jurisdições a trabalharem juntas. Daí nasce a dupla transnacional que sempre repete o padrão: um homem casado e com filhos, e uma mulher solteira, brilhante, perspicaz e com transtorno do espectro autista. Além da investigação, eles enfrentam o choque cultural e de personalidades.
Na versão inglesa, não se deve esperar grandes contrastes culturais. Ela acentua a diferença entre o perfil simpático e sociável do homem e as dificuldades de adequação social da mulher. A relação entre eles confere humanidade e fluidez à série. The Tunnel explora de maneira sutil e inteligente a dificuldade de socialização enfrentada pela protagonista: sua solidão, sua forma de lidar com a sexualidade, sua incapacidade de compreender ironias e seus comentários cortantes. Por outro lado, mostra como para o homem é penoso conciliar a vida familiar e o combate a crimes que envolvem violência, perseguição, vingança e delinquência.
Operação Condor
A segunda temporada amplia os horizontes ao resgatar a história da Operação Condor — aliança repressiva e clandestina entre ditaduras militares da América do Sul, apoiada pelos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980. Essa referência dá sofisticação intelectual à trama. Ela sugere, de forma indireta, que com o fim das ditaduras patrocinadas pela CIA, muitos de seus colaboradores — agentes de inteligência e homens da repressão — migraram para organizações criminosas.
Na série, um biólogo desenvolve substâncias capazes de provocar mortes que parecem naturais. Historiadores apontam que táticas semelhantes foram usadas na Operação Condor. Há quem sustente, por exemplo, que o presidente João Goulart foi assassinado dessa forma — tese apresentada no documentário Dossiê Jango (Paulo Henrique Fontenelle, 2013). Outro caso emblemático é o do músico brasileiro Francisco Tenório Cerqueira, desaparecido há 50 anos e recentemente identificado na Argentina, cuja morte também se deu no âmbito da Condor.
Efeitos que se revelam com o tempo
The Tunnel pode frustrar o espectador no imediato. Mas seus efeitos se revelam com o tempo, quando acontecimentos da vida e do mundo real voltam a evocá-la. Ela nos ajuda a refletir — e até a perceber que há uma beleza na tarde nublada de quarta-feira, quando a contemplamos.
Lançada em outubro de 2013, The Tunnel é uma série franco-britânica estrelada por Stephen Dillane e Clémence Poés. É dirigida por Hettie MacDonald, Philip Martin, Dominik Moll, Udayan Prasad e Thomas Vincent. Tem três temporadas com episódios de cerca de 50 minutos. Está disponível no Prime Vídeo.
Carolina Maria Ruy é jornalista, pesquisadora e coordenadora do Centro de Memória Sindical.



