
As eleições de 2026 trazem um plebiscito crucial sobre os legados do lulismo e a ameaça do bolsonarismo à democracia brasileira. Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a Cerimônia em Defesa da Democracia, no Palácio do Planalto. Brasília, 8/1/2026. Ricardo Stuckert / PR
Há dois projetos e dois legados a serem escrutinados nas eleições de outubro. Assim, o pleito de 2026 não será uma disputa convencional. Será, na verdade, um plebiscito entre dois campos políticos consolidados — lulismo e bolsonarismo — que carregam consigo não apenas propostas, mas experiências concretas de poder.
De um lado, Lula (PT) tentará o quarto mandato ancorado no balanço de seu terceiro governo (2023-2026).
De outro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), preposto do ex-presidente, apresenta-se como “versão moderada” do bolsonarismo, embora o movimento que representa mantenha como eixo a confrontação institucional, sobretudo com o STF (Supremo Tribunal Federal).
Em 2026, o eleitor não decidirá no vazio: decidirá comparando gestões.
Lulismo sob escrutínio: crescimento com tensão fiscal
O terceiro mandato de Lula chega a 2026 com indicadores ambivalentes. Há recuperação econômica relevante: o Brasil voltou ao grupo das oito maiores economias do mundo em 2024, 66 dos 99 principais indicadores sociais melhoraram, programas como o Bolsa Família foram reestruturados e o Minha Casa, Minha Vida retomou o foco nas faixas de menor renda.
O governo também recuperou protagonismo ambiental e diplomático, com destaque para a agenda climática e a preparação para a COP-30. Aprovou ainda uma importante proposta: a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Ao final do ano fiscal, isso significará, na prática, um 14º salário.
Mas o cenário fiscal preocupa. A dívida bruta avançou de 71% para 78% do PIB até o fim de 2025. As estatais registraram déficit recorde de R$ 20,5 bilhões.
A articulação política no Congresso tem sido frágil, resultando no pior aproveitamento legislativo desde 1988.
A aprovação popular oscilou, chegando a mínimas de 24% em momentos de inflação pressionada.
O lulismo, portanto, apresenta-se como projeto social-liberal de forte intervenção estatal, redistribuição de renda e reconstrução institucional. Porém, tensionado pelo desafio da responsabilidade fiscal¹ e pela dificuldade de formar maioria estável no Congresso.
Bolsonarismo e histórico: eficiência fiscal com erosão democrática?
O governo Jair Bolsonaro (2019-2022) entregou superávit primário em 2022 (R$ 54,9 bilhões), reduziu a dívida em relação ao pico de 2021, aprovou a contrarreforma da Previdência, nos moldes do mercado, privatizou a Eletrobras e registrou lucros recordes na Petrobras. Houve também avanço na infraestrutura rodoviária e reorganização das contas públicas.
Isso ocorreu porque, em grande medida, o governo deu de ombros para a agenda social. Lembre-se: os mais pobres fizeram filas para pegar ossos, porque estavam passando fome no auge da crise pandêmica. A esse respeito, escreveremos em artigo específico, pois houve também uma conjunção de fatores conjunturais.
No entanto, o saldo institucional é o ponto central do debate.
A condução da pandemia marcou profundamente o período. A postura negacionista, o confronto com recomendações médicas e científicas e a demora na aquisição de vacinas foram amplamente criticados.
O Brasil superou 700 mil mortes por covid-19. A CPI da Pandemia recomendou o indiciamento do então presidente por nove crimes. Mesmo que Bolsonaro sustente que agiu para preservar a economia e que estados tinham autonomia para restrições, o embate com a ciência e a promoção de tratamentos sem eficácia deixaram marcas políticas, sociais e morais.
No plano ambiental, houve aumento expressivo do desmatamento e enfraquecimento de órgãos de fiscalização, com desgaste internacional.
No plano institucional, as tensões com o STF foram constantes. O mandato terminou sob a sombra de ataques retóricos às urnas e à legitimidade do processo eleitoral, culminando na crise golpista frustrada que marcou a transição de poder.
Flávio: moderação estratégica ou continuidade disfarçada?
Flávio Bolsonaro tenta se descolar do tom incendiário do pai, mas não do projeto político. A estratégia anunciada de formar maioria no Senado para emparedar o STF e eventualmente promover o impeachment de ministros indica que o conflito institucional permanece no horizonte.
A questão central não é apenas de estilo, mas de substância: o bolsonarismo aceitará os limites do Estado de Direito ou seguirá operando sob a lógica de enfrentamento permanente às instituições?
A “moderação” discursiva será testada pela coerência prática?
O que está em jogo
A eleição de 2026 opõe, a rigor, duas visões de mundo reais:
- Uma que aposta em Estado ativo, políticas redistributivas, protagonismo ambiental e reconstrução diplomática — ainda que com desafios fiscais e de governabilidade.
- Outra que privilegia ajuste fiscal, contrarreformas estruturais e agenda conservadora, com histórico de tensão com a democracia liberal e as instituições de controle.
Mais que programas, estará em julgamento o conceito de democracia.
O lulismo pede voto com base na recuperação social e econômica. O bolsonarismo pede nova chance sob o argumento de eficiência e combate ao “sistema”.
O eleitor decidirá entre modelos que já governaram. Não haverá espaço para ilusões.
Retórica falaciosa
A propósito, é legítimo questionar: como alguém pode exercer mandato parlamentar por quase três décadas sem apresentar agenda substantiva de transformação nacional, chegar à Presidência da República e, ao fim do mandato, reivindicar para si o rótulo de “antissistema”?
A retórica da ruptura perde força quando confrontada com a biografia.
Quem passou 28 anos no Parlamento integrou — goste ou não — o próprio sistema que depois diz combater. E, ao assumir o comando do Executivo, teve à disposição os instrumentos formais para promover reformas estruturais profundas.
O discurso antissistema pode mobilizar afetos e indignações difusas, mas não substitui resultados concretos nem apaga responsabilidades acumuladas ao longo da trajetória pública. Em política, biografia também é argumento — e a coerência entre fala e prática costuma ser um dos critérios mais severos do julgamento eleitoral.
Plebiscito sobre o futuro democrático
Se 2022 foi a eleição da sobrevivência institucional, 2026 será a da consolidação — ou da reversão — desse processo.
A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro transcende nomes. É o embate entre um projeto que opera dentro das regras, ainda que sob tensões fiscais e políticas, e outro que testou reiteradamente os limites do sistema e flertou com sua ruptura.
A pergunta que ecoará nas urnas não será apenas “quem governa melhor?”, mas “queremos preservar a democracia e o Estado de Direito?”.
Marcos Verlaine é jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP.



